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Paulo Marcos. “Estamos preparados para fazer greve por tempo indeterminado”

Paulo Marcos. “Estamos preparados para fazer greve por tempo indeterminado”

Mafalda Gomes Sónia Peres Pinto 13/08/2019 17:54

O presidente do Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários vê com estranheza a resistência do sistema financeiro em negociar aumentos salariais depois de terem apresentado elevados lucros.

Para Paulo Marcos não é compreensível que os bancos não aceitem algumas das propostas feitas pelos sindicatos do setor, principalmente quando algumas não teriam impacto financeiro. E mesmo para as outras, com os lucros que os bancos apresentaram no primeiro semestre, admite que o setor devia ser mais generoso. Para já, está a aguardar pelos resultados das novas negociações em setembro, mas garante que tem tudo preparado para avançar com uma greve. A concretizar-se, será a primeira em três décadas. O presidente do SNQTB fala ainda nos desafios do setor e do que aprendeu com a comissão de inquérito ao banco público.

Os três sindicatos bancários admitem avançar com uma greve se bancos não aceitarem as propostas relativamente à revisão do Acordo Coletivo de Trabalho... 

A última greve no setor bancário remonta há 30 anos. Este é um setor que tem sido caracterizado por uma paz social e por um clima de consenso, clima esse que, durante os anos de intervenção da troika, sofreu um profundo abalo nos acordos coletivos de trabalho que foram revistos, negociados e na sequência das alterações feitas ao código de trabalho colocaram os trabalhadores numa posição bastante desfavorável. Depois do 25 de abril houve um momento de algum equilíbrio, claro que foi sempre um equilíbrio precário porque as entidades patronais têm sempre mais força, mas foi rompido com os bancos a aproveitarem e imporem contratos coletivos de trabalho mais minimalistas. Esse período começou em 2010 e as atualizações das cláusulas pecuniárias dos bancários ou não foram feitas ou foram feitas com valores abaixo da inflação. Nos últimos 10 anos, sem contar com o enorme aumento de impostos de Vítor Gaspar, um trabalhador bancário médio sofreu uma erosão muito forte no salário derivada da inflação na casa dos 11 pontos percentuais.

É possível chegar a acordo?

Este ano achámos que os bancos com os resultados em recuperação, tal como aconteceu no ano passado, teriam condições para serem mais generosos, mas encontramos um bloqueio na negociação. Verificámos que os bancos estão muito renitentes em fazer cedências significativas no clausulado e algumas dessas alterações nem sequer têm impacto financeiro. Por outro lado, estão muito renitentes em fazer uma abordagem às cláusulas de expressão pecuniária sobre tudo aquilo que achamos que é razoável, nomeadamente fundos de pensões, inflação, poder de compra perdido e rendibilidade dos bancos. Apesar do cenário ser hoje bastante mais favorável do que era há um ou há dois anos, encontrámos a mesma resistência, o que não conseguimos entender. 

O que falhou?

Do nosso lado nada. Como estratégia negocial levamos sempre propostas muito compreensivas, exaustivas, muito bem preparadas, dossiês técnicos que provavelmente nunca teriam sido feitos nestas negociações, ainda assim, encontramos sempre a mesma resistência e a mesma pouca vontade de negociar. Os três sindicatos - Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários, Sindicato dos Bancários do Norte e Sindicato Independente da Banca (SIB) - muniram-se dos instrumentos necessários para que a negociação tivesse mais resultados. Um deles foi a autorização de fazer uma greve de duração ilimitada e com recurso, se for necessário, ao fundo de greve. Este é o ponto em que estamos, depois de a autorização ter sido concedida já tivemos mais uma reunião com o grupo negocial das instituições de crédito, onde houve pequenos avanços. E com estes pequenos avanços marcámos uma nova ronda negocial para dia 4 de setembro porque sentimos que havia predisposição para negociar. Mas apesar de continuarmos com o processo negocial ficámos com a bomba atómica do nosso lado. No entanto, se não tivéssemos encontrado alguma abertura nesta última reunião provavelmente teríamos tomado uma medida mais drástica. Parece que há agora mais sensibilidade do outro lado. É preciso ter noção que os bancários estão saturados com esta imobilidade por parte das instituições de crédito e querem fazer ouvir a sua voz de forma muito mais significativa. Por isso, não descartamos nada, estamos preparados para avançar com a greve, mas obviamente que a nossa matriz é negocial e queremos negociar, procurando atender aos interesses das partes. Tendo sempre em cima da mesa a possibilidade de desencadear um pré-aviso de greve.

