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Relação Brasil- França. Não é só a Amazónia que está a arder

Relação Brasil- França. Não é só a Amazónia que está a arder

AFP Carlos Diogo Santos 28/08/2019 14:55

A guerra de palavras dura desde o fim da última semana, mas esta tensão vem de trás. E Bolsonaro exige agora um pedido de desculpas de Macron para aceitar a ajuda do G-7.

Muito resumidamente a tensão entre Brasil e França adensou-se assim: Macron disse que Bolsonaro mentiu e que não está verdadeiramente preocupado com o ambiente. Bolsonaro diz que não admite ofensas, ‘ri-se’ nas redes sociais de comentários negativos à mulher de Macron, e afirma que não aceita que ponham em causa a soberania da Amazónia brasileira. E quanto ao apoio de 20 milhões de dólares aprovados esta semana pelo G-7, o Presidente brasileiro garantiu ontem que só será aceite se Macron pedir desculpas. Mas o Presidente francês, que já havia dito esperar que os brasileiros venham a ter um Presidente à altura, parece não estar para aí virado. Pelo meio, já se meteu Donald Trump, para apoiar e reconhecer o trabalho que o homólogo brasileiro tem feito. E Portugal, que defende solidariedade e não sanções.

Mas vamos por partes que o caso, apesar de estar ao nível de uma discussão de condomínio, é complexo e tem repercussões internacionais. Há já diplomatas a afirmar que desde a “guerra da lagosta”, na década de 60, que as relações entre os dois países não estavam tão tensas – na altura na sequência de uma autorização do Brasil para que França pudesse fazer estudos sobre viveiros de lagostas no Nordeste brasileiro, os franceses começaram de forma ilegal a pescar estes crustáceos, uma situação que pôs frente-a-frente as forças armadas dos dois países. Este foi o incidente mais grave da história recente, mas o certo é que Brasil e França têm tido muitas divergências sobre assuntos delicados, como no acordo nuclear com o Irão, assinado em 2010, do qual Brasil e Turquia foram mediadores, e na intervenção francesa no Mali, em 2013.

A guerra de palavras da semana passada começou a desenhar-se nos últimos meses. No final de junho, naquilo que foi entendido como uma resposta às constantes pressões de França sobre questões ambientais, Bolsonaro cancelou uma reunião em Brasília à última hora com o ministro dos Negócios Estrangeiros de França Jean-Yves Le Driam por ter assuntos urgentes para tratar tendo, no entanto, feito um live nas redes sociais a cortar o cabelo – o que teve grande destaque na imprensa francesa.

Mas a gota de água foi Macron ter levado o assunto dos incêndios na Amazónia à reunião dos G-7, realizada em França, na última quinta-feira. No seu Twitter, o Presidente francês não se conteve e anunciou: “A nossa casa está a arder. Literalmente. A floresta Amazónia, o pulmão que produz 20% do oxigénio do nosso planeta, está em chamas. É uma crise internacional. Membros da cimeira do G-7, vamos discutir esta emergência”.

Bolsonaro não gostou e considerou uma atitude colonialista e com o objetivo de conseguir “ganhos políticos pessoais”: “A sugestão do Presidente francês, de que assuntos amazónicos sejam discutidos no G-7 sem a participação dos países da região, evoca mentalidade colonialista descabida no século XXI”.

Na última sexta-feira, Macron voltou ao ataque e chamou mentiroso ao Presidente brasileiro, afirmando ainda que Bolsonaro não estava comprometido com as metas ambientais com que se comprometeu na reunião dos G-20, realizada em Osaka, no Japão, no passado mês de junho. E mais do que criticar, Macron avançou mesmo com a hipótese de uma oposição do seu país ao acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, devido à falta de preocupações manifestada com a Amazónia.

Também no Twitter, Bolsonaro reagiu, dizendo que lamentava a postura do homólogo francês por este chamá-lo mentiroso.

Foi nesta fase da guerra que Portugal entrou em jogo, António Costa disse aos jornalistas não concordar com a proposta francesa de sanções ao Brasil, manifestando total solidariedade com aquele país e para com o povo brasileiro.

“O Brasil precisa de solidariedade e não de sanções. O que nós precisamos é que haja intervenção para ajudar a salvar a Amazónia, não é aumentar o número de problemas que existem nestas relações entre a Europa e o Brasil”, afirmou António Costa, separando os fogos na Amazónia do acordo entre os dois blocos.

