15/12/19
 
 
José Paulo do Carmo 16/08/2019
José Paulo do Carmo

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Os meus queridos vizinhos

A semana passada voltei a casa dos meus Pais e, quando me aproximei da porta, reparei que a Dona Milu já não estava ali ao lado. Aquela padaria onde ia meio ensonado comprar o pão, com os trocos contados numa mão e um saco de plástico (guardado pela minha mãe de vezes anteriores) na outra já não era, afinal, a padaria de sempre

Sempre gostei da ideia que nos explica o que é ser um vizinho. Num mundo por vezes tão egoísta e solitário em que passamos grande parte do nosso tempo entre trabalho e casa, é de extrema relevância as relações que podemos construir nos intervalos, mesmo aquelas que podem parecer à primeira vista mais superficiais ou insignificantes, que geralmente começam por ser caras conhecidas que passam para um “olá” e um “bom dia” e até àquela piada tímida no elevador ou no supermercado da esquina. E assim, entre sorrisos simpáticos e uma breve troca de sílabas, se vai (sem nos darmos conta) deixando entrar alguém nas nossas vidas. Quando me mudei para Lisboa, uma das primeiras coisas que me aconselharam a fazer quando decidimos comprar casa foi ter em atenção os vizinhos.

Pude constatar, por isso, ao longo do tempo que, de facto, essa figura quase hermética que por ali vai vagueando como figurante nos nossos dias pode muitas vezes assumir uma posição de relevo para o bem ou para o mal. Conheço pessoas que já tiveram de trocar de casa porque não suportavam quem habitava no mesmo prédio e vou ouvindo aqui e ali histórias de guerras e confusões entre uns e outros. Eu sempre tive a sorte de os meus vizinhos serem fantásticos. Atenciosos sem serem metediços, benevolentes e compreensivos ao ponto de aturarem alguns dos meus comportamentos menos responsáveis, próprios de qualquer jovem. Mas eu adoro o conceito que vai para além do próprio prédio. Gosto do contacto entre as pessoas da mesma rua, o conhecimento que vão tendo, servindo de fios condutores da sociedade.

Isto para dizer que a semana passada voltei a casa dos meus Pais e, quando me aproximei da porta, reparei que a Dona Milu já não estava ali ao lado. Aquela padaria onde ia meio ensonado comprar o pão, com os trocos contados numa mão e um saco de plástico (guardado pela minha mãe de vezes anteriores) na outra já não era, afinal, a padaria de sempre. Aquele sítio onde o bonacheirão do senhor Arnaldo me recebia sempre com carinho. Acho até que tinha uma amizade com ele. No meio dos nossos silêncios e das parcas palavras havia sempre um sorriso guardado para mim e uma pergunta sobre o meu Benfica. Foi ali que fiz as primeiras patifarias quando, com o meu primo Gonçalo, decidimos dar aos gatos que habitavam o jardim, no lugar de leite, coca-cola e seven--up, o que nos valeu um valente ralhete dos nossos Pais perante o ar condescendente da Dona Milu. Ela que me oferecia sempre um saquinho de gomas, à socapa, quando me via a olhar deliciado para aquela orgia de cores.

Mesmo estando longe, voltar e ver que mexeram no meu passado e nas minhas recordações, que tiraram algumas coisas do seu lugar, é angustiante. Já sabia que nada duraria para sempre e eu já nem sequer lá vivo mas, para mim, aquilo fazia sentido assim e pronto. Passamos anos embrenhados em situações por vezes tão pouco importantes sem darmos importância àquilo que é a nossa essência e que se constrói como base no nosso caminho. Os vizinhos são parte dele, sobretudo quando somos mais novos. Assumem personagens quase de banda desenhada que recriamos na nossa mente. Se a nossa estrutura se faz de quem nos rodeia, também esses têm o seu papel no nosso crescimento enquanto seres humanos. Menos mal que para o lugar da padaria foi um espaço também de uns antigos vizinhos de quem gosto, o que me deixa mais reconfortado. Mas aquele abraço amigo quando passava na rua e os seis papos-secos que trazia, ainda ensonado, escadas acima para delicia do meu Pai, esses, não mais vão voltar. E assim se perde qualquer coisa…

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