Quais são as propostas em cima da mesa?

Diria que há duas componentes: cláusulas contratuais e parte monetária. Para a parte monetária elaborámos um estudo económico, procurando fundamentar as nossas posições e considerando um conjunto de variáveis, desde a inflação ao poder de compra perdido à produtividade dos bancos, à rendibilidade dos bancos e ao desempenho dos fundos de pensões. São cinco variáveis que nos fizeram chegar a um aumento proposto de 2,72%, a que as instituições de crédito começaram por contrapor 0,4%. Há aqui claramente um fosso, mas do nosso lado como preparámos o tema para que fosse claramente objetivo chegámos a um valor justo que as instituições poderiam pagar. Hoje as instituições de crédito que estão presentes neste grupo negocial que se reúne na Associação Portuguesa de Bancos (APB) representam uma série de grandes bancos. Estão de fora a Caixa Geral de Depósitos, BCP, Montepio e EuroBic. Mais tarde fizeram uma aproximação e, neste momento, a última proposta é 0,75%, enquanto nós baixámos para 2,2%. Espero que haja progressos nas próximas semanas.

Há ainda aqui uma diferença significativa...

Sim. E do lado do clausulado diria que ainda é mais importante porque está relacionado com as condições de trabalho. Queremos reintroduzir um conjunto de coisas que foram eliminadas durante a troika e outras que são civilizacionais. Por exemplo, um dos temas que defendemos e que são civilizacionais é a possibilidade de o trabalhador que é alvo de assédio pedir e ser concedida a hipótese de deslocar o seu local de trabalho. Para nós, este é um fator óbvio, mas encontrou alguma resistência, finalmente foi acedido. Outra coisa que defendemos é que haja a possibilidade de assistência aos ascendentes com doenças oncológicas sem que isso se traduza numa penalização e também foi atendido. Outra coisa que estamos a lutar e não foi atendido é a reintrodução do prémio de antiguidade. Outra coisa é um trabalhador que ao fim de cinco anos não seja promovido possa ser alvo de uma reapreciação especial, desloque a avaliação do sítio onde está para um ao lado, onde alguém supostamente mais alto na hierarquia possa olhar para o caso. Das 39 propostas que fizemos, apenas 11 tinham expressão pecuniária, 28 não tinham e continuamos a lutar porque achamos que vai ter um retorno muito mais justo e humanista como deve ser uma relação de trabalho. Acho estranho que 28 propostas não tinham qualquer impacto financeiro e a primeira resposta do grupo negocial foi não. Não a todas e isso fez-nos disparar as campainhas de alarme porque podemos discutir as coisas, agora uma rejeição em bloco pareceu-nos despropositada. Nestas últimas semanas, talvez por causa da manifestação que fizemos no BCP, acho que se percebeu claramente que estávamos a falar a sério e que não aceitávamos sem fundamentação uma recusa em bloco. Talvez tivesse sido razoável no passado, mas inaceitável em 2019. Acho que vamos conseguir encontrar maiores convergências, mas estou relativamente pessimista porque não sinto do lado das instituições de crédito a vontade e predisposição para avançar de forma muito mais significativa nas áreas pecuárias. Vamos ver como se vão desencadear as negociações ao longo do mês de setembro, mas estamos preparados para todos os cenários. No entanto, espero que o bom senso prevaleça. 

E como vê os resultados da banca no 1.º semestre quando estes não se mostram disponíveis para negociar?

Acho que é difícil explicarem a razão de tamanha obstinação. Os níveis de rendibilidade, embora estejam distantes da década de 90, são níveis de rendibilidade que não envergonham ninguém e que se comparam razoavelmente bem com a média europeia. Fala-se muito em custos: custos operativos, custos de transformação, mas se virmos as estatísticas da associação alemã de bancos, o rácio dos custos operativos é de 94%, quando em Portugal está abaixo dos 60%. Isso significa que hoje temos bancos muito eficientes em comparação com grandes bancos do centro da Europa: França, Alemanha, Itália. Face a isto é difícil compreender que os bancos não queiram aceitar as nossas propostas e também é por isso que estamos preparados para levar a nossa luta mais tempo, o tempo que for necessário até que as condições de razoabilidade imperem. Claro que também temos consciência que há desafios tremendos pela frente, ainda assim, achamos que em 2019 há margem para que os bancários tenham aumentos reais pela primeira vez neste milénio.

