21/8/19
 
 
António Galamba 12/08/2019
António Galamba

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O cansaço de Almograve e afins

O cansaço em relação à falta de manutenção ou de modernização das infraestruturas é batido pelo cansaço em relação à persistência dos problemas estruturais.

Finalmente chegado ao recanto fantástico do Almograve, depois das incidências da candidatura ao superior do meu filho, trago comigo um certo cansaço partilhado pelas gentes da terra, do Baixo Alentejo e de boa parte do país. Por mais anos que passem há coisas que nunca mudam. O que é previsível não devia ser e o que não é devia sê-lo, há muito. Na educação como em muitas áreas da sociedade portuguesa há rotinas que não faz nenhum sentido não serem alteradas para darem estabilidade e previsibilidade às pessoas. Não faz sentido um professor ir para férias sem saber a colocação no ano letivo seguinte ou um estudante ir para férias sem saber em que estabelecimento do ensino superior foi colocado. Em sentido inverso, é demasiado previsível a inação dos poderes em relação a boa parte do nosso território.

Quem percorra as estradas de um território como o do Litoral Alentejano confronta-se com uma realidade em que os buracos e as lombas nas bermas persistem em resistir ano após ano, a qualquer esboço de intervenção das Infraestruturas de Portugal. Minto, tem havido pródiga intervenção na colocação de sinalética que se limita a confirmar o que as suspensões dos veículos há muito tinham constatado. Este abandono sistémico, que transforma qualquer deslocação numa aventura de todo o terreno, gera um cansaço conformado das populações sujeitas a toda uma miríade de perceções de abandono que nenhuma torrente de verão compensa ou esforços dos poderes locais consegue compensar. Confesso que do ponto de vista da gestão pública do território, tenho a maior consideração pelo esforço local realizado para absorver a pressão populacional de multiplica várias vezes a população residente em consumos e detritos. Não é fácil manter um equilíbrio na gestão sazonal destas incidências que só são relevadas quando correm mal.

Mas, o cansaço em relação à falta de manutenção ou de modernização das infraestruturas é batido pelo cansaço em relação à persistência dos problemas estruturais no acesso aos serviços públicos básicos, na emergência de novas realidades e em relação às próprias rotinas tradicionais. A palavra de ordem é a da resiliência. O drama é que o quadro gerado pela greve dos sindicatos dos motoristas de pesados de transportes de matérias perigosas coloca em causa a previsibilidade de um verão que compense o baixo registo das rotinas do resto do ano em territórios como o de Almograve. É somar cansaço à resiliência de quem procura sobreviver neste espaço do território nacional e dar vida a este conjunto de pessoas e terras.

Há muito que defendo a necessidade de haver um renovado equilíbrio entre os direitos e os deveres dos cidadãos. São muitos os que invocam os direitos, mas poucos os que exercitam adequadamente e com sentido de equilíbrio comunitário os deveres. Aliás, os últimos anos foram de grande sublinhado dos direitos, com reconhecimentos não generalizados, com um forte vergastar dos deveres ao nível da carga fiscal, em especial, da indireta, a sub-reptícia. 

Quando falamos com o Senhor Manuel do Peixe, o Senhor Eduardo agora da Mercearia, o Senhor Carlos do Talho ou o Senhor Caetano do Lavrador, perpassa o cansaço de todo um povo confrontado com a indiferença dos poderes de Lisboa. Incapazes de responder ao cansaço acumulado do que não foi feito e de renovados cansaços em relação à inação perante as novas realidades, em especial, as geradas por comunidades de emigrantes que demandam o território para trabalhar no campo. Não ter havido nenhum relevante problema de integração até ao momento não é pressuposto de que, perante a ausência de apoio nacional ao poder local para concretizar respostas, não venham a acontecer problemas que ninguém deseja.

É uma resignação triste que captura a alma de que confere vivência às comunidades, contribui para sua sustentabilidade como espaços de identidade e sustenta uma ação decisiva para a salvaguarda do património imaterial e material das comunidades, tantas vezes, torpedeadas por fundamentalismo sem nexo com a realidade na manutenção da vasta Costa Alentejana e Vicentina.

Há todo um Portugal que resiste, afastado dos radares dos poderes centrais, dos holofotes mediáticos e dos jogos de interesses de classes profissionais, que apresenta preocupantes sinais de cansaço em relação á indiferença a que tem estado votado. Insistir em não ter respostas sustentadas para estes territórios é uma preocupante persistência num caminho de falta de coesão e de geração de revoltas, com relevantes impactos na participação cívica e eleitoral. Imagine-se que toda esta gente se unia e reivindicava, sob ameaça de greves, reposições concretas de atenção política, de investimento e de ação para 2020, 2021, 2022 e por aí fora.

Não havendo senso no exercício político e equilíbrio na interação dos interesses em presença na sociedade portuguesa, tudo se torna mais complicado, porque não são sustentáveis os caminhos que se estão a trilhar. Fingir que não é assim, é fazer parte do problema.

NOTAS FINAIS

SARGO. A conjuntura política é similar à do sargo. As águas estão agitadas, saborear o repasto tem um sabor único, a mar, mas, se mal manuseado na ingestão tem demasiadas espinhas que podem dificultar a tarefa. As greves dos camionistas, pelos impactos nas rotinas das pessoas, podem anular todo os efeitos positivos das férias e do conforto dos subsídios da praxe.

PERCEBES. No Lavrador, em Almograve, claro. O campeonato nacional de futebol começa sem que a maioria tenha feito algum esforço para superar o quadro de maledicência inconsequente do passado recente. Eles persistem, nós resistimos em fazer as apostas certas, trabalho, formação e determinação. Pelo Benfica. Pré-época, duas conquistas, com os pés no chão, é continuar. 

Escreve à segunda-feira

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