22/9/19
 
 
Alexandra Duarte 09/09/2019
Alexandra Duarte

opiniao@newsplex.pt

“Tem os amores trocados”

Esta voracidade desmesurada dos ativistas LGBT, alimentada pelos partidos mais extremistas, que encontram aqui o seu filão programático, se não for apaziguada e temperada poderá derivar para uma radicalização de posições.

A Folha de São Paulo, jornal brasileiro com maior circulação, publicou, a propósito da realização da Bienal do Livro no Rio de Janeiro, a imagem de um beijo entre dois homens, personagens da história de um livro. A notícia relata que a Prefeitura do Rio de Janeiro recomendou a retirada do livro, destinado a crianças e a adolescentes, em que os dois super-heróis são homossexuais; a organização da Bienal e o autor recorreram ao tribunal para impedir esta recomendação, mas o que aconteceu foi a confirmação da posição do prefeito do Rio de Janeiro, alegando que atentava contra o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Nada disto causa surpresa já que, atualmente, todas as notícias que vêm do Brasil são negativamente expetáveis e raramente são postas em causa. Também porque sempre que uma notícia envolve algum político ou decisor judicial e a causa LGBT, já é previsível o nível de crispação que passa para as palavras de quem escreve o artigo.

Sempre que leio sobre polémicas semelhantes parece que estou a ler sobre uma guerra aberta em que um dos lados luta fervorosamente pela sua soberania contra um gigante que lhe recusa esse reconhecimento e o persegue até à sua extinção. Se atentarmos nos direitos que a causa LGBT foi conquistando nas últimas décadas compreendemos que houve muitas mudanças, nomeadamente em Portugal. Foram vários os direitos que passaram a ser reconhecidos a pessoas que tinham obrigatoriamente de esconder a sua orientação sexual. Nos dias de hoje, não só temos casamentos entre pessoas do mesmo sexo como também é permitido que adotem crianças; os direitos sucessórios aplicam-se de igual forma nestas relações, tal como o direito de assistência à família e outros direitos de que os casais heterossexuais gozam no dia-a-dia.

Nas ruas cruzo-me frequentemente com jovens rapazes de mãos dadas e encontro casais mais maduros nas suas relações. As entidades empregadoras deixaram de poder alegar questões de orientação sexual no despedimento ou na contratação de funcionários. E, na realidade, isso não é sequer um assunto, apenas motivo de conversa para os coscuvilheiros. Mas todos nós somos alvos fáceis desta estirpe mais concentrada nos outros do que em si próprios.

Quando lemos uma notícia como esta é difícil ignorar o destaque excessivo que é dado no espaço mediático e a violência verbal dos ativistas pró-LGBT e dos próprios jornalistas que, selecionando primorosamente a adjetivação a que recorrem, denunciam despudoradamente a sua posição pessoal. A notícia ganha um cunho pessoal, enaltecendo e incentivando a cruzada de uma associação de indivíduos que reivindicam direitos já adquiridos, em nome dos tempos em que não os tinham. Quanto mais chocante for a notícia, maior é o seu efeito, melhor a mensagem passa.

As fronteiras desta luta há muito que deixaram de ser os direitos, liberdades e garantias para todos os indivíduos, independentemente da sua orientação sexual. A aceitação obrigatória de um arco-íris, com toda uma palete de cores e de tons, sob pena de sermos intolerantes caso consideremos excessivas algumas demonstrações próprias de um ambiente de espetáculo, colocou uma mordaça nos que, aceitando e reconhecendo a dignificação do indivíduo, não podem manifestar qualquer opinião contrária ao que está imposto e protegido por uma comunicação social que tomou o partido de uma causa com uma agenda hipervalorizada quando comparada com outras prioridades sociais.

Muito se tem feito em nome da igualdade de direitos. E com muita rapidez. O que tem contribuído para um nonsense por parte de quem reclama e exige, sinal de que ainda não consciencializou as suas vitórias e não fez o devido enquadramento dos seus direitos adquiridos na sociedade a que pertence.

Esta voracidade desmesurada dos ativistas LGBT, alimentada pelos partidos mais extremistas, que encontram aqui o seu filão programático, se não for apaziguada e temperada poderá derivar para uma radicalização de posições, tudo porque as exigências começam a soar a caprichos de vedetas que não conseguem dar um passo sem que os holofotes estejam apontados na sua direção. Há um excesso em toda esta agenda que pode estigmatizar negativamente quem, no seu recato, vive de acordo com a sua orientação sexual, tal e qual outros o fazem.

Durante muito tempo ouvi a expressão “tem os amores trocados”; hoje, esta expressão para mim soa a “tem um amor”. Nada mais.

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