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Caça ao ‘ouro branco’. Icebergues são cada vez mais uma moda e um negócio

Caça ao ‘ouro branco’. Icebergues são cada vez mais uma moda e um negócio

Joana Marques Alves 12/08/2019 20:34

Turismo, comércio, indústria. Os icebergues estão na moda e a sua água pode ser utilizada das mais diversas formas. Há quem veja tanto potencial neste recurso que o descreve como o novo ‘ouro branco’.

Diz o ditado que “se não os podes vencer, junta-te a eles”. Numa altura em que o aquecimento global destrói os polos e coloca em causa a sustentabilidade do planeta, há quem veja no degelo uma oportunidade de negócio. Não é por acaso que os icebergues já são descritos como o ‘ouro branco’.

É o caso de Edward Kean. Este pescador canadiano de 60 anos ficou conhecido como ‘caçador de icebergues’, precisamente por se dedicar à ‘colheita’ de grandes blocos de gelo para consumo. Com uma pequena equipa de homens no seu barco de pesca, Kean aventura-se pelas águas geladas do Atlântico Norte em busca dos icebergues da Gronelândia.

Kean começou a dedicar-se a este trabalho há mais de duas décadas. Começa o dia ainda antes de o sol nascer e prepara-se para passar horas a fio no meio do oceano. Antes de partir à aventura, o pescador procura os seus prémios através de mapas-satélite. Depois de conseguir detetá-los, lança-se ao mar com a sua equipa – o trabalho ‘a sério’ começa quando encontram o ‘ouro branco’.

O último gigante de gelo que encontrou ficava na baía de Bonavista, ao largo da ilha da Terra Nova – que, juntamente com Labrador, forma uma província canadiana. Assim que se aproxima do icebergue, Kean pega na espingarda e dispara na sua direção, com esperança que pequenos blocos de gelo caiam ao mar e sejam facilmente recolhidos, descreve a agência noticiosa AFP.

Depois, alguns membros da equipa usam uma lancha para se aproximarem mais do icebergue. Com materiais específicos, tentam retirar pequenos blocos que ainda possam estar ‘agarrados’ e, com uma rede, recolhem o gelo que caiu ao mar. Cada um destes fragmentos pesa, em média, entre uma e duas toneladas. Os blocos são puxados para o barco com recurso a um gancho. São depois armazenados em contentores com capacidade para mil litros, onde irão derreter ao longo dos dias seguintes. Durante a ‘época alta’ – entre maio e julho –, a equipa consegue recolher 800 mil litros de água.

Atualmente, não é necessário um grande esforço físico para desempenhar este trabalho – o aquecimento global tem ajudado muito estes caçadores. “Eles têm derretido muito rapidamente”, conta Edward Kean à AFP. “Não estamos aqui para fazer mal ao ambiente, não estamos a destruir nada, estamos apenas a aproveitar a água mais pura do mundo”, acrescenta.

Produtos gelados Depois da recolha, começa o negócio. A equipa de Kean vende esta água pura aos comerciantes locais por um dólar canadiano por litro (o equivalente a cerca de 67 cêntimos por litro). Claro que os produtos feitos a partir destas águas são vendidos ao público por um preço muito (mas mesmo muito) mais alto.

Uma delas é a empresa canadiana icebergue Waters. “Os nossos preços começam nos oito euros. O mais caro é a vodka de icebergue”, revela ao i fonte oficial da empresa, sem especificar o preço. No site The Whisky Exchange, uma garrafa de vodka de 70 centilitros é vendida a um “preço especial” de 21,95 libras (cerca de 23 euros).

Outra marca que comercializa água recolhida de icebergues é a norueguesa Svalbardi. De acordo com a informação disponibilizada na sua página oficial, uma garrafa de 750 mililitros custa 79,95 euros. Já uma caixa de seis garrafas chega aos 389,70 euros.

Há também quem faça vinho de icebergue. Sim, leu bem: vinho de icebergue. A Auk Island Winery, uma propriedade na zona de Twillingate, na Ilha da Terra Nova, tem a sua própria marca de vinhos feita com água de icebergue e frutos silvestres.

Mas os icebergues não servem apenas para fazer bebidas: a marca canadiana East Coast Glow vende sabões feitos a partir da água destes grandes blocos de gelo. Os preços rondam os 10 dólares canadianos (cerca de sete euros).

Atração turística Enquanto muitos se mostram preocupados com o degelo, outros preferem aproveitar a oportunidade que as circunstâncias oferecem. Os icebergues à deriva estão a chamar cada vez mais a atenção dos turistas. De acordo com o site britânico Daily Mail, as autoridades encarregues da gestão da ilha da Terra Nova registaram, no ano passado, a entrada de 500 mil visitantes – o mesmo número de pessoas que habitam a região. Estas gastaram cerca de 433 milhões de dólares na zona (aproximadamente 386 milhões de euros).

A população local mostra-se feliz com o ‘boom’ do turismo na região, que ajudou a indústria das pescas a recuperar. O foco pode ser os icebergues, as fotografias maravilhosas e os produtos de luxo feitos a partir destes grandes blocos de gelo, mas toda a região sente os efeitos da prosperidade. “Toda a minha vida vivi nesta zona e o aumento do turismo nos últimos 10 ou 15 anos tem sido incrível”, disse ao Daily Mail Devon Chaulk, um jovem de 28 anos que vive numa aldeia com apenas 300 habitantes.

Questão ambiental Os habitantes e os comerciantes da ilha Terra Nova parecem estar felizes com a moda dos icebergues, mas enquanto uns olham para estes blocos como uma fonte de rendimento, outros assustam-se com o que está a acontecer ao nosso planeta.

O aquecimento global é algo que tem sido muito debatido nas últimas décadas, mas onda de calor que se fez sentir no final de julho lançou o alerta: a cientista Ruth Mottran, do Instituto Meteorológico da Dinamarca, disse no início do mês que a área da camada de gelo da Gronelândia que está a descongelar “está a crescer diariamente”, atingindo este ano um recorde de 56,5% de área a derreter.

Segundo os especialistas, no dia 31 de julho (um dos mais quentes de sempre), mais de 10 mil milhões de toneladas de gelo desapareceram no oceano na Gronelândia. No mês de julho, a perda de gelo foi de 197 mil milhões de toneladas naquela zona. Para se ter uma noção do que este número representa, o instituto dinamarquês – citado pela imprensa internacional – explicou que mil milhões de toneladas de gelo derretido equivalem a 400 mil piscinas olímpicas. Já 100 mil milhões de toneladas correspondem a um aumento do nível global do mar de cerca de 28 milímetros.

Mas a verdade é que a recolha de blocos de icebergues que se ‘descolam’ pode até estar a ajudar o ambiente: “Estudos recentes da Universidade de St. Marys, no Canadá, sugerem que demasiada água fresca de icebergues a derreter para o oceano de água salgada pode ter um impacto negativo no meio ambiente. Efeitos a longo prazo podem incluir alterações nos padrões na Corrente do Golfo e na subida dos níveis do mar. Ao recolher estes blocos, a Iceberg está a encontrar novos destinos para esta água pura”, refere a empresa canadiana Iceberg no seu site, explicando que não são utilizadas “quaisquer fontes de energia para acelerar” o processo de descongelamento e que usa materiais reciclados nas embalagens.

Há também quem veja neste método uma forma de lidar, no futuro, com a escassez de água em várias zonas do planeta. A verdade é que ainda são necessários muitos estudos para perceber qual o impacto destas colheitas. Para o bom ou para o mau.

 

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