22/10/19
 
 
Carlos Zorrinho 07/08/2019
Carlos Zorrinho
opiniao

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Semeadores de frustrações

O escrutínio democrático está cada vez mais refém de colagens de episódios com que se constroem narrativas por medida em função da emoção que se pretende gerar.

O postulado de que a democracia é o mais imperfeito de todos os sistemas políticos à exceção de todos os outros é um considerando profundamente racional. As forças globais a quem o escrutínio democrático atrapalha nos seus planos de controlo do poder absoluto e da apropriação da riqueza foram os primeiros a perceber esta verdade simples.

Em consequência, ao contrário das muitas utopias benévolas que previam que a massificação do acesso à informação proporcionado pelo desenvolvimento da internet levaria a um triunfo democrático da razão, as forças radicais apressaram-se a usar a internet não para competirem em pé de igualdade na sua cruzada doutrinária de defesa das suas posições sectárias e supremacistas, mas antes para semearem frustrações, criando condições favoráveis para a propagação do discurso do ódio, populista, focado contra pretensas elites caricaturadas como biombos das verdadeiras elites que promovem cada vez mais um controlo intolerante e antidemocrático dos espaços políticos.

O combate político pelos valores democráticos, pelos direitos humanos e pela sustentabilidade do planeta são combates com uma forte matriz racional, mas que só podem ser vencidos se os seus exércitos não forem desbaratados previamente no plano emocional.

As consequências práticas desta realidade transcendem as redes sociais e a luta fratricida entre os que a procuram controlar e os que se posicionam na resistência e defesa duma internet cujas regras sejam aquelas que protegem a liberdade, a igualdade e a justiça.

No plano dos designados média tradicionais, por exemplo, os debates informados sobre a atualidade são cada vez mais substituídos por flashes dessa realidade em que a edição se sobrepõe à razão e o nível de emoção gerada é o principal indicador de sucesso.

Da mesma forma, o escrutínio democrático é cada vez menos feito através de balanços sustentados dos resultados conseguidos no exercício dos mandatos e está cada vez mais refém de colagens de episódios com que se constroem narrativas por medida em função da emoção que se pretende gerar.

Sendo este, em síntese, o terreno e o contexto, o desafio é não o ignorar e, sempre que possível, usá-lo também para fazer contrapoder e salvaguardar os valores e os princípios fundamentais da sociedade democrática, livre e aberta.

Os factos amplamente reportados têm mostrado que têm sido os maus da fita a escrever a maior parte do guião da manipulação da democracia e dos comportamentos sociais através da gestão das emoções através das redes sociais. Contra os semeadores de frustrações, os semeadores de ilusões e visões positivas mais parecem idiotas úteis usados para dar mais oxigénio ao populismo de raiz digital.

É preciso reagir. Embora possa parecer pouco face à urgência do que está em jogo, acredito cada vez mais que a chave dessa reação está na qualidade da semente. Nos valores éticos, no conhecimento e nas competências que a sociedade democrática e aberta for capaz de inculcar nos indivíduos e, através deles, nas sociedades.

Na sementeira da formação e da educação contra as frustrações e a favor duma visão decente e sustentável de sociedade global.

 

Eurodeputado

 

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