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Karin Bojs. “A produção de cerveja foi uma das forças motrizes da agricultura”

Karin Bojs. “A produção de cerveja foi uma das forças motrizes da agricultura”

Mariana Madrinha 12/08/2019 20:36

Em A Grande Família Europeia, Karin Bojs fez uma grande viagem: seguiu o seu próprio rasto de ADN, que a levou até à ocupação humana da Europa.

Os avanços da ciência por detrás das descobertas que nos levam ao início da espécie humana não eram, de todo, desconhecidos de Karin Bojs. Afinal, a autora e jornalista trabalhava há 20 anos como editora de ciência do diário Dagens Nyheter, um dos mais conhecidos da Suécia. Mas foi apenas no funeral da mãe que sentiu necessidade de recuar na sua própria história. Pôs mãos à obra e acabou a traçar a história da Europa e dos europeus partindo do legado genético. Seguindo o caminho do seu próprio ADN, que a levou por vários pontos do continente, Karin foi refazendo, com a ajuda de geneticistas, historiadores e arqueólogos eminentes, a história dos primeiros humanos e as migrações que levaram à sua presença na Europa. Pelo caminho fez também algumas descobertas sobre a sua família – acreditava que era descendente de agricultores ricos, que vieram a revelar-se extremamente pobres, e descobriu também que teve antepassados presos. Já o ramo da família que, pensava a autora, tinha menos recursos, era possuidor, afinal, de um nível de educação que a própria desconhecia. O resultado desta busca chama-se A Grande Família Europeia e foi recentemente editado pela Bertrand Editora. O i falou com a autora por email.

Os avanços da ciência por detrás das descobertas que nos levam ao início da espécie humana não eram, de todo, desconhecidos de Karin Bojs. Afinal, a autora e jornalista trabalhava há 20 anos como editora de ciência do diário Dagens Nyheter, um dos mais conhecidos da Suécia. Mas foi apenas no funeral da mãe que sentiu necessidade de recuar na sua própria história. Pôs mãos à obra e acabou a traçar a história da Europa e dos europeus partindo do legado genético. Seguindo o caminho do seu próprio ADN, que a levou por vários pontos do continente, Karin foi refazendo, com a ajuda de geneticistas, historiadores e arqueólogos eminentes, a história dos primeiros humanos e as migrações que levaram à sua presença na Europa. Pelo caminho fez também algumas descobertas sobre a sua família - acreditava que era descendente de agricultores ricos, que vieram a revelar-se extremamente pobres, e descobriu também que teve antepassados presos. Já o ramo da família que, pensava a autora, tinha menos recursos, era possuidor, afinal, de um nível de educação que a própria desconhecia. O resultado desta busca chama-se A Grande Família Europeia e foi recentemente editado pela Bertrand Editora. O i falou com a autora por email.

Sempre teve interesse nestas matérias ou a morte da sua mãe funcionou como um gatilho para esta investigação?

Sentia um interesse crescente e houve efetivamente dois diferentes caminhos que levaram a escrever este livro. Primeiro: era a editora de ciência do Dagens Nyheter, o maior jornal diário da Suécia. Cobria a área de ciência e fui-me deparando com a novas tecnologias ligadas ao ADN e o seu uso na Pré-História. Vi como o ADN conseguia resolver questões com que os arqueólogos se debatiam há mais de cem anos. E percebi que, tendo acompanhado este campo tão de perto por tantos anos, estava numa posição privilegiada para escrever um livro sobre estes avanços do conhecimento. Em segundo lugar, este caminho profissional fez-se ao lado de um mais pessoal. Fui criada por uma família pequena e quebrada, pelo que tinha sido, de certa forma, privada dos meus parentes mais velhos. E sentia uma necessidade urgente de saber mais sobre as minhas raízes. Foi aí que cruzei estes dois caminhos e usei-os para escrever a história da Europa, baseada nos mais recentes resultados da ciência, mas com a história da minha família como fio condutor.

Explica no livro que a agricultura foi primeiramente inventada para produzir cerveja. Esta “tradição” de produzir cerveja já foi um legado que as primeiras pessoas a chegar à Europa trouxeram com elas?

Bem, pensa-se efetivamente que a produção de cereais para fazer cerveja terá sido uma das forças motrizes por detrás do início da agricultura. Há arqueólogos proeminentes que pensam assim, e têm bons argumentos. Há um local no leste da Turquia, chamado Göbekli Tepe, próximo no tempo e espaço do berço da agricultura, onde os arqueólogos encontraram vestígios de cervejarias e de celebrações ligadas à cerveja - por exemplo, recipientes para fazer cerveja e copos para beber. Estes arqueólogos acreditam que ali houve um culto onde beber cerveja fazia parte da cerimónia. 

