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Alex Francis. “Por vezes sentes-te enamorado de uma vivência e queres criar algo”

Alex Francis. “Por vezes sentes-te enamorado de uma vivência e queres criar algo”

Maria Moreira Rato 29/07/2019 12:11

O irmão mais velho de James Bay quer colocar a cidade de Hitchin no mapa com a sua fusão emotiva de rock e soul.

Entre trabalhar num supermercado e ser o opening act de artistas como os Stereophonics ou Alanis Morissette, fez um pouco de tudo para traçar o seu caminho no universo da primeira arte. Irmão de James Bay, de quem tem apenas um ano de diferença - e com quem discute somente quando o assunto é futebol -, pretende que o público o aclame pelas suas composições cheias de sentimento e não pelas conexões familiares. Se Hitchin, a pequena cidade onde nasceu há 30 anos, é conhecida pelo seu cariz mercantil, ainda espera colocá-la no mapa por lá ter nascido e crescido um artista cuja adrenalina é inquestionavelmente a mesma de cada vez que sobe a um palco. Durante uma curta interrupção nas lides das digressões, esteve à conversa com o i para deixar claro que a “realidade” e os “sentimentos verdadeiros” são sempre transpostos para as suas criações. A soul, o pop e o rock uniram-se e deste casamento nasceu Alex Francis.

Nasceu em Hitchin, uma pequena cidade mercantil em Hertfordshire. Como foi crescer num meio mais pequeno tendo ambições artísticas?

Assim que tive o mais pequeno lampejo de que queria sair de casa e tocar percebi que na minha cidade existiam variados sítios onde podia fazê-lo. Felizmente, o panorama musical sempre foi vibrante e diverso em Hitchin, fosse num bar ou num local mais dedicado a este tipo de eventos. Sinto-me extremamente grato por todos os proprietários de estabelecimentos que não se importaram de me receber e me viram fazer muito barulho nos primeiros dias!

Brighton é o maior centro cultural do sudoeste inglês. Quando decidiu que seria também o lugar onde daria os primeiros passos na música?

Acima de tudo, é uma cidade incrivelmente cultural, com muita personalidade própria e, simultaneamente, bastante atrativa para quem tem os mais diversos estilos de vida: é isso que me cativa mais! Foi o cenário perfeito para que começasse a explorar colaborações fora da familiaridade da minha cidade natal e serviu também para consolidar o meu caminho mais sério na indústria.

Durante o ensino secundário, quando frequentava a Hitchin Boys’ School, fez parte de uma banda intitulada Shakey Jake. Integrar um grupo, ainda que de uma forma menos séria, ajudou-o a perceber os meandros do meio criativo?

Os Shakey Jake foram um acidente porque nunca tivemos objetivos definidos para além de tocar na nossa área. Em retrospetiva, fico satisfeito por tê-lo feito na medida em que tínhamos de experienciar todo um leque de coisas. Do ponto de vista da composição, a banda ajudou-me a ganhar confiança ao criar e mostrar ao público o meu material ao invés de colaborar com outros colegas de grupos que já havia integrado. Foi a primeira vez que estava a trazer músicas a uma banda, e não a escrevê-las com uma.

Estudou no British & Irish Modern Music Institute (BIMM), uma das maiores escolas de música da Europa. Adquiriu uma formação enriquecedora que lhe deu asas para voar?

Em termos técnicos, aprendi conceitos muito valiosos. No BIMM comecei a apreciar a música enquanto negócio e compreendi as complexidades que envolviam progredir enquanto profissional. Conheci artistas fabulosos e construí amizades que, acredito, durarão para sempre. No fundo, sei que aproveitei todas as oportunidades enquanto lá estive. 

Trabalhou no Waitrose, uma cadeia de supermercados conhecida pela venda de produtos orgânicos. De que forma experienciar outras vivências fora do mundo da música o moldou?

[Risos] Absolutamente! O Waitrose apregoa o trabalho em equipa como uma das caraterísticas principais do negócio, ou seja, assumo que trabalhar lá enriqueceu a minha perceção daquilo que é unir esforços e continuo a aplicá-lo no meu quotidiano. No entanto, por mais que tenha gostado dessa experiência, acho que não voltarei tão depressa!

Em 2016 ganhou o apoio da revista Time Out através do programa Rising Stars. Ser descrito como uma das “estrelas de amanhã” contribuiu para que percebesse que estava a trilhar o caminho certo?

Contar com esse apoio foi maravilhoso. Existe um elemento denominado grass roots [em português, tem que ver com o nível mais básico de uma atividade ou organização] através do qual temos de promover a nossa música e isso ajudou-me a procurar ouvintes fiéis que continuassem a acompanhar a minha evolução. 

Já atuou em variados festivais, como o British Summer Time, o Isle Of Wight e o Standon Calling. Prefere eventos maiores ou mais intimistas?

Adoro as diferenças que podemos traçar entre concertos mais intimistas e ao ar livre. Nenhum espetáculo é igual ao outro, mesmo que estejamos sempre a atuar em locais similares. Já tive experiências inesquecíveis com uma audiência de 30 pessoas num clube minúsculo e também numa arena com uma plateia de 3 mil. A adrenalina sentida quando me expresso e atuo nunca muda!

