20/11/19
 
 
José Cabrita Saraiva 29/08/2019
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Democracia em suspenso

A “golpada” de Boris Johnson revela um certo “chico-espertismo” (não é só em Portugal que ele existe) e falta de respeito pelas instituições, e isso é algo que dificilmente se pode perdoar a um estadista. Pior: pode com propriedade ser considerada uma suspensão das regras numa das mais perfeitas democracias do mundo.

Os britânicos votaram a favor da saída do Reino Unido da União Europeia e parecem ter em Boris Johnson o homem certo para levar a cabo essa tarefa. Depois de meses de impasse com Theresa May em que o processo se arrastava penosamente, o novo primeiro-ministro já mostrou que não deixará que nada se interponha entre si e o seu objetivo. A bem ou a mal, o Brexit vai mesmo para a frente – e provavelmente será a mal.

Johnson quer sair a 31 de outubro, nem que para isso tenha de recorrer a métodos menos ortodoxos, como mostrou ontem ao pedir a suspensão dos trabalhos parlamentares até às vésperas da data limite, impedindo assim a formação de uma espécie de aliança negativa que inviabilizasse o processo. Num jogo do gato e do rato, arranjou um estratagema para “varrer” a oposição de uma penada – e a Rainha anuiu.

A medida mostra bem aquilo de que é feito o primeiro-ministro britânico: um político determinado, capaz de soluções inesperadas e porventura brilhante, mas também destituído de grandes escrúpulos.

É verdade que há debates que não levam a lado nenhum, e este do Brexit tem sido especialmente labiríntico. Mas o que Johnson disse ao pedir à Rainha a suspensão dos trabalhos do Parlamento para lá do que estava previsto é que os fins justificam os meios.

Esta “golpada” revela um certo “chico-espertismo” (não é só em Portugal que ele existe) e falta de respeito pelas instituições, e isso é algo que dificilmente se pode perdoar a um estadista. Pior: pode com propriedade ser considerada uma suspensão das regras numa das mais perfeitas democracias do mundo. Não é fatal, mas abre um precedente perigoso.

P.S. Por falar em suspensão da democracia, por cá tivemos o Ministério Público (MP) a pedir a dissolução do Sindicato de Motoristas de Matérias Perigosas. Simpatize-se ou não com Pardal Henriques (e eu não simpatizo), este pedido mostra que o MP, em vez de se assumir como um árbitro isento, quer interferir na greve agendada. Um sinal preocupante.

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