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Amazónia. A coisa tá preta, mas muitos tentam pôr tudo às claras

Amazónia. A coisa tá preta, mas muitos tentam pôr tudo às claras

Joana Marques Alves 27/08/2019 11:42

Várias centenas de pessoas juntaram-se na praça do Largo de Camões, em Lisboa, para dizerem não à destruição da Amazónia. Outras manifestações e com outros contornos ocorreram no Brasil.

Quem saía do metro na Baixa-Chiado sabia logo para onde tinha de ir. Bastava seguir a música. “Aqui na terra ‘tão jogando futebol/ Tem muito samba, muit choro e rock’n’roll/ Uns dias chove, noutros dias bate sol/ Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”.

A voz de Chico Buarque chamava as centenas de pessoas que se juntaram ontem no praça Luís de Camões. Eram 18h00 e ainda não havia muita gente. “O meu namorado já lá está e diz que só estão umas 30 pessoas”, disse ao i Filipa, de 18 anos. Tinha acabado de sair do trabalho e estava a caminho do Chiado com um cartaz na mão. “Acho que temos de fazer mais para ajudar nesta questão da Amazónia. A verdade é que a floresta estava a arder há dias e nada era feito. Foi preciso algum tempo para alguém agir. Além disso, organizações importantes como a ONU pouco ou nada têm dito”, diz ao i.

À chegada, não estavam 30, mas pouco mais de 100. No entanto, com o passar do tempo, o número foi aumentando e já eram várias centenas de pessoas junto à estátua do poeta. E com o número de pessoas a aumentar também a música mudou: os tambores foram dando ritmo ao protesto, que foi ganhando cada vez mais força. “Bolsonaro sai, Amazónia fica!” era uma das palavras de ordem que a organização incentivava os manifestantes a dizerem com toda a força.

Peter vive em Portugal há 3 anos e marcou presença na concentração com Leonardo, o seu filho de 4 anos. “Ele diz que gosta muito dos animais da selva”, diz na brincadeira. “É importante vir a manifestações como estas para mostrar aos políticos que as pessoas consideram este assunto importante”, explica ao i, apontando o dedo ao presidente brasileiro: “a culpa nunca é apenas de uma pessoa, mas Bolsonaro deve ser responsabilizado por estes fogos. É ele que deixa os agricultores e produtores fazerem o que quiserem. Atear fogos, o que for”.

Rui, de 55 anos, viu o artigo do i sobre as toneladas de carne e decidiu usar essa informação no seu cartaz. Vegetariano e ativista, defende que a mudança deve partir do poder político, mas não só : “Sou vegetariano, ambientalista, ativista. A principal causa da desflorestação é a procura de carne. Muita gente não associa uma coisa à outra. Cabe a cada um de nós mudar a nossa postura. Não se pode pedir a ONGS que façam alguma coisa, quando nós não fazemos nada. Não vale de nada apelarmos a mudanças se não mudarmos primeiro”, refere.

Também Francisco Guerreiro, do PAN garante que “é importante que se faça alterações à nível político e pessoal. Cada vez que vamos ao supermercado e colocamos comida no nosso prato estamos a fazer uma escolha direta e dizer se protegemos ou não a Amazónia”, defendeu ao i. O eurodeputado diz que é importante que António Costa tenha uma posição firme em relação ao congelamento do acordo com a Mercosul por forma a “garantir que são criadas medidas concretas para proteger a Amazónia. Não basta dizer que somos solidários para com os países da América Latina, é preciso medidas concretas”.

E, ao contrário do que muitos possam pensar, quem participa neste tipo de iniciativas não o faz “só por moda”, como disse ao i Natércia, de 56 anos. “É importante que nós cidadãos deste lado do mundo também façamos pressão. Não apontemos apenas o dedo a Bolsonaro, porque embora tenha muita culpa e diga atrocidades sobre este tema, esta é uma responsabilidade do mundo inteiro. É muito bonito que se diga que é o pulmão do mundo. Então se assim é, temos todos de tratar dele”, defende.

