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Fête des Vignerons. O festival que só acontece uma vez de geração em geração

Fête des Vignerons. O festival que só acontece uma vez de geração em geração

Joana Marques Alves 24/07/2019 22:16

Esta festa de homenagem aos produtores de vinho – considerada, desde 2016, Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO – começou no passado dia 18 e decorre até 11 de agosto, em Vevey, na Suíça.

Mais do que o Alive, Glastonbury ou Coachella, a Fête des Vignerons é o festival mais aguardado da década. E não, não é um festival musical, mas sim de vinhos. Nunca ouviu falar? É normal, se calhar ainda não era nascido quando se deu a última edição.

A Fête des Vignerons – que, traduzido à letra, significa festa dos produtores de vinhos – decorre na cidade suíça de Vevey, sede mundial da gigante de alimentos Nestlé e terra-mãe do chocolate de leite, inventado em 1875. Mas este festival, como o nome indica, nada tem a ver com chocolate. O objetivo é enaltecer o que de melhor se produz nas regiões vinícolas de Chablais vaudois e Lavaux. A festa arrancou no passado dia 18 de julho e prolonga-se até 11 de agosto, com dezenas de atividades junto ao Lago de Genebra.

Mas a parte mais especial deste festival não é o que oferece, mas sim a forma como está organizado. É que apesar de ter surgido no século XVIII, a festa só foi organizada 11 vezes. Está neste momento a decorrer a 12.ª edição. A primeira vez que a irmandade dos produtores de vinhos – cuja existência é ainda mais antiga do que o festival – organizou esta celebração foi em 1797. Os membros deste grupo quiseram homenagear os homens que mais deram de si durante a produção. Para isso, organizaram uma grande festa, com comida e bebida, cujo momento alto era a coroação do enólogo mais bem-sucedido naquela temporada. Esta tradição ainda hoje se mantém e é um dos momentos mais esperados neste festival.

Com a independência do Cantão de Vaud, em 1798, e as guerras napoleónicas, a festa ficou em stand-by. Foram precisos 22 anos para, em 1819, voltar a ser organizada uma celebração em honra dos produtores de vinho daquela zona. Assim começou a tradição de organizar esta festividade com um grande intervalo de tempo – em alguns casos bastou uma paragem de 14 anos entre celebrações, noutras alturas foram precisos esperar 28 anos para voltar a festejar. Normalmente, a paragem dura entre 20 e 25 anos.

E todos os anos há coisas novas: sempre com o foco nos produtores de vinho e nas belas vinhas daquela região, “os trabalhos artísticos do século XIX, altura em que os populares se contentavam com um arranjo de palavras acompanhado por uma melodia, foram evoluindo e transformaram-se em grandes peças, sempre originais”, descreve a organização no site do evento.

Por isso, e também por causa do seu lado histórico, a festa foi ganhando cada vez mais importância artística, tornando-se uma tradição daquela zona da suíça. De tal forma que, em 2016, foi reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Foi a primeira tradição suíça a ser incluída nesta lista. Atualmente, a Suíça tem três tradições reconhecidas pela UNESCO: este festival, o Carnaval de Basileia e a arte de fazer paredes de pedra solta. Portugal tem sete tradições reconhecidas: a dieta mediterrânica, a falcoaria, o fado, o cante alentejano, os bonecos de Estremoz, o fabrico de chocalhos e da louça preta de Bisalhães.

Grande espetáculo Desde 1999 que Vevey ansiava por voltar a receber este festival. Passados 20 anos, tudo foi pensado ao pormenor e muito dinheiro foi investido para que nada falhasse. A festa arrancou no passado dia 18 com um dos momentos mais esperados: a cerimónia da coroação. Numa arena com cerca de 20 mil lugares, construída de propósito para esta ocasião, o público assistiu à distinção do melhor produtor de vinho da região.

O primeiro dia do festival ficou também marcado pela estreia de uma grande performance teatral, idealizada por Daniele Finzi Pasca, antigo diretor do Cirque du Soleil e produtor das cerimónias de encerramento dos Jogos de Inverno de Turim e Sochi, em 2006 e 2014, respetivamente. O espetáculo conta com mais de 5500 atores e atrizes daquela zona, 900 cantores e 268 músicos. O objetivo é representar “um ano da vida de quem trabalha nas vinhas” de uma forma “mágica, grandiosa, dinâmica e poética”, descreve a organização.

Para os que não conseguiram estar presentes na cerimónia de coroação, o espetáculo irá a cena mais 19 vezes ao longo de três semanas. A última performance decorrerá no último dia do festival, 11 de agosto. O preço dos bilhetes varia entre os 36,5 euros – zona com visibilidade muito reduzida – e os 328 euros – zona premium.

Muita bebida, mas também comida Até dia 11 de agosto, o festival oferece muitas outras coisas: espetáculos de animação, música e dança. Mas, claro, a parte mais importante é a degustação de vinhos. Estarão presentes representantes de 15 adegas locais com os melhores vinhos que ali se produzem. Além disso, serão revelados vinhos produzidos exclusivamente para este festival. Para acompanhar, existem cerca de 50 pontos de venda de comida, que dão primazia à cozinha helvética (carnes frias, salsichas e, principalmente, queijos).

Para quem nasceu no século XXI, esta é a primeira vez que tem oportunidade de participar no festival e participar numa tradição tão antiga. Se não o fizer, terá de esperar (mais ou menos) 20 anos para voltar a ter essa hipótese.

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