Sente que essa resistência por parte das instituições financeiras coincide com as novas administrações dos bancos?

Não vejo uma relação causa/efeito. Penso que todos os gestores querem maximizar o retorno dos acionistas, mas cabe aos sindicatos conseguir que os trabalhadores tenham um peso e relevância para que não fiquem desprotegidos face aos acionistas.

Disse que algumas das medidas sugeridas foram eliminadas pela troika. Quais foram?

Foi o caso do pagamento do prémio de antiguidade. Este era um mecanismo clássico de premiar a fidelização e a retenção dos quadros e que foi incorporado ao longo das carreiras bancárias, mas terminou de forma abrupta. Os bancários acham que faz sentido recuperar. Outras questões estão relacionadas com as promoções por mérito, que achamos que devem aumentar e devem ser alargadas quanto ao âmbito e natureza. Diria que estas são as duas peças basilares. Depois há um conjunto de direitos novos que convém serem acautelados, por exemplo, o direito à desconexão, que é um dos temas que estamos a bater imenso. Os bancos disseram que não valia a pena pôr no acordo coletivo de trabalho, uma vez que isso estava a ser legislado na Assembleia da República e tornava-se redundante. Afinal a Assembleia da República não chegou a acordo e não aprovou o direito à desconexão. É uma coisa espantosa, numa altura, em que as tecnologias estão cada vez mais presentes, os trabalhadores bancários e não só correm o risco de estar permanentemente ligados nos tempos de descanso e de lazer. É um tema civilizacional que é praticado em muitas das multinacionais presentes por essa Europa fora. Parece que os tempos da troika ainda não acabaram, há uma formatação mental que faz com que as pessoas do lado negocial tenham inicialmente rejeitado em bloco as 39 alterações. Outro exemplo, o tema das caixas móveis. Há países em territórios de baixas densidades, como a Escócia, parte de Gales, parte de França, parte da antiga Alemanha Oriental estão a experimentar formatos de fazer banca de proximidade e em Portugal também. Quer a Caixa Geral de Depósitos quer o BPI estão a fazer experiências-piloto e achamos que era um bom tema para ser regulamentado porque traz uma série de nuances à profissão bancária tradicional face ao acréscimo do risco físico, mais uma coisa que os bancos rejeitaram. No fundo, a atitude com que nos deparámos no início foi de grande resistência, rejeição, mas desde a manifestação que fizemos no BCP de 22 de maio em adiante, a mesa negocial assente na APB mostrou uma maior flexibilidade em negociar. 

A manifestação no BCP causou surpresa?

Acho que sim. Primeiro nunca tinha sido feita desta dimensão, talvez nos anos quentes do PREC, mas claramente há mais de uma geração que não se fazia nada assim. Depois porque vieram pessoas de todo o lado e, a partir daí, percebeu-se nas mesas negociais que éramos sérios, credíveis, além de estarmos preparados tecnicamente. Vamos fazer tudo de forma muito consequente. Agora o nosso interesse é que as duas partes consigam chegar a um acordo.

Não é negociado individualmente com cada banco?

Há duas realidades distintas. Historicamente este grupo negocial tinha todos os bancos a operar em Portugal. Nos últimos 12 anos houve um conjunto de instituições que foram desenvolvendo acordos de empresa autónomos ou porque tinham muita especificidade, como é o caso do Crédito Agrícola ou porque as circunstâncias excecionais de crise obrigaram ou aconselharam que se fizesse um acordo de empresa que, de algum modo, lhes introduzisse maior flexibilidade. Foi o caso do BCP quando passou pela profunda reestruturação, em 2010 e, mais recentemente, o Montepio Geral. Também o Eurobic, que ainda é uma realidade em afirmação, está de fora, assim como a Caixa Geral de Depósitos que sempre teve uma lógica própria. Hoje o grupo negocial representa uma trintena, as mais notórias são o Santander Totta, o BPI, o Novo Banco, mas também Credibom, BNP Paribas, Haitong, ou seja, múltiplas sociedades que apesar de não terem a maioria dos bancários acaba por ser o fórum e a referência a todos os que estão de fora, nomeadamente para as negociações na Caixa Geral de Depósitos, no BCP e por aí em diante. Ou seja, o que se passa no grupo negocial das instituições de crédito, apesar de empregar cerca de 45% do setor bancário, acaba por contagiar o que acontece nas outras mesas negociais.

