19/9/19
 
 
José Paulo do Carmo 23/08/2019
José Paulo do Carmo

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Doar órgãos. Dar vida

Uma menina muito próxima de mim precisa de um fígado para prosseguir a sua vida que será seguramente longa e feliz. Tem só 3 aninhos acabados de fazer, e parte-me o coração ver a tristeza nos olhos dela por não perceber muito bem o que se passa e estar farta de estar confinada a uma sala de hospital. Mas vai ficar bem. No fim vai ficar tudo bem, tenho a certeza

Não deixo no entanto de pensar vezes sem conta que este tema dos transplantes e da doação de órgãos só nos vem à memória quando ‘nos’ calha, altura em que passa a fazer parte do nosso léxico. É só aí que se nos estende para a pele a preocupação, o desespero dos que nos são próximos e a angústia da espera que a ela se indexa de uma forma obrigatória e decisiva.

Portugal é dos países mais solidários e altruístas do mundo. Não sou eu que o digo, são as estatísticas que nos mostram um povo disposto a dar um pouco de si para que outros possam viver melhor. Na realidade e, ao contrário do que eu pensava, para se ser dador basta nascer – é para quem não quer ser que existe um formulário a ser preenchido a negar a cedência dos órgãos depois de falecer. E são muito poucos os casos em que isso acontece. O que acontece é que a manta do Serviço Nacional de Saúde não é infinita e, logicamente, não se estende da forma como queríamos ou gostaríamos. Por isso, para que órgãos possam ser analisados para doação, é necessário que a pessoa que falece esteja nos cuidados intensivos de um dos Hospitais designados para o efeito. Só reunidas essas condições e após rigoroso e exaustivo exame às condições de saúde dos próprios órgãos se determina a sua utilidade para ser reutilizado numa outra pessoa.

Para além disso, não podemos simplesmente procurar na internet ou adquirir diretamente o que precisamos porque isso daria azo ao crescimento do tráfico humano e de órgãos, originando uma onda de criminalidade que abriria uma caixa de Pandora muito perigosa e bastante apetitosa para personagens sem escrúpulos, que aceitam ganhar a vida pelos meios mais sujos que a humanidade pode determinar. Por essa razão, existe um banco de dados nacional, e posteriormente internacional, uma rede global que ‘linka’ a maioria dos países e que faz com que exista uma coordenação quase global que escolhe os dadores, mediante uma série de critérios, tendo à cabeça a urgência e a compatibilidade. Mais frustrante que tudo isto é a necessidade praticamente instantânea que decreta a espera. Porque não existe propriamente um armazém ou um armário pronto a fornecer aquilo que é preciso num determinado momento tão sensível na vida de alguém – aqui, todos os minutos são importantes numa contagem que parece não ter fim.

O tema é sensível e por isso tão desconfortável de ser abordado, mas é fundamental estarmos sensibilizados para este tipo de questões. Atualmente existem milhares de pessoas que precisam de um transplante para continuarem a viver ou melhorarem a sua qualidade de vida. Se alguém morre, essa infelicidade pode e deve ser utilizada para felicidade de outro, abrindo a porta para alguém que precise em alguma parte do mundo.

Será, no fundo, virar um pouco as cartas a nosso favor e inverter a triste lógica de quem vive e morre para, que em alguns momentos, a morte possa originar mais ou melhor vida para outros. Essa pode e deve ser a visão de uma sociedade mais moderna, mas sobretudo mais consciente e solidária, mais objetiva e pragmática. Não desejando – como nunca desejei – o infortúnio de quem quer que seja, porque não trocamos um vida pela outra, só espero que no meu caso específico alguém que teve essa infelicidade possa trazer felicidade a esta família e que esta corrente humana se possa desenvolver um pouco por todo o mundo. Sermos mais e melhores. Doarmos o que na realidade já não será necessário para darmos vida mesmo depois da morte. É assim que faz sentido. Enquanto isso, espero. Amanhã, esta menina terá um novo recomeço. É tudo o que desejo neste momento. Vê-la sorrir novamente.

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