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Veneza. A ditadura do público, mais a do politicamente incorreto

Veneza. A ditadura do público, mais a do politicamente incorreto

DR Cláudia Sobral 28/08/2019 22:22

De novo entre polémicas, arranca hoje, com La Vérité, de Kore-eda, o 76.º Festival de Cinema de Locarno. E, pela primeira vez em 14 anos, está um filme português a competir pelo Leão de Ouro: A Herdade, de Tiago Guedes.

Foi ainda este mês que Vitalina Varela, o mais recente filme de Pedro Costa, foi o grande vencedor do Festival de Locarno, com um Leopardo de Ouro entregue ao realizador e outro, de prata, de melhor atriz, a Vitalina, a cabo-verdiana que o protagoniza. E o mês não terminará antes que arranque, já hoje, o 76.º Festival de Cinema de Veneza, que começa com La Vérité, do japonês Hirokazu Kore-eda, como filme de abertura. E com um regresso, ao fim de 14 anos de ausência, do cinema português à competição – a seção da qual sai o vencedor do Leão de Ouro – com A Herdade. Um filme de Tiago Guedes com Rui Cardoso Martins como coargumentista, um elenco a contar com Albano Jerónimo, Sandra Faleiro e Miguel Borges e produção de Paulo Branco.

O filme que chega às salas portuguesas ainda em setembro e que, depois de Veneza, cruzará o Atlântico em direção ao Festival de Cinema de Toronto, é descrito pela produção como a “saga de uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa”, na margem sul do Tejo, num “retrato da vida histórica, política, social e financeira de Portugal” desde a década de 1940 até aos dias de hoje.

De resto, mais do mesmo. Ou seja, um desfile de nomes como Olivier Assayas, Noah Baumbach, Pablo Larraín, Steven Soderbergh, Todd Phillips, James Gray, com o antecipado Ad Astra, protagonizado por Brad Pitt, entre outros. Outros entre os quais figura o sempre controverso, e mais ainda em tempos pós-#MeToo e Time’s Up, Roman Polanski. Ao qual se junta o também envolvido num escândalo por alegadas agressões sexuais Nate Parker, com o seu novo filme, American Skin. E apenas dois filmes realizados por mulheres: a saudita Haifaa al-Mansour, com The Perfect Candidate, e Shannon Murphy, com Babyteeth.

Polémicas nada à parte É o segundo ano consecutivo em que a quase ausência de olhares femininos no conjunto de filmes selecionados para a competição principal do festival dá que falar. Titulava, aliás, por estes dias a revista da especialidade Hollywood Reporter “’Completely Tone Deaf’: How Venice Became the F-You Film Festival (’Completamente surdo: como Veneza se tornou no festival de cinema F-te). Um artigo começava com uma pergunta, e uma pronta resposta: “Quem tem medo de uma visão pobre? Aparentemente, não o Festival de Cinema de Veneza. Um ano depois de assinar um compromisso de paridade de género, numa altura em que as questões levantadas pelo #MeToo e o Time’s Up varreram a indústria, o festival arregalou olhos com uma série de decisões que estão a merecer condenação.”

À mesma revista, a copresidente da Rede de Audiovisual de Mulheres da Suíça, Laura Kaehr, comentava: “É como se gostassem de ser o último dinossauro em pé”. Kaehr é também a realizadora do documentário Becoming Giulia, que aborda a discriminação de género no mundo do ballet. E, do site ativista Women and Hollywood, Melissa Silverstein argumentava: “Isto [estas questões] fazem parte do mundo em que vivemos agora. Não se pode simplesmente fingir que ter uma pessoa como o Roman Polanski ou o Nate Parker na programação não vai causar uma grande reação”.

“A nenhum festival de cinema [...] pode ser pedido que ofereça respostas para questões complexas como aquelas que dizem respeito ao futuro do cinema nos anos por vir”, começa por escrever no texto de apresentação desta edição. “No máximo, o que se pode esperar é que ofereça exemplos de diferentes abordagens que inspirem a produção de filmes em várias partes do mundo, pelo menos as que podem ser alcançadas através dos esforços de pesquisa da equipa de seleção. E desse que uma das primeiras coisas tornadas obsoletas parece ser a hierarquia de valores pelos quais nos regemos até agora, e o velho sistema de categorias que consistia em ‘bom e mau, direita e esquerda, alto e baixo, forte e fraco’, tudo o que podemos esperar é uma nova conceção para um entendimento comum que esteja em sintonia com os nossos tempos.”

Aparentemente, o diretor artístico do festival, Alberto Barbera, tem um problema com o politicamente correto. Um problema que faz questão de celebrar. Bem como a sua preferência pelo cinema capaz de atrair mais público. “Abrimos a competição a um certo tipo de filmes mais orientado para as audiências mas que têm, ao mesmo tempo, uma certa qualidade”, dizia já no ano passado ao Indiewire.

Um discurso que vem repetindo já desde outras edições e que levou ao extremo nas novamente polémicas declarações que fez na entrevista que concedeu ao Público, ontem publicada, justificando o desaparecimento do cinema português da competição de um festival que ao longo dos anos foi recebendo nomes como Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Pedro Costa, Teresa Villaverde, entre outros. “O cinema português, por razões económicas talvez, é excessivamente autorreferencial, rigoroso e austero; não procura e por isso não pode encontrar o contacto com o público.” E recorre, ele próprio, ao exemplo de Pedro Costa, que em Locarno acabou de vencer um Leopardo de Ouro. “Um grande autor, vencedor do Festival de Locarno com um filme que agradou muito à crítica. Mas pergunto-me: em quantos países poderá ser visto? [...] O que tentei fazer nestes anos foi olhar para as transformações do cinema, assinalando os filmes que estão a trabalhá-las, e abrir o festival a obras que habitualmente não entram nas competições porque não são suficientemente rigorosas ou suficientemente de autor.”

E concluía: “Em geral, é difícil receber de Portugal propostas que tenham uma respiração internacional e que possam esperar entrar num concurso onde aparecer autores confirmados que sabem o que é falar com um público mais vasto do que o da cinefilia mais radical”.

De cinema português, haverá contudo mais do que A Herdade de Tiago Guedes para celebrar nesta edição de Veneza. Na programação de curtas-metragens da Orizzonti, secção que aposta nas novas tendências estéticas e expressivas do cinema internacional, estreia também um novo filme de Leonor Teles, que em 2016 venceu em Berlim o Urso de Ouro das curtas com Balada de um Batráquio. Em Veneza, nessa mesma secção à qual em 2016 Marco Martins levou São Jorge (que deu a Nuno Lopes o prémio de melhor ator), a jovem realizadora estreia-se com a curta-metragem Cães que Ladram aos Pássaros.

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