21/8/19
 
 
Alexandra Duarte 12/08/2019
Alexandra Duarte

opiniao@newsplex.pt

O filho preferido existe?

Nada como perguntar à mãe quem é o filho preferido. Esta pergunta por si só encerra em si quase todos os mistérios do universo e todas as alegrias ou desilusões, dependendo da resposta que se ouvir.

Quem tem mais do que um filho sabe que, a certa altura, surge a pergunta incómoda para a qual nunca estamos preparados. Todos nós somos únicos e especiais e desde pequenos que vamos alimentando este ego, procurando nos mais próximos a confirmação de que somos abençoados com uma centelha mágica que nos distingue de todos os outros.

A primeira vez que interrogamos os nossos pais sobre quem é o filho preferido marca o início de uma caminhada que busca direitos preferenciais nas relações que estabelecemos com quem se vai cruzando no nosso caminho. O primeiro embate, regra geral, não é animador. Até porque os interrogados são pouco objetivos no que se refere a estes sentimentos paternais e, antes de responderem à questão, atiram com frases feitas, sem sequer se atreverem a pensar na razão que leva um filho a tal interrogação.

Dos meus três filhos, o mais novo é, de longe, o mais interessado no assunto, a avaliar pela sua persistência, mesmo depois de ter recebido respostas atiradas pelo ar, em tom completamente descomprometido da minha parte. Esta sua cisma, que vem adquirindo contornos de requinte próprios de quem já elaborou um plano para alcançar o seu objetivo, não é totalmente desprovida de sentido. Pelo contrário, deriva de emoções que são consciencializadas, absorvidas e devolvidas em forma de pergunta, como se se tratasse de um alinhamento dos meridianos e das latitudes deste pequenino ser. Não é só uma pergunta… é muito mais do que isso. É uma bússola interior que o impele a descobrir a sua localização face aos outros pontos geográficos que o rodeiam, leia-se os irmãos.

Nada como perguntar à mãe quem é o filho preferido. Esta pergunta por si só encerra em si quase todos os mistérios do universo e todas as alegrias ou desilusões, dependendo da resposta que se ouvir. E no seu encalce seguir-se-ão outras tantas para complementar o raciocínio iniciado.

Ao olhar para os olhos deste pequenino (será sempre pequenino para mim) quando me interpela, timidamente, sobre a questão que carrega todos os dias, apercebo-me de que não posso simplesmente responder com “Gosto de todos igualmente!”, “A mãe não tem preferências!”, ou “São todos iguais no meu coração!”. Até porque já o fiz, numa primeira tentativa de sacudir o assunto para longe, desejando que tivesse sido uma pergunta corriqueira e sem repetições. Desejei ter sido convincente o suficiente para que não voltasse à carga, fazendo-me sentir indefesa e sem munições para responder.

A pergunta surgiu mais uma vez e outra e ainda outra… E senti que não era um assunto ligeiro. Era imperativo refletir sobre esta inquietação, o que estava na sua origem e nas consequências de uma resposta mais realista e sem subjetivismos. 

Se um filho nos coloca a questão das preferências é porque perceciona que o tratamento dado aos irmãos não é igual, na justa medida, seja a seu favor ou em seu demérito. O que quer dizer que, apesar de todos os esforços que empreendo todos os dias para ser justa e equitativa nas relações entre mãe e filhos, não transpareço, como gostaria, esta imparcialidade.

O curioso é que não há unanimidade quanto à preferência da mãe. O mais velho diz que o meu preferido é o do meio, o do meio, por sua vez, diz que é o mais novo, e o mais novo suspeita convictamente que é o filho preferido, mas carece dessa confirmação. Ainda assim, estas posições oscilam, tal e qual a bolsa de valores, e, a qualquer momento, o valor de cada um deles pode subir e passar a ser o mais cotado.

Falar em preferências pode facilmente ser confundido com amor e com amar. Se partirmos do princípio que um pai ama de igual forma os seus filhos, podemos assumir que o tratamento que lhes dá é igualmente proporcional ao seu amor. Logo, não se encontram diferenças.

Mas à medida que vão crescendo e construindo a sua personalidade, este amor transparece da relação que se estabelece com cada um. Por mais educação, amor e tempo que lhes proporcionemos em igual medida, as cumplicidades vão fortalecendo as ligações e acabam por diferenciar as relações entre mim e cada um deles.

Os anos vão passando e encontramos neles parte de nós, umas que gostamos, outras que dispensávamos que tivessem herdado geneticamente. A base está lá e é a mesma, só que o milagre acontece quando cada um começa a fazer o seu caminho e a autoconstruir-se. Um pouco como a catedral da Sagrada Família, em Barcelona: antes de morrer, Gaudí deixou construídas a cripta, a abside da fachada e uma torre, e no seu ateliê encontravam-se os projetos de construção para o resto do edifício. Na cabeça de Gaudí, o pai da basílica, o resultado final seria sempre diferente do que aquele que está a ser alcançado, dado que as maquetas foram destruídas durante a guerra civil, sobrevivendo somente os planos. Os arquitetos que ao longo dos anos foram sendo os responsáveis pela sua construção, além de seguirem todas as orientações que foram deixadas pelo criador, tiveram de retomar o projeto da basílica por sua conta e com base na sua experiência, não descurando os planos originais e adequando as novas tecnologias e materiais existentes. Se todos os anos visitarmos este monumento, encontramos mais beleza transcendente, com algo de novo que foi acrescentado e completou ainda mais a peça inacabada. 

Assim são os nossos filhos. Numa primeira fase são uma extensão de nós, para depois passarem a ser arquitetos e engenheiros de si próprios, com projetos desenhados por nós, mas que em qualquer altura podem adaptar às suas vontades. Aos nossos olhos, o resultado será sempre inspirador como a basílica da Sagrada Família e cheio de surpresas que nos vão sendo reveladas.

E não depende só de nós. A relação que se constrói com cada filho depende também deles e das suas necessidades etéreas ou mais mundanas. E daqui não vem a preferência, vem a adequação de duas personalidades que, tal como em todas as outras relações de natureza diversa, se encaixam e vão ao encontro uma da outra. 

Amor de mãe não se divide nem se subtrai. Quando o primeiro filho nasce, não cabe em nós tanto amor e sentimos que não seremos capazes de amar novamente com aquela dimensão. Vem o segundo e o primeiro continua detentor do mesmo amor, a mãe é que gerou mais amor para o segundo filho e por aí fora… porque não há limite para o amor.

Escreve quinzenalmente
 

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