O seu livro começa por guiar-nos através do trabalho de Svante Pääbo, que provou que somos o produto do encontro sexual entre neandertais e Homo sapiens. Descreveu este encontro como tendo ocorrido um ataque sexual, uma violação. Porquê?

Há provas de que neandertais e humanos como nós tiveram sexo, e daí nasceram alguns bebés. Nunca poderemos dizer se o sexo foi ou não consensual, mas acho que somos livres de especular. E, dito isto, sabemos algumas coisas: sabemos que há cerca de 600 mil anos [de evolução] que nos separam dos neandertais, e isso significa que éramos um pouco diferentes deles, tanto física como, e até mais, mentalmente. Como grupo, éramos mais fortes devido às nossas capacidades de networking. Mas, como indivíduos, eles eram fisicamente mais fortes. Se uma mulher conhecesse um destes homens quando estava a recolher comida seria uma vítima fácil e o bebé nasceria nove meses depois no grupo dela, ficando com pessoas como nós, crescendo e tendo depois os seus próprios filhos e deixando vestígios de ADN até hoje, como é o caso.

Consegue explicar sucintamente porque foram os barcos tão importantes nestas migrações que levaram à ocupação da Europa?

Na Idade da Pedra, os barcos eram importantes para os caçadores, para a caça, e para os agricultores, para o transporte. Ainda mais dramático e importante foi o uso de barcos durante o início da Idade do Bronze. Durante esse tempo, as redes de comércio cresceram e desenvolveram-se muito rapidamente. E o bronze foi o produto mais importante nesta rede de comércio. Os minérios de estanho em Portugal também devem ter sido de importância crítica neste período, assim como os minérios de estanho na Cornualha, Inglaterra, e as vias marítimas atlânticas entre a Grã-Bretanha e o atual território português. O bronze foi usado para machados, que foram usados para fazer barcos de madeira. Havia, assim, uma espiral: mais bronze, mais machados, melhores barcos, mais comércio, mais procura por bronze, melhores barcos e assim por diante.

No seu livro fala de manifestações nessa Idade do Bronze que me surpreenderam como, por exemplo, as acrobacias. A sociedade estava mais avançada do que as pessoas acreditam hoje?

A transformação da Idade da Pedra na do Bronze é, provavelmente, a mudança mais importante que a Europa já passou. Vieram novas pessoas, como os pastores indo-europeus e metalúrgicos das estepes no Oriente, com uma cultura totalmente nova e uma nova língua. Ainda vivemos nesta cultura e falamos as línguas indo-europeias que eles nos trouxeram - você fala português e eu falo sueco.

Qual foi a coisa mais surpreendente que descobriu durante a investigação?

Bem, sobre a parte científica, não foi assim tão surpreendente - afinal, já tinha 20 anos de experiência a escrever sobre esta área no jornal. Mas descobri algumas informações inesperadas na história da minha família sobre as quais os genealogistas me falaram. Por exemplo, acreditava que tinha alguns ancestrais que eram agricultores muito ricos e, na verdade, não só eram muito pobres como até tive antepassados presos durante alguns períodos. Depois descobri outros que afirmavam ser muito pobres e, afinal, não só eram mais ricos como tinham um bonito nível de educação.

O que pode dizer-nos sobre a história do Homo sapiens no território de Portugal?

Vocês têm a mesma história dos primeiros caçadores e novos agricultores, como aconteceu na maioria das outras partes da Europa. Mas único para Portugal e algumas outras partes da Península Ibérica são os minérios de estanho. E o pontapé inicial da Idade do Bronze deu-se quando os homens vindos das estepes chegaram, há cerca de 4500 anos, e começaram a explorar os minérios de estanho. Foi esse o início da transformação mais importante na Europa e, dada a presença destes minérios na Península Ibérica, é algo que definitivamente deve ser investigado pelos académicos portugueses, até porque agora temos as evidências do ADN.

Saber que todos somos descendentes de um grupo muito pequeno de pessoas é impressionante. Acredita que esse sentimento de família pode ser usado para aproximar as pessoas neste mundo dividido entre raça, cor ou mesmo género?

Quem começa a pesquisar sobre o ADN e a genética das populações e a mergulhar nestes assuntos, como eu fiz, aprende que os racistas têm ideias muito superficiais e erradas sobre o nosso passado. A nossa história europeia, com todas as migrações e fusões que nos tornaram as pessoas que somos hoje, é muito mais complexa do que a maioria das pessoas sabem.
 

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