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Leitor de BD. Verdades essenciais

Leitor de BD. Verdades essenciais

Ricardo António Alves 12/08/2019 11:26

Ao escolher o título Almanaque, André Oliveira teve, por certo, a intenção de espalhar a diversidade de estilos de que o volume se compõe

Noutros tempos, quando o país era eminentemente rural, um almanaque, depois do missal,  encontrava guarida em todos os lares, concentrando numa mesma publicação tudo o que de necessário importava à travessia do ano sem percalços, da meteorologia aos dias santos a guardar. Eça de Queirós, que escreveu sobre o assunto como ninguém, na apresentação do Almanaque Enciclopédico para 1896, falava de como estes livrinhos singelos mas profusos guardavam as “verdades essenciais que a humanidade necessita saber, e constantemente rememorar”.

André Oliveira (Lisboa, 1982) - um dos mais prolíficos argumentistas da BD portuguesa -, ao escolher para esta colectânea o título Almanaque, teve, por certo, a intenção de espelhar a diversidade de estilos de que o volume se compõe. São 24 “curtas de BD”, algumas inéditas, outras publicadas na revista Cais, em parceria com outros tantos desenhadores: André Diniz, Rui Lacas, Phermad, Bernardo Majer, Pedro Serpa, João Lam, Nuno Frias, Afonso Ferreira, João Vasco Leal, Luís Louro, Patrícia Furtado, Miguel Andrade, Daniel Viçoso, Tiago Lobo Pimentel, Selma Pimentel, Filipe Andrade, Darsy Fernandes, Catarina Paulo, João Sequeira, David Cerqueira, Susana Resende, Susa Monteiro e Marta Teives. Parte destas narrativas caracterizam-se pelo humor, cujos melhores exemplos serão o nonsense garoto do díptico “Coisas que o t-rex não consegue fazer” e “Coisas que o dentes-de-sabre não consegue fazer”, com desenhos de Pedro Serpa; ou ainda “Se Janeiro deixar” (com João Sequeira), a lembrar os Gato Fedorento.

Mas o melhor André Oliveira surge, quanto a nós, naqueles relatos em que perpassa uma melancolia fina, uma angústia existencial insistente, em confronto com o sentimento trágico da vida, a sua fragilidade, e que por isso mesmo procura valorizar o que é verdadeiramente importante para si, denunciando um romantismo que não vai bem com a modernidade suicidária que vivemos: a constância no amor, os vínculos familiares, a fidelidade a si próprio, a memória da inocência, quantas vezes ao sabor dos caprichos do acaso - outras verdades essenciais que Eça estava longe de  desconhecer, mas que não tinham a primazia para um público que ainda não voltara costas ao campo e se orientava pela regularidade das estações. “Mesmo assim, abandonei-te” (com desenhos de Rui Lacas), “No meu lugar” (Filipe Andrade), “Saudade” (Darsy Fernandes), “Nina” (Catarina Paulo) ou “Narciso” (Susa Monteiro, também autora da capa), são alguns dos momentos inexcedíveis deste livro.

Almanaque

Argumentos  André Oliveira.

Desenho vários autores

Editora Bicho Carpinteiro, Lisboa, 2018

A grande rebaldaria

The Katzenjammer Kids / Os Sobrinhos do Capitão surgem em 1897 no New York Journal. William Randolph Hearst, magnata da imprensa, confiara a Rudolph Dirks (1877-1968) a criação de uma série inspirada no livro de infantil de Wilhelm Bush, Max und Moritz (1865).  Quando mais tarde Dirks se passa para o grupo do rival Joseph Pulitzer, levando as personagens consigo, Hearst contratou o excelente Harold Knerr (1883-1949) como substituto. E assim, dois jornais concorrentes publicavam ao mesmo tempo e com o mesmo título as tropelias das mesmas personagens, mas com autores diferentes - uma proeza digna de Hans e Fritz, os dois sobrinhos...

Em tribunal, o juiz permitiu que ambas continuassem,  mas obrigou Dirks a mudar o nome, e The Captain and the Kids ficou. Trata-se de “uma verdadeira saga de destruição”, segundo o crítico brasileiro Marco Aurélio Lucchetti na introdução a este livro de pranchas dominicais saídas entre 1957 e 1960, da autoria de Joe Musial (1905-1977), um dos vários émulos e sucessores de Dirks e Knerr. Cada página com Hans e Fritz, Dona Chucrutz, a mãe, o Capitão e o Inspector é um atentado à tranquilidade dos últimos, dois aposentados com doses equilibradas de estupidez e maldade. Bem sucedidos muitas vezes, noutras os rapazes não se livram de uma tareia à antiga. 

O êxito deve-se ainda ao exotismo do cenário, situado numa colónia alemã da África Oriental, onde não faltava um régulo sabido e, no original, um inglês arrevesado com alemão, que exponencia o cómico das situações. Com ingredientes politicamente letais, a série perdeu espaço na América de hoje, terminando em 2006.

Os Sobrinhos do Capitão

Texto e desenho Joe Musial

Editora Opera Graphica, São Paulo, s.d.

 

 

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