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Vítor Rainho 03/09/2019
Vítor Rainho

vitor.rainho@newsplex.pt

Noticiar ou não a doença de figuras públicas?

Os jornais não podem ser abutres, mas há casos em que os eleitores querem saber a razão do comportamento de determinado político e se isso condiciona ou não a sua atividade profissional. Quanto à filha de Luis Enrique, que descanse em paz

A história comoveu Espanha e no último fim de semana em todos os jogos de futebol da primeira divisão respeitou-se um minuto de silêncio pela morte da filha do antigo selecionar nacional Luis Enrique. Xana, de nove anos, lutava contra um cancro nos ossos, motivo pelo qual o pai abandonou a seleção nacional, invocando razões pessoais. Quase todos os jornais sabiam da razão, mas nenhum noticiou o drama da menina. Fizeram bem ou mal? Eis uma questão para um milhão de euros.

Como é natural, os amantes do futebol queriam saber as razões pessoais que tinham levado o treinador a deixar o comando da equipa nacional, e como não foi dada nenhuma explicação abria-se a porta à especulação.

Mas a imprensa espanhola tem uma grande tradição de não revelar determinados factos da vida pessoal de figuras conhecidas. As traições do antigo Rei, Juan Carlos, há muito que eram conhecidas, mas só foram reveladas quando se falou que teria gasto dinheiro em caçadas em África com uma das amantes. Tenho a vaga ideia de que a notícia surgiu depois da figura em causa se sentir despeitada.

Também em França a imprensa segue o mesmo caminho, já que o antigo Presidente Mitterrand tinha uma filha ilegítima e só quando esta era maior e vacinada é que se noticiou a sua existência. Hollande também teve esse privilégio, já que as suas escapadelas noturnas foram conhecidas muito tarde. E em Portugal? Pedro Passos Coelho, que me lembre, nunca abriu a boca sobre a doença da sua mulher, mas não faltam notícias sobre a mesma. Melhor sorte teve António Guterres quando ainda era primeiro-ministro e tinha que se deslocar a Londres para ajudar a mulher de então, que se debatia com uma doença grave. Só no final da doença é que os jornais deram conta do assunto.

Os jornais não podem ser abutres, mas há casos em que os eleitores querem saber a razão do comportamento de determinado político e se isso condiciona ou não a sua atividade profissional. Quanto à filha de Luis Enrique, que descanse em paz.

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