Uma opinião partilhada pela filha de Natércia, Cremilde, que aproveita para lamentar a falta de adesão e de interesse por parte da sua geração. “Já tinha feito uma doação e tentei, através das redes sociais, alertar para o que se estava a passar e chamar a atenção de muita gente da minha geração que está completamente a dormir. Estava à espera que estivesse aqui mais gente. Temos de perceber que temos de mudar de hábitos. Que não podemos fazer certas coisas só porque gostamos muito. Porque gostamos muito de carne, daquele champô ou daquela maquilhagem. Temos de acordar”, diz ao i a empresária de 29 anos.

Mas a verdade é que, aos poucos, a praça foi recebendo cada vez mais pessoas, que dançavam e cantavam ao som dos tambores. A coisa continua preta, mas há cada vez mais gente a sair à rua para que fique cada vez mais clara ( e verde) para muitos.

 

“Não queimem nosso futuro”

Outro cenário e com outros contornos foi o que se assistiu no Brasil, onde milhares de pessoas saíram à rua pela Amazónia. Fortaleza, Manaus, Belo Horizonte, e Porto Velho foram apenas alguns dos sítios onde se assistiu manifestações no domingo passado.

Na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, foram muitos os que decidiram mostrar o seu apoio à preservação da floresta e o seu desagrado para com as políticas de Bolsonaro. As atrizes Sónia Braga e Maitê Proença foram algumas das figuras mediáticas que se juntaram a este protesto, organizado pelo movimento 342 Amazónia. “A Amazónia não aguenta mais”, “Não queimem o nosso futuro” ou “Fora Salles [o ministro do Ambiente, Ricardo Salles]” foram das frases mais ouvidas ao longo da caminhada, que durou três horas. De acordo com a Folha de São Paulo, a organização estima que cerca de 15 mil pessoas tenham participado nesta iniciativa.

Caetano Veloso também esteve presente e fez questão de lembrar os povos indígenas que estão a ser afetados pelos incêndios, cantando à capela a música Um Índio, da sua autoria. O momento foi amplamente divulgado nas redes sociais. “Estou aqui porque estamos defendendo a causa do meio ambiente contra as decisões e as coisas que são ditas pelo poder incumbente do Brasil agora. Nesse momento, com as queimadas na Amazónia e a repercussão mundial, a gente vê o caso muito explicitado e está se articulando. É importante (a repercussão internacional) para que os dirigentes tomem consciência”, disse o músico.

 

18 milhões para a Amazónia

E este caso está, de facto, a preocupar as autoridades internacionais. Ontem, no último dia do encontro dos G7, que decorreu em Biarritz, em França, os líderes de sete dos países mais poderosos do mundo anunciaram que irão ajudar o combate às queimadas na Amazónia com pelo menos 20 milhões de dólares, cerca de 18 milhões de euros.

O presidente francês explicou que estão a ser feitos contactos “com todos os países da Amazónia”, por forma a finalizar compromissos tanto a nível técnico como financeiro. Ao contrário do que foi inicialmente avançado, Emmanuel Macron não fez qualquer referência a uma eventual ajuda no processo de reflorestação nem ao acordo comercial da União Europeia com o Mercosul, assinado em junho.

O que é certo é que só no domingo, o Brasil começou a atacar o problema: Bolsonaro autorizou operações militares em sete estados brasileiros. Segundo a imprensa local, deverá ser autorizado em breve o uso de elementos da Força Nacional de Segurança no combate aos incêndios. Além disso, estão a ser também deslocados bombeiros e mais meios aéreos para o local. As autoridades vão também abrir uma investigação para apurar a veracidade das denúncias que dão conta de reuniões entre sindicalistas e produtores rurais para combinarem o “dia do fogo” no Pará. O governo libertou ainda 28 milhões de reais (cerca de seis milhões de euros) para o apoio a atividades extraordinárias que sejam necessárias para travar as chamas.

Recorde-se que, só no Brasil, foram registados, até 21 de agosto, mais de 75 mil incêndios florestais. Destes, cerca de 40 mil aconteceram na zona da Amazónia, revela o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Dos 550 milhões de hectares que ocupa, 60% da área desta floresta fica em território brasileiro.

 

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