22/10/19
 
 
José Cabrita Saraiva 08/08/2019
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

António Costa e a arte de lidar com matérias perigosas

Da empregada doméstica ao Presidente da República, não há quem esteja solidário com os motoristas.

Ao contrário do que tem acontecido com a tragédia dos fogos, o Governo geriu de forma irrepreensível esta questão potencialmente incendiária que é a greve dos motoristas.
 
Há uns meses, o até então desconhecido Pedro Pardal Henriques descobriu que conseguia lançar o país no caos controlando o setor cirúrgico do transporte de matérias perigosas. As bombas de gasolina sem combustíveis e as filas intermináveis de carros para abastecer deram-lhe uma medida do seu poder. Ciente dessa força, iniciou um processo reivindicativo com a ameaça implícita de que, caso as suas exigências não fossem satisfeitas, os motoristas entrariam em greve e Portugal ficaria de pantanas.
 
O princípio da greve está consagrado na lei e constitui um instrumento precioso para alcançar uma maior justiça social. Só que - como tão bem compreendeu a máfia americana, que conseguiu deixar uma cidade como Nova Iorque de joelhos através da interrupção da recolha do lixo - pode tornar-se também uma forma de chantagem.
 
Neste caso, ainda não é claro para os portugueses em qual das duas modalidades encaixa melhor a greve dos camionistas. E António Costa, como negociador exímio que é, conseguiu passar a ideia de que os sindicatos estão a adotar uma postura intransigente e só não chegam a acordo e desconvocam a greve se não quiserem. Da empregada doméstica ao Presidente da República, não há quem esteja solidário com os motoristas.
 
Quem diria que uma matéria perigosa e altamente inflamável como esta ainda haveria de tornar-se um trunfo para o primeiro-ministro? Se a greve for para a frente, ninguém culpará o Governo. Se não for para a frente, todos darão mérito à forma como geriu o assunto. Desde a formação da geringonça após a derrota do PS nas eleições legislativas até ao momento atual, Costa tem dado sucessivas lições sobre como encostar os adversários às cordas e aproveitar os problemas a seu favor. Penso que é no judo que se usa a força do adversário para o vencer. O primeiro-ministro deve saber disso e pratica-o na perfeição; já Pardal Henriques tem de se acautelar para que todo o poder que parecia ter não se vire contra ele.
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