Então não é possível dizer com quem é mais fácil e com quem é mais difícil negociar?

Depende muito das forças dos sindicatos e acho que se há coisa que os sindicatos estão a demonstrar este ano, pelo menos estes três, é que estão unidos, combativos e dispostos a escalar o conflito. Não queremos, mas estamos perfeitamente preparados.

O presidente do BPI já veio afirmar que a ameaça de greve “faz parte” do processo negocial, enquanto o BCP afirma que não está preocupado com a greve…

Acho muito interessantes essas reações. Pela primeira vez, numa apresentação de resultados que mostram os números a crescer e num ambiente que é suposto ser festivo para as administrações, estas foram obrigadas a responder a questões que antes nunca lhes tinham sido colocadas. É um sinal dos tempos e um sinal da credibilidade que trazemos para a mesa negocial. As administrações serem obrigadas a responderem a perguntas incómodas representa uma vitória do espírito democrático e dos sindicatos.

Mas acha que desvalorizaram?

Não, até pelo contrário. Ao terem de responder a uma pergunta de que claramente que não estariam à espera acabaram por trazer para a opinião pública aquilo que é a luta dos bancários.

Falamos dos resultados positivos da banca. Acha que são para se manter?

O que a comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos trouxe foi uma imensa visibilidade e confirmação daquilo que já tínhamos reiteradamente afirmado: não foram os bancários que originaram estes prejuízos gigantescos. É preciso separar o trigo do joio, há questões históricas que eventualmente possam ser matéria de investigação criminal, depois há as matérias correntes. Não consigo fazer futurologia, percebemos que há um conjunto de ameaças, mas também há um conjunto de oportunidades. Os banqueiros falarão das ameaças, a mim compete-me falar das oportunidades: os nossos principais parceiros comerciais, com exceção de um, estão a experimentar o mais longo ciclo de expansão económica desde que há registos históricos. A segunda coisa e é bom que se reconheça é que esta atratividade que Portugal tem acabou por trazer um conjunto de investimentos imobiliários e apesar de todos os problemas que isso provocou face à subida de preços, uma das vantagens que isso trouxe foi tornar possível aos bancos desfazerem-se de ativos em condições mais vantajosas. Há claramente uma recuperação de malparados e imparidades. Este movimento ainda não acabou até porque os bancos portugueses ainda têm quase 14 mil milhões em ativos malparados e parece que vai continuar nos próximos tempos. Além disso, o facto de as taxas de juro da dívida pública estarem a cair também permite aos bancos continuarem a fazer receitas. Claramente os bancos concedem hoje créditos com boas condições, com bons rácios de cobertura e com níveis de sinistralidade muito baixos, ao nível dos melhores anos dos anos 90. 

Também o Banco de Portugal impôs recomendações…

Hoje os níveis de sinistralidade do novo crédito ou do crédito concedido há menos de 5 anos está aos melhores níveis dos anos 90, durante o período de expansão do chamado Cavaquismo. Há condições muito interessantes que permitem estimar que os bancos vão continuar a contar com ambientes externos com algumas virtudes. Outra coisa é discutir se esta expectativa de alteração da Euribor e das taxas a médio e longo prazo vai ter algum impacto no volume futuro dos resultados dos bancos. Mas acredito que os bancos vão continuar a ter um ambiente razoavelmente estimulante para os próximos anos.

Falou agora em 14 mil milhões que ainda existem em imparidades. Não sente que houve alguma resistência por parte dos bancos em reconhecer essas imparidades?

Essa é uma pergunta boa para fazer aos banqueiros, mas diria que, por um lado, há muito mais escrutínio por parte dos reguladores, depois as condições de mercado estão mais favoráveis. O negócio dos bancos é analisar o crédito, conceder bom crédito, recuperar o que for possível, não é ficar com imóveis. Gostei muito de ouvir Paulo Macedo durante a conferência de imprensa de apresentação de resultados quando alguém lhe perguntou o que a Caixa estava a fazer para recuperar as dívidas dos grandes devedores, não sei se tinha a resposta preparada, mas elencou 10 coisas que faziam de forma regular e como cidadão penso se fazem essas dez coisas então estão a fazer as coisas corretas. Vejo uma atitude muito combativa, muito proativa do lado dos bancos e, por isso, é expectável que durante este ano e durante 2020 continue este movimento de sanear as carteiras de crédito. Isso é bom porque permite aos bancos libertarem recursos e concentrarem-se naquilo que é importante, que é apoiar a economia e as famílias. Aliás, toda esta política monetária do Banco Central Europeu é fazer com que os bancos concedam crédito à economia e limpem os passivos não produtivos e isso claramente liberta tempo e dinheiro para fazer chegar o crédito à economia.

