19/9/19
 
 
João Pais 06/08/2019
João Rebocho Pais
Opinião

opinião@ionline.pt

Brrrno

Sexta-feira, bem cedo pela manhã.

Local: todos em Portugal.

Quer dizer, todos talvez não, mas quem sabe um dia...

Treinos livres número um, também conhecidos por FP1.

Quem pode está na República Checa a ver, outros estarão em casa ou num qualquer local público que tenha a televisão sintonizada no MotoGP, porque corre o Miguel e todos gostamos de o ver.

No meu caso, vou a caminho do aeroporto, não sem antes deixar o mais novo no jardim-escola. Pego-lhe ao colo e espreito a app do MotoGP (modernices), MO segue em 17.o.

Regresso ao carro e preparo-me para arrancar, espreito de novo, faltam pouco mais de três minutos para terminar a sessão, MO segue marcando tudo a laranja, as pessoas hoje em dia já sabem o que isso significa, nem preciso explicar. Chave na ignição e lá sigo devagarzinho, um pouco mais à frente há uma zona de estacionamento, não resisto e paro, o Falcão terminou a sua volta e desapareceu de 17.o.

Busco um pouco abaixo até ao 20.o e nada, subo e vou até ao décimo... nada, volto aos últimos, volto a subir a escadaria, Miguel, por onde andas?. .. nada! Quase por descarga de consciência, pulo classificação acima. Encontro-o, esfrego a vista e lá está ele: 3.o lugar.

Faltam dois minutos e meio, já agora espero, ainda apareceria Dovizioso mas ninguém mais, MO faz o 4.o tempo.

Nada demais, nada de especial?

Experimentem ir lá e logo verão.

À hora da FP2 é quase tempo de me pôr a caminho de bem longe, coisas da profissão, ando meio atarefado com outras preocupações, mas não me vou embora sem levar uma prenda... dele, quase como diz a canção, sai um 13.o lugar, parece confirmar-se o novo paradigma de vermos o Falcão qualificar uns degraus mais acima... será o caso em breve?

Chega sábado, o treino seguinte vem a caminho logo pela fresca, em Portugal são nove horas da manhã e quero acreditar que mundo e meio vai já anotando na agenda estes horários de emoção. Eu, como estou num lugar lá longe, vejo as horas e são três da matina, esfrego os olhos sem queixume e assisto a mais uma digna mostra de talento, MO ficando a um centésimo de Pol, o senhor KTM, e muito perto de uma Q2 que seria uma belíssima cereja no topo de um bem cozinhado bolo.

Na Q1 veio de novo a chuva, veio um Miguel seguro e uma nova sensação para todos nós ao interiorizarmos que o 16.o tempo trouxe um certo sabor a pouco.

Está na hora, senhores e senhoras de sul a norte, tragam ainda os de leste e oeste, está na hora de seguirem as corridas do Miguel Oliveira, o Falcão, o nosso 88.

Porquê?

Porque ele é bom, porque se bate de igual para igual com os melhores do mundo, porque a vida não é só bola, porque a hora é agora, porque ele merece, porque vocês merecem, porque todos nós merecemos.

E na corrida, essa reunião absurda de potência, mãozinhas e muita loucura, o nosso Miguel arrancou bem. Nas imagens da partida deu para seguir no cantinho superior direito do ecrã aquela mancha azul e laranja a galgar uns lugarzinhos, e a partir daí veio aquela sensação de nervoso miudinho, de quem segue um amigo numa tese de mestrado. E logo de seguida, naquelas imagens a saltitar entre curvas e retas, deu para perceber que lá no meio alguém caíra, um par deles, e era na zona do Miguel, e ai o que teria sido. Chegariam depois as imagens das câmaras instaladas nas próprias motas e daria para confirmar que estava ali mesmo o nosso herói, assistindo de bancada e escapando numa nanofração de segundo ao destino de por ali acabar a corrida.

Depois, bom, depois foi uma esclarecida demonstração de quem subiu um patamar nesta seletiva distribuição de patentes por quem quer chegar a general.

Ele está no seu caminho.

Nós também, Falcão, nunca voarás só!

 

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