No dia seguinte, o Presidente francês, que já se encontrava na reunião dos G-7, voltou à carga falando da Amazónia como “o nosso bem comum”. Nesse mesmo sábado, Bolsonaro faz uma declaração pública ao país (que arrancou um panelaço em várias zonas do Brasil), onde, além de elencar todas as medidas tomadas pelo Governo para combater os fogos e reiterar que o Brasil é soberano, condenou a ameaça de sanções feitas pela França.

Mas se a discussão entre os dois já tinha atingido vários pontos baixos, Bolsonaro conseguiu baixar ainda mais o nível da discussão, ao comentar uma publicação feita no seu Facebook. Um seguidor seu coloca a imagem de Bolsonaro com a sua mulher e a de Macron com a primeira dama francesa com a seguinte legenda: “Entende agora pq Macron persegue Bolsonaro?”. Perante esta sugestão de que Michelle Bolsonaro é mais bonita e mais jovem do que Brigitte Macron, Jair Bolsonaro não hesitou em responder: “Não humilha cara. Kkkkkk”.

E no domingo, ainda sem resposta de Macron, Bolsonaro divulga nas redes sociais um vídeo da reunião dos G-7 em que a chanceler alemã dá conta de que falará com o Presidente brasileiro para lhe passar a ideia de que o grupo dos líderes presentes naquela reunião não estão contra ele. Macron pergunta de seguida: “Contra ele quem?”. E Merkel reage: “Bolsonaro”.

“Desde o princípio busquei o diálogo junto aos líderes do G-7, bem como da Espanha e Chile, que participam como convidados. O Brasil é um país que recupera sua credibilidade e faz comércio com praticamente o mundo todo”, refere Bolsonaro na publicação do vídeo. O Presidente brasileiro agradece ainda aos chefes de Estado que estão ao lado do Brasil numa “crise que só interessa aos que querem enfraquecer o Brasil”.

O clima estava tão tenso que, segundo a Folha de São Paulo, o ministro das Relações Exteriores brasileiro reuniu nesse domingo por videoconferência com os embaixadores do Brasil na Europa e anunciou que estariam obrigados a suspender as suas férias pelo menos nas duas semanas seguintes. Terão sido dadas indicações para que as embaixadas usem as redes sociais para rebater críticas às políticas de Bolsonaro e aos seus efeitos na destruição da Amazónia.

Foi só nas primeiras horas desta semana que Macron respondeu ao comentário de Bolsonaro sobre a sua mulher: “Totalmente desrespeitoso”. E acrescentou esperar que os brasileiros tenham em breve “um Presidente com um comportamento à altura”. Foi também na segunda feira que se ficou a conhecer que o G-7 tinha decidido enviar uma ajuda de emergência de 20 milhões de dólares para auxiliar no combate às chamas.

Do lado do Governo brasileiro, uma das primeiras reações surgiu de Onyx Lorenzoni, o ministro-chefe da Casa Civil: “Agradecemos, mas talvez esses recursos sejam mais relevantes para reflorestar a Europa. Macron não consegue sequer evitar um previsível incêndio numa igreja que é património da humanidade (a Catedral de Notre-Dame) e quer ensinar o quê para nosso país? Ele tem muito o que cuidar em casa e nas colónias francesas”.

Mas ontem Bolsonaro acabou por dizer aos jornalistas que ainda havia uma hipótese para aceitar a ajuda dos G-7: “Primeiramente, o senhor Macron deve retirar os insultos que fez à minha pessoa. Primeiro, chamou-me mentiroso. E depois, informações que eu tive, de que a nossa soberania está em aberto na Amazónia.”

“Para conversar ou aceitar qualquer coisa de França, que seja das melhores intenções possíveis, ele vai ter de retirar essas palavras e daí a gente pode conversar”, continuou ainda Bolsonaro, recusando a ideia de que ofendeu a primeira dama francesa: “Eu não botei aquela foto. Alguém que botou a foto lá e eu falei para ele não falar besteira”.

No Twitter, o Presidente brasileiro recebeu ontem de Donald Trump mais um elogio: “Ele está fazendo um ótimo trabalho para o povo do Brasil – não é fácil”.

“Não posso senão constatar que o Presidente Bolsonaro me mentiu na Cimeira de Osaka”“A Amazónia é o nosso bem comum. Estamos preocupados”“Foi totalmente desrespeitoso [para com a minha mulher]. Espero que o Brasil tenha em breve um Presidente à altura”“Não humilha cara. Kkkkk [comentário sobre uma comparação entre a primeira dama brasileira e a francesa]”“Incêndios florestais acontecem em todo o mundo e isso não pode ser pretexto para possíveis sanções”“Lamento a posição de um chefe de Estado como o da França, se dirigir ao PR brasileiro como ‘mentiroso’”

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