16/9/19
 
 
Leitor de BD. Crowdwriting

Leitor de BD. Crowdwriting

Ricardo António Alves 05/08/2019 14:10

No séc. XVII, uma população isolada fez frente, com êxito, a um ataque duma frota de dez embarcações de piratas barbarescos 

Quando atravessamos talvez o melhor momento de sempre da BD portuguesa, pela profusão e qualidade de desenhadores e argumentistas, é de elementar justiça lembrar aqui o último abencerragem dos tempos heroicos das histórias aos quadradinhos nacionais: José Ruy (Amadora, 1930), das páginas de O Papagaio, O Mosquito, Cavaleiro Andante, Tintin, Spirou – até hoje. Apaixonado pela História e pela sua divulgação, não por acaso, a principal personagem que criou é o navegador Porto Bomvento, a singrar pelos quatro cantos do globo; e dois dos seus trabalhos mais marcantes resultam das adaptações em banda desenhada da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, e d’Os Lusíadas, de Luís de Camões, a que podemos acrescentar as muitas monografias sobre cidades e vilas do país, sem esquecer as várias biografias, de Charles Chaplin a Dimitrov, reveladoras desse interesse. No campo humorístico, o artista deu o seu contributo na que foi talvez a melhor revista que por cá se publicou, o semanário Tintin. Quem lhe percorreu as páginas decerto não esquece a dupla de repórteres Clique e Flash deambulando pela redação do hebdomadário, caricaturando com imensa graça quem o produzia semanalmente, em especial Dinis Machado e Vasco Granja, que nele tiveram influência decisiva.

Se o crowdfunding é uma prática normalizada pela comunicação das redes sociais, com A Ilha do Corvo que Venceu os Piratas (Âncora Editora, 2018), José Ruy tornou-se pioneiro do que poderemos chamar crowdwriting, uma vez que a narrativa teve a participação ativa dos corvinos na composição deste relato de história antiga. No séc. xvii, aquela população isolada fez frente, com êxito, a um ataque duma frota de dez embarcações de piratas barbarescos – assim eram chamados os salteadores marítimos baseados em Argel e em Túnis –, que frequentemente empreendiam razias nas Ilhas e no Continente, em especial no Algarve, saqueando e fazendo cativos, vendidos nos mercados de escravos do norte de África.

A narrativa parece seguir de perto as fontes documentais de que o autor lançou mão, por vezes com excesso de didatismo. Trata-se, porém, duma BD clássica de autor histórico que à História e aos clássicos consagrou uma boa parte do seu labor. O traço ágil de José Ruy conserva-se inalterado. As vinhetas iniciais da primeira prancha são esplêndidas em movimento e cor, dando em cheio a solidão da pequena ilha, exposta à inconstância dos elementos naturais no meio do Atlântico, e o insulamento daquela população entregue a si própria e a Deus, apenas lembrada pelo donatário quando este exigia o tributo anual.

A Ilha do Corvo que Venceu os Piratas

Texto e desenho José Ruy

Editora Âncora

Desenhar a morte Jacques Tardi (n. 1946) é um dos mestres da banda desenhada europeia, um estilo único; mais do que herdeiro da linha clara de Hergé e Jacobs, foi alguém que a transfigurou, tornando-a marca pessoal imediatamente reconhecível. Neto de um soldado das trincheiras, a Grande Guerra é um tema obsidiante neste autor que, logo no verso do frontispício, nos avisa ao que vem: “Tenho a impressão de que não podemos fugir à guerra. Mesmo nós, mesmo hoje./ A guerra que mostro não é mais que o décor de 14-18, os uniformes./ Acho que continua atual, o que me inquieta”. Neste álbum, com argumento do romancista Didier Daeninckx (n. 1949), a insanidade da carnificina do conflito mundial de 1914-18 aparece carregada na sua crueza pela utilização magistral do preto e branco, com terra e carne humana retalhadas pelos projéteis arremessados por todas as bocas de fogo, abrindo crateras no lamaçal da Flandres. Duas vinhetas por página são quanto basta para a respiração do texto de Daeninckx: “Uma tonelada de pólvora da casa Krupp destruiu tudo: os mortos, o pelotão, a pocilga onde nos tinham fechado”. A trama, sendo simples, é rica, explorando os quiproquós em que a comédia humana é fértil, aqui exponenciados pelos desencontros da guerra, à retaguarda: o hospital de campanha, o bordel, os desertores com destino marcado.A Ilha do Corvo que venceu os piratas.

Varlot Soldado

Texto Daeninckx

Desenho Tardi

Editora Polvo

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×