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Doentes crónicos

Doentes crónicos

António Pinho Cardão 14/08/2019 09:25

Os nossos políticos não ficam doentes quando terminam funções, já vão enfermos logo ao iniciá-las.

Na sua Política, escrevia Aristóteles no séc. iv a. C.: “Em tempos idos (…) cada indivíduo considerava justo que os cargos fossem desempenhados em alternância. Atualmente, devido aos benefícios derivados dos cargos públicos e do exercício do poder, os homens desejam a ocupação permanente desses cargos. É como se os ocupantes desses cargos se tornassem homens doentes e apenas recuperassem a saúde quando estão em funções…”

Isto era na Grécia mas, por cá, a situação é muito mais grave. É que os nossos políticos não ficam doentes quando terminam funções, já vão enfermos logo ao iniciá-las.

Nem de propósito, a ministra da Saúde é exemplo de que entrou já severamente combalida quando, respondendo à Ordem dos Médicos sobre a morte de mais de 2600 doentes enquanto aguardavam cirurgia, afirmou que 70% morreram dentro do prazo garantido (para a cirurgia, supõe-se…).

Portanto, dentro do prazo, tudo bem, a culpa foi deles, que se apressaram a morrer…

E os que escolheram expirar fora do prazo de garantia foram apenas 30%, coisa negligenciável – deviam esperar um pouco mais…

Por falar em prazos, também a secretária de Estado da Justiça parece exercer funções em situação de pronunciada debilidade. Face à insuportável demora no atendimento para tratar do cartão de cidadão, resolveu culpar os utentes por irem para a porta dos serviços antes do prazo, neste caso, de abertura, quando estes ainda estão encerrados. Serviços bem organizados não podem compactuar com o calendário dos cidadãos, era o que faltava. Assunto resolvido.

Igualmente se confirmou a plena luz a enfermidade que vinha minando o ministro da Administração Interna e que lhe abalou toda a resistência para responder à anunciada combustão das suas estimadas golas de autoproteção (o eufemismo do ano…), aliás, um material tão pouco fotoprotetor e tão inflamável que até lhe estoirou nas mãos. Em natural estado de choque, logo responsabilizou os cobras que propalavam tais irresponsáveis notícias e esmurrou mesmo o microfone que lhe apresentavam, classificando-o, ele, sim, e não as golas, como objeto combustível.

Ainda bem que um conveniente ensaio científico em tarde domingueira o fez ressurgir do abalo e anunciar a natureza não inflamável, mas meramente perfurável, do material. E, com tal reconversão, aí estamos novamente autoprotegidos contra incêndios não fumegantes nem perfurativos, obviamente de calor ameno. Sem proteção, perfurados e bem esturrados, é que lá deixou 125 mil euros de merchandising.

Grave perturbação também atingiu o ministro dos Negócios Estrangeiros quando disse que “não é clara e que seria um absurdo a interpretação literal” de uma norma, raras vezes tão luminosa, que impede contratos com o Estado de empresas cujo capital seja detido em mais de 10% por titulares de órgão de soberania, fixando como sanção a nulidade dos contratos e a demissão daqueles titulares.

E com não menor torvação estará o próprio primeiro-ministro, que em 1996 defendeu essa lei e agora pede à Procuradoria-Geral da República a suprema graça de o iluminar sobre o que antes apoiara.

Sintomas de moléstia aguda mostra também quem anuncia mobilizar reservas estratégicas de combustível para acudir à greve dos motoristas quando o problema é, sim, a mobilização do combustível até postos de abastecimento…

A grande maioria dos atuais políticos e governantes serão candidatos às próximas eleições. Devido aos benefícios derivados dos cargos públicos, os homens desejam a ocupação permanente desses cargos… tornam-se doentes e apenas recuperam a saúde quando estão em funções…

Aristóteles tinha razão. Bom para eles que, sem isso, se tornariam doentes crónicos.

Mas mau, muito mau, para uma democracia de qualidade.

Economista e gestor

Subscritor do “Manifesto: Por Uma Democracia de Qualidade”

pcardao@gmail.com

 

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