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EUA. Universal cancela filme com receio de violência após atentados

EUA. Universal cancela filme com receio de violência após atentados

Diogo Vaz Pinto 13/08/2019 13:12

Em The Hunt, uma elite endinheirada promove caçadas em que os alvos são os eleitores de Trump. Mas se a sátira põe o dedo na ferida de um país dolorosamente dividido, a Fox News e Trump viram mais uma oportunidade para a guerra de propaganda.

Num país às avessas, vive-se de controvérsias como um organismo que se regozija com uma prolongada crise de urticária. Não há discernimento para acompanhar malabarismos satíricos, e prova disso é a reação, nos EUA, ao trailer do filme The Hunt. Bastaram pouco mais de dois minutos para gerar enorme alarido. Na Casa Branca, Donald Trump recebeu o seu briefing matutino na sexta-feira, como de costume, através da Fox News. Depois de tomar a dose daquela sopa enlatada da realidade que desce pela goela empurrada pelo pão da paranoia e propaganda política, o Presidente foi para o Twitter para mais uma das suas diatribes: “A esquerdalha de Hollywood é racista no mais alto nível e tem grande raiva e ódio!”, afirmou o presidente norte-americano no Twitter. “O filme que irá estrear busca colocar lenha na fogueira e provocar o caos”, adiantou, sem referir explicitamente a produção da Universal. E concluiu: “Criam a própria violência e, depois, responsabilizam os demais. São eles os verdadeiros racistas, e são muito maus para o nosso país.”

Entretanto, e na sequência dos dois ataques de atiradores há pouco mais de uma semana, em que 31 pessoas foram mortas, a Universal cancelou a estreia do filme, o qual deveria chegar às salas de cinema no final de setembro. “A Universal Pictures já havia suspendido a campanha promocional do filme e decidiu agora, após uma reflexão profunda, cancelar os planos de estreia do mesmo”, disse um porta-voz em comunicado enviado à AFP. “Apoiamos os nossos cineastas e continuaremos a contribuir para distribuir os filmes destes criadores visionários e ousados, como os que produziram este thriller satírico e social, mas entendemos que não é o momento indicado para a estreia do filme”.

Desde que o trailer do filme protagonizado por Betty Gilpin, Hilary Swank e Emma Roberts foi divulgado em julho, a Fox News montou uma cruzada para virar o bico ao prego, e mostrar que a fita de Hollywood é uma “maléfica” e “demencial” obra que exalta o assassínio dos “deploráveis” - termo usado por Hilary Clinton durante a campanha de 2016 para descrever os apoiantes de Trump. Basta, contudo, assistir ao trailer e ter um cérebro para perceber que o enredo não quadra com a infantiloide campanha que lhe move a Fox News.

Realizado por Craig Zobel, com argumento de Damon Lindelof, criador da série televisiva Lost, logo nas primeiras imagens do trailer fica claro que este thriller vê um grupo de “americanos comuns” (leia-se: os saloios da província, essas classes empobrecidas dos estados que deram a vitória a Trump) pegar em armas para fazer frente a uma elite endinheirada que, por desporto, fez deles o alvo das suas caçadas. Pelo que nos é sugerido no trailer, não é difícil perceber que o aspeto mais corrosivo atinge o desdém que boa parte da esquerda liberal nutre pelos “parolos” dos red states, e que viu na eleição de Trump a confirmação da sua superioridade moral. O que se recusaram a ver foi como, por desespero ou revolta, milhões de americanos preferiram dinamitar Washington a ter de engolir Hilary.

“O cancelamento de The Hunt é uma vitória para todos os patriotas com uma espingarda a tiracolo e a Bíblia aberta nos joelhos”, escreveu Todd Starnes, colunista conservador que tem um programa de entrevistas na Fox News Radio. Naturalmente, o canal que não só trata da propaganda republicana como, com a atual administração, se infiltrou nos mais elevados escalões do poder, está-se nas tintas para a mensagem do filme. 

Este modo hábil de degradação retórica que serve para agitar os imbecis faz hoje de nós todos motivo de risota de tantos autores clássicos, e ouve-se distintamente a risada do maior satirista de língua inglesa: Jonathan Swift (Dublin, 1667-1745). Se vivesse nos EUA e se lembrasse de escrever hoje a sua Modesta Proposta, esse panfleto em que propõe que a melhor via “para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda [ou dos EUA] sejam um fardo para os seus progenitores ou para o país, e para torná-los úteis ao interesse público”, o melhor seria que as crianças dos pobres fossem cozinhadas e servidas à mesa dos ricos. Vale a pena recordar uma passagem desse célebre texto de um homem que, apesar de ligado à igreja e à universidade, no séc. XVIII, teve a clareza de espírito para fugir do bom senso, preferindo-lhe a sátira: “Foi-me garantido por um muito sábio americano do meu conhecimento, em Londres, que uma criança jovem e saudável, bem alimentada, com um ano de idade, é do mais delicioso, o alimento mais nutriente e completo - seja estufada, grelhada, assada, ou cozida. E não tenho qualquer dúvida de que poderá igualmente ser servida de fricassé ou num ragout”.

