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“O outro nome que a vida pode ter”. O tempo que se escoa e a arte da memória

“O outro nome que a vida pode ter”. O tempo que se escoa e a arte da memória

João Girão José Cabrita Saraiva 06/09/2019 22:25

O novo livro do jornalista Afonso de Melo, que reúne crónicas de mais de três décadas, é hoje apresentado no Café Farol, na Gafanha da Nazaré.

De António Ramos Rosa aos prodígios brasileiros Pelé e Tostão, de Assis Pacheco a Eusébio, de José Saramago e Manuel Alegre a Johan Cruyff, Franz Beckenbauer, Di Stéfano e Platini. Um desfile de estrelas do futebol, mas também da política, da literatura, da música, do teatro e dos jornais. Com todos eles Afonso de Melo conviveu ao longo das suas mais de três décadas de jornalismo. E convive ainda. “Tenho a felicidade de não me faltarem amigos”, resume o jornalista do i. “Difícil é escolher de quem falar. Nestes livros de crónicas falo deles todos”.

O mais recente destes livros chama-se O Outro Nome que a Vida Pode Ter – crónicas anacrónicas e pensamentos a conta-gotas (Âncora Editora) e é hoje apresentado por Paulo Sucena no Café Farol, Gafanha da Nazaré, às 17h. E porquê aí, nos territórios da Ria de Aveiro? É a sua praia de infância e de juventude, o local onde passa férias e onde tem escrito muita da sua prosa ao longo dos anos.

“Este livro é a continuação de Tira o Cavalo da Frente”, resume Afonso de Melo. “Junta crónicas, como o anterior, de trinta e tal anos de profissão (a ideia é que sejam cinco livros, saindo um cada ano), muitas publicadas em jornais como A Bola, O Jogo, France Football, Comércio do Porto, Soberania do Povo, os jornais para os quais trabalhei”, a que se juntam ainda o i e o semanário Sol, onde tem trabalhado nos últimos anos.

São “crónicas de viagens, de futebol, de boxe, de personagens famosas e nem tanto, de pessoas que fui conhecendo, de lugares da minha vida”, continua o autor, que foi assessor de Luiz Felipe Scolari quando o brasileiro era selecionador nacional, e que tem no futebol, na literatura, no xadrez, na história e nas viagens algumas das suas grandes paixões. “Além disso tem uma componente grande de memórias em muitos textos inéditos que foram feitos só para o livro”.

Textos que falam de desporto, de locais, de pessoas... e de como as perdas que a vida traz podem ser mitigadas pelo exercício da arte da memória. Oiçamos, pois, a voz do autor através de um excerto:

“Agora, que já passou tanto tempo, tenho a certeza de que quando nos reuníamos na esplanada do Café Farol, na praia da Barra, estávamos a comemorar o momento mágico de termos menos quarenta anos do que aqueles que temos hoje.

Acho que foi o Luís Fernando Veríssimo que escreveu: ‘Só sabemos até onde podemos ir quando já fomos’.

E nós íamos sempre, íamos sempre, como se não existissem regressos possíveis e a escolha não fosse nossa. E foi por termos ido sempre que não voltámos. De tempos a tempos tenho de vontade de voltar.

De voltar ao que fui e não existe mais.

De voltar não à inocência, mas voltar ao momento de ter a alegria de perdê-la.

[...]

Fiz sempre um esforço para ficar menino mas os anos não deixaram. E depois pergunto-me quando me olho, velho, ao espelho do que escrevo: a vida não tinha o direito de fazer isto connosco, pois não? Às vezes sou outra vez criança quando escrevo. Às vezes sou outra vez criança quando rio.

Às vezes sou outra vez criança quando esqueço.

Ninguém estava morto.

E não havia memória.

Às vezes, quando escrevo, ando comigo mesmo ao colo.

Ando com os meus mortos ao colo. Os mortos mesmo mortos de morrer e os mortos ainda por morrer que apenas deixaram de existir.

Há sempre uma voz. Assim muito ao longe, mas ouço-a todos os dias. É a voz da minha mãe que me chama da janela da infância. E tento que desilusão não seja o outro nome que a vida pode ter”.

 

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