15/12/19
 
 
João Gomes Almeida 16/08/2019
João Gomes de Almeida

opiniao@newsplex.pt

Wag the Dog

Caro leitor, pode achar que este título não faz o menor sentido. Aparentemente não, admito. Mas quando acabar de ler este artigo, vai perceber que esta é sem dúvida a melhor metáfora para que se perceba a forma de agir do Governo no caso da suposta crise energética.

Wag the Dog é um filme de 1997 realizado por Barry Levinson e que serve ainda hoje como uma espécie de bíblia daqueles que, como eu, trabalham ocasionalmente em comunicação e marketing político. Em Portugal foi uma das vítimas do péssimo hábito de traduzirmos os títulos dos filmes e foi batizado com um secante Manobras na Casa Branca.

Neste filme, o Presidente dos Estados Unidos da América vê-se envolvido num escândalo sexual (embrulha, Clinton) uns meses antes das eleições que ditariam a sua reeleição. Desesperado com o impacto do escândalo nas sondagens, recorre a um brilhante estratega político, no filme interpretado por Robert DeNiro. Este consultor decide então inventar uma guerra que nunca existiu e recorre a um brilhante produtor de Hollywood, interpretado por Dustin Hoffman, para a fazer parecer verosímil na TV, pelos menos aos olhos dos eleitores. Afinal, o que une mais os americanos em torno de uma administração do que uma guerra?

Esta estratégia explica-nos algo simples, mas óbvio: quando em política somos confrontados com um problema, nada melhor do que transformá-lo numa oportunidade. É isso que aconteceu em Wag the Dog e é também isso que António Costa percebeu quando foi confrontado com a possibilidade de uma greve com potencial de paralisar o país, poucos meses antes das eleições. Costa tinha dois caminhos: ou deixava o país mergulhar no caos e seria prejudicado nas urnas ou encenava uma vitória tão histórica para um Governo que lhe permitiria facilmente garantir a tão sonhada maioria absoluta. 

Os ingredientes estavam todos lá: um representante dos motoristas que não acerta uma quando lhe metem um microfone à frente; um representante dos patrões que, afinal, foi nomeado pelo PS para gerir dois fundos de 300 milhões; uma silly season tão silly que nem parece que estamos a menos de dois meses das eleições; e, por fim, o povo português, que tudo que mais preza na sua rica vida são aqueles 15 dias de férias em agosto e quem nem por sonhos aceitaria deixar de ir para Quarteira por causa da falta de combustível. Costa sabia o que tinha de fazer: demonizar os trabalhadores; usar a influência no PCP e BE para neutralizar a opinião pública de esquerda que domina sindicatos e comunicação social; mostrar uma posição de força assegurando serviços mínimos feitos por polícias e militares; e, por fim, encenar uma requisição civil que faz do Governo o maior herói desta história toda. 

Uma semana depois e já ninguém se lembra das bacoradas do Cabrita, da ineficiência no combate aos incêndios florestais, do roubo das armas em Tancos, do “Familygate” e de todas aquelas coisas que, perante a inexistência de PSD, CDS, BE e PCP, evitam que o PS tenha 100% nas eleições. Bem jogado, Costa. Parabéns.

 

Publicitário

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×