Mas foi encontrada uma fórmula pelos bancos para puxar pelos resultados que é o aumento das comissões… 

Vale a pena olhar para um panorama mais geral e perguntar perante o PIB per capita, as disparidades do poder de compra, etc., se os bancos que atuam em Portugal cobram mais ou menos do que os bancos que atuam em Espanha, em França ou na Alemanha. Essa análise está feita e vemos que os bancos portugueses não se destacam de forma significativa por cobrarem mais. Muito mais preocupante é ver como é que os clientes do private banking, e são aqueles que tipicamente têm spreads 0,2% ou 0,3% ou 0,4% na habitação, estão a ser subsidiados pelos restantes clientes. Isso cria-me alguma estupefação e com este movimento de descida das Euribor só vai aumentar o nível de subsidiação a pessoas que não precisam nem merecem essa subsidiação. Depois há outras questões que têm vindo a ser colocadas e dizem respeito, por exemplo, à hipótese de cobrar as operações de Multibanco. O que vemos é que as grandes cidades como Lisboa, Porto, Coimbra e Algarve estão cheias de redes de ATM internacionais que cobram comissões fortíssimas. Estamos perante realidades distintas: por um lado, os bancos inibidos de conseguirem recuperar os custos que tiveram e o investimento que fizeram e, por outro lado, temos concorrentes estrangeiros que não geram emprego e cobram comissões. E há sempre pessoas que não estão informadas e vão levantar 30 euros e pagam seis euros de comissão. Temos aqui uma realidade esquizofrénica.

Também o fecho de balcões e saída de trabalhadores continua em marcha. É um caminho irreversível?

Acho que não. É sempre muito mais simples cortar do que fazer crescer. Gestores ambiciosos procuram reinventar o modelo de negócio, gestores muito clássicos procuram cortar o mais rapidamente possível. Gosto mais dos primeiros e são aqueles que ficam na história. A rede de balcões portuguesa reduziu-se em 40% em quatro anos. Acho que hoje é evidente que 2019 é um ano em que o ritmo de fecho de balcões praticamente estabilizou, não há grandes notícias de encerramentos, há apenas casos pontuais. Os números são mais ou menos públicos: a Caixa fechou dois balcões, o Novo Banco fechou dois ou três, o Montepio abriu um ou dois e portanto esta tendência acabou. E acabou porquê? Porque apesar de se falar muito da banca digital, o grosso dos clientes continua a preferir uma relação física. E isso acontece em várias indústrias, o digital é um bom canal para um primeiro contacto, perceção, mas depois a experiência física continua a ser relevante. Acho que os banqueiros também perceberam isso e os cortes que foram feitos provaram que o negócio caiu mais rapidamente porque onde fecharam balcões em determinadas localidades deram oportunidade a que um banco que foi mais resiliente receba os seus clientes. Tenho a certeza absoluta que para a Caixa Geral de Depósitos fechar um balcão em Almeida obviamente não trouxe uma redução de custos significativa, trouxe sim um enorme prejuízo em termos de imagem. Não faz sentido continuar a fechar, o que faz sentido é desenvolver novos conceitos, como já acontece em Espanha e em Portugal também começa a existir. São novos conceitos que procuram conjugar a visibilidade e a reputação de uma marca bancária e conjugar isso com outro tipo de retalhistas. Às vezes são cafés ou sítios para trabalhar de forma partilhada, outras vezes são em stands automóveis ou em espaços lúdicos. No fundo estamos a assistir a experiências, onde procuram transformar um balcão bancário num centro de experiências sensoriais. Por exemplo, vai fazer um crédito individual e, ao mesmo tempo, pode experimentar um carro. Ou seja, estou a falar de modelos em que a experiência de retalho é muito importante e nesse sentido acredito que muitas agências bancárias vão-se reconfigurar como espaços de centralidade, nomeadamente nas artérias mais importantes. E isso não é necessariamente mau. Também imagino que vamos assistir a uma diferenciação entre agências com mais serviços, com mais empregados e com mais qualificações e depois outros mais pequenos. O que importa reter é que fechar balcões de forma massiva trouxe mais dano do que seria uma eventual poupança de custos. O que é certo é que há 25 anos que se diz que os balcões bancários estão mortos mas continuam a configurar-se e seria má política continuar a fechar balcões.

