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Israel. Biblioteca Nacional revela inéditos de Kafka

Israel. Biblioteca Nacional revela inéditos de Kafka

José Cabrita Saraiva 08/08/2019 19:54

Documentos foram ontem apresentados. Eram disputados desde 2008 entre a instituição e duas irmãs que alegavam tê-los herdado legitimamente.

O curador da coleção para a área das humanidades da Biblioteca Nacional de Israel revelou ontem, em conferência de imprensa, uma amostra das centenas de cartas, manuscritos, páginas de diário, blocos de notas e desenhos do escritor checo Franz Kafka (1883-1924) que recentemente deram entrada na instituição. Os papéis, muitos dos quais inéditos, foram para ali transferidos após uma longa batalha judicial que começou há 11 anos. Alguns destes manuscritos passaram décadas fechados no cofre de um banco em Zurique, enquanto outros estiveram guardados num frigorífico fora de uso num apartamento cheio de gatos em Telavive, segundo o diário britânico The Guardian.

As origens deste percurso acidentado remontam a 1924. Consumido pela tuberculose, ao ver a morte aproximar-se Kafka escreveu ao seu amigo Max Brod dando-lhe instruções para queimar todos os seus escritos. A história teria ficado por aí se Brod tivesse cumprido o terrível pedido – mas, para nossa sorte, nunca o fez. Questionado sobre isso, Brod explicava que quando, ainda antes da carta, Kafka lhe pediu cara a cara que destruísse todos os seus papéis, ele o recusou terminantemente. “O Franz devia ter escolhido outro executor testamentário se estivesse absoluta e definitivamente determinado a que as suas instruções fossem cumpridas”.

Max Brod conservou sempre consigo o legado literário de Kafka, até porque o considerava, mesmo antes da publicação de qualquer das obras que o tornariam célebre, “o maior poeta do nosso tempo”. E em 1939, vendo a ameaça nazi aproximar-se, trocou Praga pela Palestina, levando os papéis do amigo numa mala. Entre eles, encontravam-se preciosidades como o manuscrito original de O Processo, alguns contos ou as páginas doridas de Carta ao Pai.

Após enviuvar, em 1942, Brod iniciou uma relação íntima com a sua secretária Esther Hoffe, uma judia nascida, como ele, no Império Austro-húngaro. Hoffe, que viveu até aos 101 anos, acabaria, por sua vez, por ficar como depositária dos escritos de Kafka, os quais, à sua morte, em 2007, passaram para as suas duas filhas.

Desde março de 2008 que a Biblioteca Nacional de Israel reclamava o valioso espólio, alegando que Max Brod, ao deixá-lo com a secretária, esperava que esta cumprisse o seu desejo de ver os escritos de Kafka entregues a uma instituição em Israel. “A Biblioteca Nacional reivindicava a transferência do arquivo porque era esse o desejo de Brod manifestado no seu testamento”, afirmou o presidente da instituição.

Por sua vez, as filhas de Hoffe alegavam que os escritos lhes haviam sido transmitidos como herança pessoal, tratando-se, portanto, de propriedade privada. Durante a disputa judicial, as irmãs Hoffe passaram por enormes dificuldades, uma vez que os bens e contas bancárias da mãe se encontravam congelados. Mas em novembro de 2017 o Supremo Tribunal de Israel deliberou a favor da biblioteca.

Nascido em Praga em 1883, Franz Kafka acabaria por tornar-se um escritor de culto do séc. xx, graças a obras singulares como A Metamorfose, que relatava a transformação de um jovem numa barata durante o sono. Apesar de pertencer a uma família burguesa abastada da comunidade judaica, teve uma vida sofrida e atormentada, como atestam muitos dos seus escritos. Numa das cartas a Max Brod falava do “terror da solidão”.

Para termos uma noção do valor do espólio agora entregue ao cuidado da Biblioteca Nacional de Israel, basta recordar que em 2008 o manuscrito de O Processo foi vendido por dois milhões de euros. O livro, com laivos de surrealismo, narra uma espécie de pesadelo burocrático – e foi graças a ele que se cunhou a palavra “kafkiano”. Um adjetivo que muitos consideram adequado para descrever o destino dos seus manuscritos e a disputa a que agora foi posto um ponto final.

 

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