19/9/19
 
 
António Cluny 20/08/2019
António Cluny

opiniao@newsplex.pt

De como a coerência ou a incoerência se mostraram evidentes e momentosas

Parece necessário colocar frontalmente em crise um sistema que continua a assentar em salários baixíssimos e injustos e no total descontrolo e falta de regulação e sancionamento da violação das leis laborais.

Na semana passada escrevi aqui sobre a questão da coerência, mas fi-lo de um ponto de vista subjetivo e interpessoal.

Essa perspetiva não esgota, porém, o problema.

Se, para quem se revê no atual sistema económico e social e nas ideias que, mais ou menos generosamente, mais ou menos inconsistentemente, procuram legitimá-lo, um comportamento pessoal, ou institucional, coerente e adequado à sua justificação é já problemático, para os que dele têm uma visão crítica, defendem uma outra organização da sociedade, mas têm de nele viver e, em alguns casos, sobreviver, a questão é ainda mais complexa.

Por isso, em muitas situações, os que defendem o sistema acusam maliciosamente os seus críticos de incoerência, precisamente quando estes, mesmo que contrariados, são obrigados a contemporizar com ele para defender, em cada momento, o maior número de pessoas que o sistema penaliza.

São por isso acusados, com alguma hipocrisia, de não levarem até às últimas consequências as ideias em que acreditam e pelas quais se bateram e batem constantemente e, as mais das vezes, nas mais adversas condições.

Esquecem-se tais acusadores das incoerências próprias que, enquanto defensores do sistema e das ideias com que pretendem legitimá-lo, demonstram nos seus próprios comportamentos e nas devastadoras condescendências que exibem ante os seus aspetos mais selvagens e cruéis.

Tome-se, por exemplo, o caso da greve dos motoristas.

Os que defendem a emergência dos novos fenómenos associativos e sindicais desvinculados de uma solidariedade ampla entre profissionais do mesmo ramo, mas nem todos exercendo em áreas capazes de rápida e acutilantemente, com o seu protesto, afetarem drasticamente o funcionamento do sistema, aparecem agora, verdadeira ou pretensamente, indignados com a capacidade negocial demonstrada, nas atuais circunstâncias, pelo sindicalismo tradicional.

Mais, descobrem agora, chocados, o fenómeno deveras cruel dos salários baixos, da sobre-exploração dos horários do trabalho e da falta de controlo e sancionamento por parte das autoridades de tão escandalosa situação.

Para defenderem essas novas formas de sindicalismo, que julgam poder estilhaçar de vez a solidariedade laboral, apressam-se, quais populistas radicais, a legitimar processos de luta que não comportam aquele grau de tolerância calculada face ao sistema que o sindicalismo a ele sempre adverso soube “coerentemente” usar em todas as circunstâncias.

Chamam-lhe, por isso, incoerente, não atentando no que sempre dele disseram e contra ele sempre pregaram, acusando-o sistematicamente, quando confrontados com as suas ”moderadas” reivindicações, de radicalidade e de prejudicar o interesse público.

Ora são estas incoerentes tomadas de posição intra-sistémicas – e não as outras, as que derivam da necessidade de lidar com o sistema numa posição crítica – que precisamente originam novos protagonismos e movimentos sociais, sem outro projeto que não a radicalidade de que se alimentam: a pura revolta em vez de um sustentável e consistente projeto e processo de mudança da realidade.

Noutras palavras, são estas incoerências intra-sistémicas que, fundadas na revolta justa dos que sofrem as agruras do sistema, mas procurando evitar questionar as razões das injustiças, geram os populismos.

Razão pela qual, depois de tudo o que se passou, parece necessário colocar frontalmente em crise um sistema que continua a assentar em salários baixíssimos e injustos e no total descontrolo e falta de regulação e sancionamento da violação das leis laborais.

Este momento, em que afinal parecem evidentes e consensuais a injustiça e inconsistência de um sistema assente em salários baixos, constitui, portanto, uma oportunidade única de afirmação para o sindicalismo coerente e responsável e para todos os que no poder, ou apoiando-o, continuam a acreditar que só lutando por uma sociedade mais equitativa é possível aprofundar a democracia e garantir uma paz social justa.

 

Escreve à terça-feira

 

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