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Itália. O catenaccio já lá vai: agora, o que está a dar é o futebol total

Itália. O catenaccio já lá vai: agora, o que está a dar é o futebol total

AFP Bruno Venâncio 28/08/2019 22:51

A Serie A foi, de entre os grandes campeonatos da Europa, aquele onde se registaram mais golos na primeira jornada de 2019/20. Em Itália, não havia nada igual há quase 40 anos – – e melhor, só há mais de seis décadas. Há quem diga que o futebol já não é o que era; talvez seja a isto que se referem...

Nem Inglaterra, nem Espanha, nem a Alemanha e tão pouco a França – já para não falar de Portugal: em 2019/20, o campeonato europeu de topo que mais golos registou na sua primeira jornada foi a Serie A, de Itália (33). Uma novidade, que eventualmente pode ajudar à construção de uma nova imagem para o futebol italiano, ainda hoje tão conotado com a expressão “catenaccio” (que significa literalmente “porta trancada”), cunhada nas décadas de 40 e 50 do século passado por nomes históricos do treino em Itália como Nereo Rocco ou Helenio Herrera e que se caracterizava por uma estratégia ultra defensiva, assente na solidez dos setores mais recuados e na velocidade no contra-ataque.

Na década de 70, quando o Ajax e a seleção da Holanda surpreenderam o mundo com o “futebol total” preconizado por Rinus Michels e interpretado (quase) na perfeição por Johan Cruyff e seus colegas, pensou-se que o catenaccio estava ultrapassado de vez – pelo mundo fora, as publicações desportivas davam conta da sua morte. Nada mais errado: daí para cá, foram variadíssimos os casos de equipas que conquistaram grandes competições – impossível esquecer a vitória da Grécia no “nosso” Euro 2004 ou do Chelsea na Liga dos Campeões de 2011/12, entre muitos outros exemplos.

E a verdade é que, havendo evidências de que o catenaccio afinal ainda resiste, torna-se incontornável associá-lo a Itália, campeonato onde se privilegia – de forma claramente assumida – o trabalho tático e físico, especialmente no que respeita aos defesas. Essa foi, por exemplo, uma das maiores preocupações dos fãs acérrimos de Cristiano Ronaldo quando foi oficializada a mudança para a Juventus: a de que o número de golos de CR7 poderia diminuir exponencialmente em solo italiano, o que reduziria drasticamente as suas hipóteses de almejar nova eleição para melhor futebolista do mundo.

Ronaldo e os outros É um facto que tal aconteceu – a parte de Ronaldo marcar menos; a outra, por agora, ainda está por saber. Foram 21 em 30 jogos – em 2017/18, na época de despedida do Real Madrid, tinha marcado 26 em 27 partidas efetuadas. No entanto, houve quem fizesse mais: Quagliarella, que celebrou o 36.º aniversário em janeiro, foi o melhor marcador do campeonato, apontando 26 golos ao serviço da modesta Sampdória; Duván Zapata fez 23 na melhor campanha de sempre da Atalanta e o “desconhecido” Piatek surgiu da Polónia para marcar 22, divididos por Génova e AC Milan.

A chegada de Ronaldo ao calcio – mas também do ainda agora referido Piatek, bem como de Milik, Mertens, Icardi, Gervinho, Mandzukic, Higuaín e tantos outros estrangeiros de renome, que se juntaram aos italianos Immobile, Pavoletti, Belotti ou Insigne, entre outros – terá contribuído sobremaneira para uma mudança de paradigma em Itália, ainda que os últimos anos já denunciassem essa alteração (26 golos na época passada, 32 em 2016/17, 27 em 2015/16 ou 31 em 2011/12). Um cenário que se acentuou já nesta temporada, com mais uma mão cheia de estrelas do futebol mundial a aceitar o chamamento transalpino.

Vários deles inscreveram desde logo o seu nome nas listas de marcadores na primeira ronda, a mais concretizadora dos últimos 36 anos: para encontrar uma jornada inaugural com mais golos na Serie A, é preciso recuar quase 70 anos (35 tentos em 1955/56). A começar por um dos mais ilustres: Kévin-Prince Boateng, que chegou à Fiorentina a custo zero, tal como Franck Ribèry, e apontou um dos golos dos viola no louco 3-4 com o Nápoles – já um sério candidato a melhor jogo da temporada.

Mas também Romelu Lukaku, que depois de uma carreira quase inteiramente construída na Premier League aceitou trocar o Manchester United pelo Inter de Milão, faturando logo na estreia, na goleada nerazzurra sobre o Lecce por 4-0. Curiosamente, o carrasco do seu grande rival, AC Milan, seria igualmente um novato na Serie A... mas também desconhecido do grande público: Rodrigo Becão, central brasileiro de 23 anos que chegou a Itália após uma época nos russos do CSKA de Moscovo, cedido pelo Bahia. Foi dele o golo que permitiu à Udinese vencer os rossoneri, que parecem não se conseguir endireitar nunca mais, venha o treinador ou jogadores que vierem: Marco Giampaolo, que substituiu Gennaro Gattuso, tem à sua disposição nomes como Piatek, Samu Castillejo, Borini, Suso ou os portugueses Rafael Leão e André Silva, mas nem assim mudou a sina milanesa – o último, de resto, está com pé e meio fora de Milão.

Para chegar a esse número generoso de tentos marcados, muito contribuiu o tal jogo louco no Estádio Artemio Franchi, em Florença, mas também a citada goleada do Inter de Milão sobre o Lecce, o triunfo da Atalanta no terreno da SPAL (2-3) ou o empate a três entre Roma e Génova, na estreia de Paulo Fonseca no comando técnico do conjunto da capital. Houve ainda a registar um golo luso, curiosamente apontado por um jogador de características defensivas: Miguel Veloso, que fez o primeiro jogo no campeonato pelo Verona – do qual já é capitão. O médio, que aos 33 anos trocou o Génova pelo emblema recém-promovido à Serie A, cobrou de forma sublime um livre direto que garantiu um ponto à sua equipa no empate caseiro com o Bolonha (1-1), numa partida que ficou marcada pelo regresso de Sinisa Mihajlovic: nitidamente fragilizado, após 41 dias internado no hospital onde faz tratamento contra a leucemia de que padece, o ex-futuro treinador do Sporting fez ainda assim questão de estar no banco na abertura do campeonato, como havia prometido ao plantel.

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