19/9/19
 
 
João Pais 30/07/2019
João Rebocho Pais
Opinião

opinião@ionline.pt

Este mundo que é o deles

Ou o nosso.

Talvez assim seja mais justo.

Neste jogo que desafia os limites da física, do equilíbrio e da velocidade, neste mundo que mistura geometria com adrenalina, que transforma gente comum em salteadores das curvas perfeitas, em tudo isto sou apenas uma esponja absorvente que tenta aprender quase tudo.

Se entre pares os cavaleiros se reconhecem no asfalto, pois atrás não ficaremos nós quando nos deslocamos em romarias de devoção estrada fora, em busca de um fim de semana mais, de bandeira em punho, admiração pronta e esperança firme no sucesso de quem seguimos.

De modo algum pretendo decifrar a fórmula complexa que leva a transformar décimas de segundo numa enormidade suficiente para atirar muitas aspirações escada abaixo numa grelha de partida. Desisti também de perceber porque será que trajetórias repetidas volta a volta de punho a fundo, em modo de gémeas siamesas, resultam algumas delas em algo perfeito, outras levam a quedas deslizantes que dão cabo do momento perfeito.

Nesta equação de inúmeras variáveis, piloto, mecânicos, potência, pneus, afinações e outras estratégias cirúrgicas, que papel nos caberá a nós, adeptos, onde ficará o nosso lugar?

Em todo o lado.

Essa é a nossa sina, a nossa sorte, a paixão comum.

Seguir atentos e com avidez, como nos tempos de menino com heróis anunciados em certos dias da semana, buscando a informação que nos traga horários e locais onde possamos estar e torcer.

Apoiando um, depois outro, e ainda outro, percebendo afinal que é aquela louca velocidade dominada por gente intrépida que nos fascina.

Uma semana atrás, mais dia menos dia, vagueando eu por um paddock sedutor e viciante, dois acontecimentos viriam a ganhar destaque neste mundo de inesgotáveis sensações.

De ambos apenas me inteirei por relato alheio.

Brno e Estoril.

Em tempo de intervalo no palco principal que é o MotoGP, a atenção dividiu-se por dois estes locais onde para não variar se disputou ao milésimo o direito a subir a um pódio e agradecer à tribo o apoio na batalha triunfal.

De Brno trouxeram os ventos enorme boa nova.

Como se torna fácil compreender o doce sabor da vitória, olhando Pedro Fragoso, o Bala calibre 10, fazendo soar as trombetas anunciando a vitória de mais um português, escalando a sinuosa e seletiva trilha do sucesso e do reconhecimento no mundo da velocidade internacional.

Como é raro e duro de conquistar o momento em que de muitos se ergue um, onde a peneira milimétrica força e exige treinos perfeitos, trajetórias bem usadas, bem ousadas, quase únicas.

Como é desnecessário transcrever quanta velocidade, suor e lágrimas carrega aquele momento em que a taça se levanta dedicada a toda equipa que cá em baixo louva e compartilha aquele grito de supremacia.

Estoril, de uma curva ali tão perto trouxeram os ventos enorme má nova.

Como é difícil compreender o amargo momento de uma queda.

Num ápice o salto da pertença à multidão para a forçada solidão.

Como é impossível imaginar para onde voa um pássaro inesperadamente livre quando se separa da sua mota, atingindo a misteriosa velocidade que o leva para tão longe de nós.

Não há palavras que exprimam em toda a sua magnitude a sensação de ser o primeiro de entre um exército de tão estranhos e bravos lutadores.

Que da perícia e de um dom fazem a perfeição num circuito.

E não haverá palavras, talvez força também não, para se escrever a partida de alguém que aprendemos e seguimos como um dos nossos.

Fantástica adversária, dirão eles, que são desse mundo.

Ídolo, diremos nós que não dispensamos seguir-vos.

Porque neste espaço de simples palavras, se cruzarão tantos dos que fazem parte destes dois mundos que se completam, deixa-me agitar uma última vez a bandeira de xadrez e em nome de todos dizer-te:

Obrigado por tanto que connosco dividiste Filipa Gomes.

 

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