11/12/19
 
 
Manuel J. Guerreiro 29/07/2019
Manuel J. Guerreiro

opinião@ionline.pt

Um ministro politicamente degolado

E é assim, desta forma descaradamente ultrajante com que somos tratados diariamente pelo nosso Governo num acto de insulto contínuo à nossa inteligência!

1 - O Governo decide avançar com um programa da Protecção Civil - tutelada pelo MAI - a que denomina "Aldeia Segura" e que tem como objectivo a distribuição pelos habitantes de um vasto conjunto de aldeias de um kit de protecção pessoal em caso de incêndios, composto, entre outros artigos, por umas golas anti-fumo cujo custo de 350 mil euros assegurado pelo Estado Português, terá ficado a cargo da Protecção Civil. 

2 - A escolha do fornecedor destas golas - depois de aberto um suposto concurso para o efeito, ao que tudo indica, cheio de vícios não sanados e, porquanto, bastante duvidoso - recaiu sobre a empresa FOXTROT AVENTURA (nome bastante sugestivo) que, pasme-se:
a) Foi criada dois meses após o lançamento desse mesmo programa "Aldeia Segura". 
b) Pertencente a um indivíduo que nada mais, nada menos, é marido de uma autarca eleita pelo mesmo partido político do Governo.

3 - No caderno de encargos, segundo declarações públicas do fornecedor, a Protecção Civil, negligentemente, não terá assegurado o tipo de tecido adequado para as referidas golas anti-fumo. Apenas tendo manifestado preocupação com prazo de entrega e respectivo preço a pagar, optando pela solução mais barata.

4 - As golas foram assim produzidas com um tecido que simplesmente é inflamável não sendo por óbvias razões adequado ao que se destinava.

5 - Num rápido estudo comparado de mercado, conclui-se ainda que o custo unitário de cada gola pago pelo Estado à FOXTROT AVENTURA foi o dobro do que praticam outras empresas do ramo há muito mais tempo a operar no mercado, dando desde logo maiores garantias do que a escolhida. 

6 - Após divulgação desta informação nos meios de comunicação social, o Ministro da Administração Interna, ao ser confrontado pelos jornalistas com o teor da mesma, resolveu inicialmente refutar quaisquer declarações substantivas sobre o assunto. Acabando por ceder posteriormente e proferir umas declarações absolutamente desconcertantes. Designadamente:
a) Desvalorizando, por um lado, a questão do material inflamável de que é feita a gola, não lhe atribuindo qualquer importância por ser um mero detalhe naquilo que considera verdadeiramente importante. O programa da Protecção Civil em si mesmo considerado. 
b) Acusando, por outro lado, os jornais e a comunicação social de serem irresponsáveis e alarmistas, chegando mesmo ao cúmulo de se socorrer, em nítido desespero argumentativo, de uma retórica delirante, ao estabelecer uma absurda comparação do caso concreto das golas inflamáveis com os microfones dos jornalistas serem também material inflamável... 

7 - Como se tudo isto não fosse já mais do que suficientemente péssimo, percebendo o Governo que o seu Ministro da Administração Interna estava há já demasiado tempo debaixo dos holofotes revelando uma preocupante desorientação, resolve então mudar de estratégia argumentativa e de comunicação, encarregando uma assalariada do Estado, especificamente, da Protecção Civil de tratar publicamente do assunto. O que, de resto, o fez ao anunciar que todo este caso não passava de um “equívoco”. Na verdade, segundo as declarações desta prestável funcionária pública, "as golas não são para uso em caso de incêndio. São meramente uma forma de alerta para o perigo".

8 - Ficou assim o país inteiro esclarecido quanto ao objectivo real do investimento feito pelo Estado nestas golas e kits entregues às populações e qual o âmbito do programa "Aldeias Seguras", i.e., tratando-se, a final, as (mal) ditas golas de um simples material de merchandising promocional no âmbito da operação de marketing político da acção do Governo que é este programa da Protecção Civil denominado "Aldeias Seguras".  

9 - Entretanto, bastaram 24 horas para que o prazo de validade desta última versão "kitada" dos factos fosse ultrapassado, ao ser revelado pela comunicação social que, afinal, terá sido o Governo e o MAI através da acção directa do Gabinete do Secretário de Estado da Administração Interna que coordenou a compra dos famigerados kits e golas, tendo apenas o pagamento ficado a cargo da Protecção Civil. 

10 - Perante isto, eis que de repente o MAI resolve dar notícia que abriu um inquérito urgente, apesar do visado Secretário de Estado ter de imediato negado qualquer envolvimento nesta matéria, devolvendo todas as responsabilidades à Protecção Civil que, como sobejamente sabemos, é tutelada pelo mesmo Ministério da Administração Interna…

11 - Novo dia, nova informação sobre o tema na comunicação social, envolvendo desta vez, o adjunto do Secretário de Estado como o responsável pela escolha do material das 70 mil golas produzidas e do respectivo fornecedor, culminando no seu próprio pedido de exoneração de funções no Governo. 

E é assim, desta forma descaradamente ultrajante com que somos tratados diariamente pelo nosso Governo num acto de insulto contínuo à nossa inteligência!

Caro(a) leitor(a), em resultado de toda esta situação trapalhona que tentei com rigor descrever de forma cronológica, tendo por base todas as declarações e informações noticiadas, convido-o(a) a fazer um mero exercício hipotético quanto à indignação geral dos Portugueses, à pressão jornalística e política das oposições partidárias na exigência de explicações, responsabilidades e inevitáveis consequências a retirar pelo Governo, e que consiste no seguinte: 
- Fechar os olhos por breves instantes e, em consciência crítica, imaginar que o Governo, este mesmo Governo, tinha como Primeiro-Ministro qualquer um dos dois Pedros - Passos Coelho ou Santana Lopes.
- Abrir os olhos e simplesmente reflectir sobre a conclusão daí retirada

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