Dado o império do absurdo que domina hoje a comunicação de massas, facilmente uma proposta nestes termos seria restringida ao sentido literal como uma exaltação do canibalismo. Talvez Swift hoje se lembrasse que podíamos cozinhar os filhos de migrantes e refugiados ao invés de os separar dos pais. Mais difícil é saber se teria ou não a prudência de deixar o seu panfleto na gaveta, para não incomodar as boas almas progressistas. O pior, como nos ensina a História, é que se os lunáticos forem em tais números que cheguem a decidir eleições, como se faz a guerra sem ir literalmente para a guerra quando, politicamente, o inimigo inventa a realidade à medida que vai andando.

Face à incerteza depois dos ataques em El Paso, Texas, e Dayton, Ohio, seja por receio de retaliação política ou até de violência nas sessões do filme - como aconteceu há não muito tempo numa exibição de um filme da saga Batman -, a Universal cedeu. Não sendo certo se o filme irá estrear numa data posterior, é possível que o clima político o obrigue a ficar na gaveta até que haja condições para pensar um pouco antes de reagir. Até lá, só resta não sucumbir aos efeitos da trágica ironia que o ator Russell Crowe registou no comentário a este episódio: “Então, The Hunt já não vai para as salas de cinema porque as pessoas estão sensíveis em relação à violência com armas de fogo... e, no entanto, qualquer adulto pode dirigir-se a uma loja e comprar uma espingarda semiautomática de nível militar...”

 

OUTROS CASOS

Dr. Strangelove (1964) 
A mordaz sátira de Stanley Kubrick à Guerra Fria não se limitava a incomodar, mas parecia estar apostada em assediar a controvérsia com o seu humor extravagantemente negro ao lidar com os receios de um conflito nuclear. Contudo, o assassinato de John F. Kennedy obrigou a algumas mudanças de última hora. A estreia do filme teve de ser adiada, e houve mesmo uma piada que teve de ser alterada por razões óbvias. A certa altura, o Major Kong dizia: “Um tipo podia gozar um belo fim de semana em Dallas com toda aquela bandalheira”. Dado ter sido esta a cidade onde Kennedy foi morto, Dallas foi trocada pela tão mais óbvia Las Vegas. 

Gone Baby Gone (2007) 
O filme que marcou a estreia de Ben Affleck como realizador segue um detetive privado (papel que Affleck deu ao irmão mais novo, Casey) empenhado em descobrir o paradeiro de uma miúda de três anos supostamente raptada, e se não houve problema com a estreia do filme nos EUA, no Reino Unido esta foi adiada seis meses por causa do desaparecimento de Madeleine McCann, em maio. Mais de uma década mais tarde, continua a haver aspetos neste filme que parecem rimas internas com o caso que consumiu a atenção não só dos britânicos como dos portugueses. E se ainda não há respostas sobre o que aconteceu a Maddie, o desfecho deste filme está longe de ser reconfortante. É mesmo um passo na direção do horror.

The Interview (2014) 
Há outros exemplos de produções bem mais nobres do que esta e que viram o seu trajeto perturbado por coincidências mais sinistras, mas ninguém esquecerá a comédia tão espalhafatosa quanto ridícula que gerou uma séria crise internacional. Com Seth Rogen e James Franco como protagonistas, este filme conta a história de um par de jornalistas que vêem a oportunidade de entrevistar o líder norte-coreano transformar-se num pesadelo, após a CIA os coagir a participarem num plano para assassinar Kim Jong-un. Em novembro de 2014, em retaliação pela ridicularização a que o ditador é sujeito no filme, a Sony foi alvo de um devastador ataque cibernético, com os hackers a fazerem chantagem sobre o estúdio, e ameaçando atacar as salas de cinema que o exibissem. A Sony não cedeu, mas o filme acabou por ser lançado sobretudo nas plataformas digitais e, depois do enorme escândalo, o pior mesmo foi a experiência de assistir a uma das mais fracas comédias entre as tantas que Hollywood tem produzido.

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