Uma redução de 40% do número de balcões representa quantos?

Tipicamente um grande banco tinha 600 a 700 balcões, hoje tem 400. Ou seja, fecharam-se duas mil e tal agências. Portugal teria quase seis mil e tal agências e hoje tem pouco mais de três mil. Isso não é necessariamente mau desde que se consiga continuar a servir os clientes numa lógica de proximidade. De facto, fruto de fusões e aquisições na viragem do milénio tínhamos artérias onde havia três ou quatro insígnias do mesmo banco e fazia sentido alguma otimização. Só que hoje os banqueiros perceberam que essa otimização está no limite.

E em termos de redução de postos de trabalho?

O ano de 2019 também será um ano de viragem, embora estime que a perda liquida de trabalhadores vá continuar. Este é talvez o primeiro ano dos últimos 10 onde a redução será menos acentuada. Mas a perda líquida nos últimos anos deveu-se mais ao fenómeno de aposentação e de não substituição e isso também não é um drama. O que é um drama é que haja processos de reestruturação unilaterais, musculados, sem consenso social e sem que as pessoas possam ser preparadas e retreinadas. Foi isso que aconteceu nos últimos anos, o que era completamente desnecessário. Os bancos começam agora a contratar, há um par de bancos cuja contratação líquida é positiva, nomeadamente no BCP e no BNP Paribas. Ainda que não consigam colmatar todas as saídas, diria que o setor voltou a contratar de forma massiva e isso são boas notícias.

Estima-se que o setor contrate 1500 trabalhadores este ano…

É essa a minha expectativa: 1400 a 1500 trabalhadores.

Mas muito longe do número de trabalhadores que perdeu...

O setor perdeu nesta última década 12 mil pessoas, mas este é o primeiro ano em que vai haver um rejuvenescimento significativo.

Voltando aos resultados dos bancos. Enquanto a maioria dos bancos voltou a dar lucros, o Novo Banco continua a apresentar perdas e ainda este semestre duplicou os prejuízos…

Prefiro ver o lado cor-de-rosa e o lado cor-de-rosa é que o Novo Banco começou a apresentar contas em separado: o legado e o banco recorrente. O que vemos é que o banco recorrente [Novo Banco] tem bons resultados, está a progredir, está a conceder crédito à economia e às famílias. Olhando para aquilo que é a atividade normal parece-me que está a correr bem, em linha com os outros bancos ou quiçá um pouco melhor. O banco legado [banco mau] é que é um grande senão. Este sindicato, em 2016, defendeu que não havia soluções boas e que a solução menos má seria uma nacionalização temporária. Não foi esse o entendimento do poder político, passou pelo processo de venda conhecido e agora não vale a pena chorar muito sobre o leite derramado. A venda foi feita nas circunstâncias que foi feita e talvez hoje seja fácil falar sobre o passado e dizer que poderia ter sido feita de outra forma. Continuo a achar que as coisas deviam ter sido feitas de outra forma. O Novo Banco deveria ter ficado com os depósitos e a base de capital e o crédito deveria ter ficado no BES em liquidação. Este problema do Novo Banco nasce deste pecado original de não ter sido feita a separação entre ativos e passivos.

Continua então a achar que a nacionalização provisória teria sido a melhor solução?

À época era o que nos parecia, era a mais amiga da economia, destruía menos emprego, concedia mais crédito. Não tendo sido feita e olhando para o Novo Banco, parece-me que está a ser executado um plano e acredito que daqui a algum tempo estará em condições de ser novamente vendido porque o que estes fundos fazem é comprar, reestruturar e vender e fazem tudo isto com um intuito lucrativo. Na altura, o que se discutia é se este era ou não o melhor modelo para a economia e nós achamos que não. 

E continua a necessitar de novas injeções de capital...

Sim, mas não pode haver surpresa em relação às condições de venda acordadas. O Novo Banco é um banco viável, está a fazer o seu caminho, continua a financiar e nesse sentido, o sistema está bem mais equilibrado e bastante mais resiliente.

Os partidos de esquerda já se mostraram contra estas novas injeções de capital. Estando em véspera de eleições estas críticas poderão ganhar novos contornos?

