22/9/19
 
 
José Cabrita Saraiva 20/08/2019
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Preferimos uma versão censurada da História?

Os portugueses não devem ter medo de olhar para o seu passado. Mais: só encarando esse passado de forma séria e descomplexada é que podemos viver sem fantasmas a assombrar o presente.

A criação de um museu dedicado à figura de António de Oliveira Salazar na sua terra natal, Santa Comba, está a suscitar uma forte reação de rejeição, ao ponto de uma petição para que o projeto seja abandonado já ter recolhido sete mil assinaturas. Alega a petição que o dito museu “se prefigura como um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista”. Mas a afirmação parece claramente abusiva, uma vez que o que está previsto, tanto quanto sabemos, é um projeto científico, um lugar de memória e de estudo, e não um altar para prestar culto ao homem que governou o país ao longo de cerca de quatro décadas.

Um dos aspetos curiosos deste protesto é, de resto, estar muito ligado a figuras do Partido Comunista, o mesmo que continua a prestar culto em Moscovo ao cadáver embalsamado de Lenine, um homem que falava em “esmagar a burguesia” e em “enforcar os capitalistas”.

Mas isso nem é o mais relevante.

A questão que causa aqui mais estranheza é esta espécie de visão obscurantista que tenta – em vão, porque eles estão por toda a parte – ocultar os vestígios de uma figura-chave da nossa história.

Só que, por mais bem-intencionada que essa ocultação seja, como a psicanálise já demonstrou, recalcar certos acontecimentos acaba sempre por produzir resultados indesejados como traumas, fobias ou obsessões.

Os portugueses não devem, por isso, ter medo de olhar para o seu passado. Mais: só encarando esse passado de forma séria e descomplexada é que podemos viver sem fantasmas a assombrar o presente.

Ou será que em relação a certos temas o melhor é manter uma saudável ignorância? No fundo parece essa a convicção dos promotores da petição contra o museu de Salazar. Vivêssemos nós noutros tempos, em que se respirava com mais dificuldade, e seríamos tentados a acreditar que ainda há quem prefira uma versão censurada da História.

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