22/10/19
 
 
Mário João Fernandes 09/08/2019
Mário João Fernandes

opiniao@newsplex.pt

De como o Diabo deixou de trabalhar a recibos verdes

A precariedade também chegou ao Inferno, sem direito a subsídio de desemprego, mas com obrigação de descontar para a segurança social.

Satã segue com atenção os programas eleitorais dos diversos partidos políticos. É uma atenção interessada, de quem compara promessas antes de tomar partido. Seguindo o rasto da primeira leva de cartazes com propaganda eleitoral, Satanás chegou à rua da Imprensa à Estrela. Aproveitando os dias de intensa formação em condução de pesados dispensada aos PSP’s de serviço, apareceu por artes suas no gabinete do primeiro-ministro.

Diabo – António, que fazes tu por aqui em pleno Agosto?

Costa – Olha um anjo caído! Também foste vítima da troika e do congelamento de carreiras?

D – Isso queria eu. Nem carreira, nem emprego, sem férias nem subsídio de desemprego, nada.

C – Não pode ser! Que grande injustiça.

D – E ainda me obrigaram a colectar-me nas Finanças e a descontar para a segurança social. Estou como os mendigos na Suécia: tenho de pagar para pedir esmola.

C - Pobre Diabo. Isso deve ter sido coisa do Gaspar. E tens cartão do cidadão?

D – Tenho pois, passei uma semana na fila a dormir à porta de uma conservatória para o renovar, saiu-me do pêlo.

C – E tens o recenseamento eleitoral em dia? Agora já não é preciso teres cartão de eleitor.

D – Tenho pois. Moro na Boca do Inferno, voto em Cascais, tenho lá muita gente amiga.

C – E não gostarias de ter uma vida melhor, segurança no emprego?

D – Gostar gostava, mas só consigo trabalho uns dias por mês. Às vezes faço umas presenças em eventos mas agora fecharam a Assembleia da República e nem o PSD me contrata. Dizem-me que se não há dinheiro, não há Diabo.

C – Vamos ver o que é que se pode arranjar. Tu não gostavas de fazer um estágio de reinserção socio-profissional dirigida à certificação de competências inatas?

D – Não sei o que isso é mas desde que me paguem...

C – Não te preocupes. Até 6 de Outubro ficas certificado e pronto a entrar para a Função Pública.

D – Com contrato sem termo?

C – Vitalício!

D – E impossibilidade de despedimento?

C – Nem Deus te conseguirá despedir.

D – E promoções automáticas?

C – Sempre!

D – E actualização salarial superior à inflação?

C – Claro.

D – E mantêm-se as 35 horas por semana?

C – Só se não conseguirmos baixá-las.

D – Onde é que eu assino?

C – Tens aqui, na última linha, mas tem de ser com sangue, o reconhecimento de assinaturas anda difícil em Agosto.

D – Mas este contrato está em branco!

C – Então agora deu-te para ser racista e para discriminar em função da cor?

D – Não sei se devo assinar um contrato em branco...

C – Que mais queres tu? Olha queres entrar para o Governo?

D – Para o Governo? Para fazer o quê?

C – Uma coisa catita, como nos bons velhos tempos: Ministro sem pasta.

D – Ministro sem pasta? Mas assim não teria Ministério, não teria competências!

C – Ficas muito melhor servido. Passas a poder andar por todo o lado, podes visitar toda a gente, não tens limites à tua esfera de actuação. Vais fazer muito mais do que a maioria dos Ministros. E ninguém te poderá assacar responsabilidades.

D – Não sei bem como é que isso poderia funcionar.

C – É simples. Há uma greve. Vais lá e falas com os sindicatos e dizes-lhes que vais convencer os patrões do bem fundado das reivindicações dos grevistas. Depois vais ter com os patrões e dizes-lhes que vais meter juízo na cabeça dos sindicalistas. Entre as duas conversas falas com os jornalistas e explicas que estás a trabalhar para o bem das famílias e das empresas.

D – Não sei. Parece-me que já anda alguém a fazer isso.

C – Mas não é o Diabo!

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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