Acho que uma discussão franca de temas financeiros e bancários não faz mal a ninguém. Todos temos direito de pensar, questionar, equacionar e isso é saudável e democrático. Mas também acho que há coisas que não vale a pena chorar muito. A solução foi desenhada assim e agora é levá-la para a frente.

Trabalhou no BES e depois transitou para o Novo Banco. Cinco anos depois ainda está surpreendido com o que se passou?

Acho que apanhou de surpresa quase toda a gente. Arrisco-me a dizer que se calhar só um punhado de pessoas é que não ficou surpreendido. Lembro-me que um mês antes da resolução era reafirmada a solidez e a pertinência do BES e se os mais altos responsáveis da Nação o afirmavam não via razão nenhuma para que um cidadão normal não fosse apanhado de surpresa. Todos fomos apanhados de surpresa e acho que a magnitude também surpreendeu toda a gente.

E em relação à comissão de inquérito da CGD, ficou surpreendido?

Uma comissão parlamentar de inquérito é uma peça basilar da democracia, da transparência e daquilo que é o serviço público de tentar descobrir a verdade, apesar de não ter poder de investigação criminal, mas ainda bem que o assim é porque tem de existir uma separação de poderes. O nosso receio era que a Caixa Geral de Depósitos fosse durante alguns meses alvo de agitação e que o seu bom nome fosse de algum modo posto em causa. E os nossos receios, que são legítimos porque queremos que o setor tenha estabilidade e integridade, foram compensados pela natureza do trabalho da comissão parlamentar e por tudo o que se descobriu, pela qualidade do trabalho que os deputados fizeram e tentando não ser injusto acho que houve duas deputadas que se destacaram de forma brutal e de forma positiva: Cecília Meireles e Mariana Mortágua, que contribuíram imenso para percebermos o que aconteceu de errado. Neste momento todos estamos mais preparados para evitar que haja uma nova crise com estes contornos e por isso acho que foi de enorme valor para a democracia.

Acha que corre o risco de a culpa morrer solteira?

Por aquilo que temos visto a justiça a fazer nas últimas semanas acho que não.

Está a falar do arresto dos bens de Joe Berardo?

Inclusive. São movimentos inéditos e a utilização da desqualificação da personalidade jurídica é uma figura que está prevista mas que nunca tinha sido utilizada. Os tribunais portugueses manifestaram arrojo e compreensão, o que nunca teria acontecido sem esta comissão parlamentar e sem a cobertura que a comunicação social fez.

Apesar da amnésia de alguns dos responsáveis..

Somos particularmente exigentes com os eleitos, mas funções como as de supervisor e as de regulador deviam ser objeto de maior visibilidade, de eleição, de mandatos únicos, inamovíveis mas longos.

De eleição como?

Como é que alguém dotado de um poder enorme, como a de um supervisor ou regulador, não seja objeto de eleição direta ou através dos representantes do povo, em vez de ser por nomeação? As democracias mais maduras deram passos nesse sentido. Todos ganharíamos mais se houvesse, pelo menos, um processo de maior escrutínio, um concurso público aberto em que os candidatos fossem entrevistados na Assembleia da República e que fosse feita a análise curricular. Um pouco como se faz em alguns países, em que para se ser juiz do Supremo Tribunal ou presidente do Banco Central se é sujeito a um processo de escrutínio nos Senados ou nas Câmaras Baixas. Isso claramente asseguraria que teríamos um maior nível de exigência.

O seu mandato à frente do sindicato tem sido alvo de várias críticas, nomeadamente nas redes sociais, onde são apontados gastos de quatro milhões em pessoal, deslocações…

Não acompanho a página, mas desde que chegámos tivemos a preocupação de baixar os custos gerais e hoje os custos do sindicato são mais baixos. 

Também é dito que recebe um ordenado de 11 mil euros por acumular o salário do sindicato com o do Novo Banco...

Os nossos estatutos preveem que o desempenho de funções é remunerado, cumprimos apenas os estatutos. Em relação aos nossos antecessores o que fizemos foi um corte de 40% nas remunerações dos órgãos sociais.

Não faria sentido receber apenas um dos ordenados?

Esta prática de ser remunerado foi uma prática que mantivemos. Está nos estatutos e cortámos 40% da remuneração dos órgãos sociais em relação aquilo que era a prática anterior.

Como vê estas acusações que têm sido feitas?

A crítica de opinião é sempre natural e positiva.

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