“Wounds may heal but scars may show” - esta é uma das passagens de Hold On, uma colaboração com Melanie C, lançada há dois anos. Oculta cicatrizes por ser uma figura pública?

Quanto mais cimentamos a nossa presença enquanto figuras públicas, mais interesse atraímos, mais detalhes as pessoas querem saber sobre nós. Decidi que as minhas experiências influenciariam as mensagens que transmito nas minhas músicas. Contudo, nem sempre são somente minhas. Sou afortunado por ter amigos e familiares incríveis que me deixam mergulhar nas suas emoções. Por vezes, simplesmente sentes-te enamorado de uma vivência e queres criar algo a partir da mesma: basta esperar que o resultado final seja o esperado!

O mediatismo tem pontos positivos e negativos. Contudo, um ano depois de trabalhar com a antiga Spice Girl, lançou o EP These Words. Aos olhos dos críticos, é um projeto “repleto de alma”. Para si, o que significa?

Foi o primeiro EP [produção demasiado curta para ser considerada um álbum mas demasiado longa para ser caracterizada como single] que lancei enquanto artista, a solo, e terá sempre um lugar especial no meu coração. O processo consistiu em muita diversão porque nunca pensei naquilo que estava a fazer: gravei tudo aquilo que me parecia certo no momento, e o desfecho é natural, quase intocado na pós-produção. Queria que as pessoas o ouvissem e sentissem que era orgânico, como se fosse um sketch de canções que estava a desenvolver com a sensação de que ainda havia muito por acontecer. Ainda bem que se sente a minha alma porque o meu objetivo primordial é transportar a realidade, sentimentos verdadeiros, para as minhas criações.

Alguns meses depois, com o EP A Stronger Love, mostrou a sua sonoridade rock. Como foi gravar, em estúdio, com a banda com quem toca ao vivo?

Foi emocionante voltar a reunir a banda para gravar este EP. O nosso som era maioritariamente baseado nos concertos que dávamos, uma obra que consistia naquilo que vivíamos enquanto tocávamos, e envolvemo-nos de um modo diferente. Também tenho de dizer que as músicas deste eram novas, isto é, a banda teve de entender que o meu som estava a modificar-se e foi positivo perceber que, no geral, estava a crescer com a contribuição criativa dos meus músicos.

No ano passado abriu os concertos da leg europeia da tour dos Stereophonics em países como França, Alemanha ou Espanha. Sentiu falta de tocar em nome próprio?

De modo nenhum. Estava feliz por tocar para caras novas todas as noites! Já abri os concertos de vários artistas conhecidos no Reino Unido e na Europa, mas jamais esquecerei o tempo que passei na estrada com os Stereophonics.

Free e Whatever Happened são os últimos singles que divulgou. No primeiro transmite uma mensagem de esperança e resiliência, enquanto no segundo reflete acerca de um amor que desvanece progressivamente. Quais são as suas maiores inspirações em termos de composição musical para obter letras cruas e genuínas?

Mais frequentemente do que aquilo que as pessoas possam imaginar, há coisas aleatórias que me inspiram. Se tivesse de escolher temas comuns diria o amor, a perda, a felicidade, o prazer, a tristeza, a fome, a luxúria, o desejo… Há muitos outros detalhes, mas estas temáticas surgem constantemente na minha mente!

Se pudesse colaborar com alguém, quem escolheria? Porquê?

Sonho com tantas colaborações que escolher somente uma torna-se uma luta interior, mas diria o Ray LaMontagne  [cantor e compositor norte-americano de música folk]. Adoraria sentar-me com ele, escrever e perceber o seu processo, ou estar simplesmente presente no processo que ele desenvolve enquanto compõe! As músicas dele são profundas e gostaria de perceber quão profundamente ele tem de explorar - tanto o seu interior como aquilo que o rodeia - para obter letras tão fortes.

“Não compito com ninguém. O meu irmão está muito orgulhoso de mim, assim como estou dele”, referiu em entrevista ao jornal The Comet. Como descreveria a vossa relação?

Tensa no campo de futebol, fácil na vida! Sou um sortudo por ter um irmão que me apoia tanto.

Qual é o seu maior objetivo? 

Passar o resto da minha vida a fazer aquilo que amo e ser capaz de me sustentar através disso.

O seu próximo concerto será a 14 de setembro, em Hamburgo, na Alemanha. O que espera do regresso aos palcos?

Regressar à Alemanha equivale a nervosismo misturado com ansiedade, porque nunca me apresentei em nome próprio. Já estou familiarizado com alguns lugares e, por isso, espero encontrar rostos conhecidos e dar a conhecer a minha nova música.

Gostaria de tocar em Portugal? Se sim, há algum local que tenha em mente?

O meu guitarrista viveu em Lisboa durante dez anos e oiço falar muito na cidade. Apontaria para o NOS Alive, não só porque é reconhecido internacionalmente, mas porque seria uma excelente plataforma de lançamento para mim no país.

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