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Ana Martins Marques. “A espera é a flor que eu consigo”

Ana Martins Marques. “A espera é a flor que eu consigo”

Rodrigo Valente 24/07/2019 12:09

Com Linha de rebentação, é-nos dada a hipótese de descobrir bem a tempo uma poeta brasileira que não traz nada de novo, antes insiste na hospitalidade desse rito caído em desuso: o de servir chá aos grandes fantasmas da poesia.

Waly Salomão tem um apontamento de ironia magistral na sua “Oração aos moços”, brincando com o célebre discurso proferido por Ruy Barbosa, em 1914, frente ao senado brasileiro. “De tanto ver triunfar as nulidades... nutro grandes esperanças”, escreve o poeta. Arrastando as reticências por uns versos, torce a seu favor um vento que, na largada, lança o barco em direcção às rochas. Pela década de 1970, quanto tudo era mais difícil, e a poesia lidava com um sério bloqueio, soube valer-se de táticas de guerrilha, jogando com a surpresa, atacando e dispersando antes que o inimigo se desse conta de que não estava a sonhar. Uns estalidos de língua e um cheiro a pólvora bastavam para deixar o leitor na dúvida, a apalpar-se sem saber se teria sido ferido. Todos os sucessos resultavam de um volte-face. Entre o sublime e a oportunidade de dar um golpe inesperado, torcer a faca, era essa a opção, porque as nulidades pareciam ter conseguido cauterizar a linha, proibindo o inesperado. O génio literário era até uma questão secundária. Menos do que digerir as coisas, o importante era morder e rasgar as ideias feitas. Hoje, todas as grandes esperanças parecem frívolas. Apesar de minoritária, num momento em que a própria identidade já se concebe para ser potável, boa para o fluxo das redes sociais, mais até do que presa a devaneios narcísicos, a poesia não arrisca um passo sem consultar as tabelas do mediatismo. O fenómeno da “poetagem”, que Ana Cristina César deplorava numa carta a uma amiga, no verão de 1976, é-nos hoje bastante familiar. Milhentos saraus e lançamentos, leituras, debates e homenagens com cobertura em direto ou quase, mas o que antes podia ocorrer de forma privada, hoje busca adaptar-se a um modelo aberto a um público que sempre falta, e assim denuncia esta charada. Fica só o recreio de “toda aquela mesma e velha e decadente turma (...). Eles iam pro microfone e recitavam ou liam qualquer coisa para eles mesmos, sempre pra eles mesmos...”

Com tudo isto, estes tremores de uma coisa que, se de perto até parece mexer, dando uns passos atrás, se percebe que não está senão a estrebuchar, o bloqueio hoje é conseguido pelo berreiro promocionante, pelo vazio crítico, e, tal como dantes, o poeta poderia ainda reclamar que “ninguém ampara o cavaleiro/ do mundo delirante”. Mas é neste ambiente que uma poeta como Ana Martins Marques se demarca traçando um percurso sempre marcado pela mais legítima das dívidas ao tempo circular que é o da grande poesia. Nascida em 1977, a poeta mineira que se estreou em 2009 com uma recolha de mais de uma centena de poemas com o título A vida submarina distinguiu-se desde logo por uma clareza expressiva que não se abastece nos armazéns do estardalhaço. Sem fabricar qualquer espécie de ruptura, ela assume-se uma leitora algo diletante, que dialoga com vários autores - entre eles, Drummond, Manuel Bandeira e, claro, Ana Cristina César -, e disse numa entrevista que gosta “da ideia de uma escrita que deixa ver os rastros da leitura”.

A busca da originalidade muitas vezes inquina uma obra, dando lugar a uma colheita em que os tão fulgurantes quanto raros achados não chegam a ser animadores diante dos tantos escolhos de foguetões explodidos ao tentar lançar-se além da nossa atmosfera. Depois do livro de estreia, AMM publicou o livro seguinte já na mais importante editora brasileira, a Companhia das Letras. Tal como o anterior, Da arte das armadilhas (2011) é um título bem sugestivo de uma atitude poética que, à primeira vista, pode parecer pouco audaz no que toca aos recursos de que se serve, mas se não há nada nesta poesia que seja novo, ela não demora a atrair-nos, a seduzir-nos “pelo que é dentro/ ou será, quando se abra”. E se tantas vezes é difícil dizer ao certo qual foi o verso que nos derrubou, não é raro chegar ao fim e o silêncio que fica depois dos seus poemas ser o que mais nos dá vontade de citar.

Em abril, foi publicado entre nós uma tão generosa quanto marcante antologia de Ana Martins Marques, isto depois de alguns poemas seus terem aparecido já na revista Telhados de Vidro. Além dos dois livros já referidos, a poeta publicou O livro das semelhanças, em 2015, e ainda dois livros em colaboração e diálogo - o primeiro, Duas janelas (2016), com Marcos Siscar, e o segundo, Como se fosse a casa (2017), com Eduardo Jorge. Com selo da Douda Correria, a selecção dos poemas é de Raquel Nobre Guerra, uma poeta nos antípodas desta sobriedade que, cantando baixo, nos comove, coisa que, de resto, fica patente na nota de introdução da antologia, uma “coisa em forma de assim”, que, supostamente, resultou de uma troca de correspondência com a autora. Se aqui e ali se põe a “namoriscar” alguns versos de AMM, a nota é um bom exemplo de um vápido exercício de zapping, a tentar esfalfar a parabólica na esperança de provocar no leitor uma arritmia, e que este, por sua vez, se convença que há-de ser por isso que “os poetas são perigosos”.

Linha de rebentação lê-se encostando um copo na página. E se nem a voz nem o tom logo nos deixam em sentido, à medida que o ouvido se acostuma e distingue o seu contorno sonoro, tão seguro na exploração do registro informal da língua, como notou Marcos Siscar numa crítica, repassando “os temas cotidianos, certa ideia de despojamento retórico, a modéstia daquele que “não sabe” ser poeta”, esta estratégia da simplicidade vai desarmar-nos e logo estaremos no ponto em que o ouvido regista as variações mais subtis. Aí sim, “na soledade do silêncio”, os ruídos como que nascem e parecem de bichos desconhecidos, nascidos sem lei nem forma, pássaros fantasmas, pássaros noturnos, anunciadores de uma vida livre. Estou a citar Murilo Mendes, de quem AMM, nos melhores momentos, parece ter herdado uma clareza e exactidão que escapa a quem não está nessa turbulência fabulosamente contida do caçador antes do salto mortífero sobre a presa. Murilo acaba o poema lembrando que estes pássaros “cujo segredo ao nosso ouvido escapa”, o que desvelam é “uma vida de ignota relação”.

Ana Martins Marques lança a linha sem lei nem forma, numa anarquia calmosa, um ritmo que investiga servindo-se do alcance de imagens nada pomposas, num nervosismo doce de pássaro. Não há aqui grandes arroubos líricos, nada daquela pose oracular que exibem essas pitonisas e cartomantes de feira. Se se percebe a influência de Ana Cristina César, também parece que AMM foi ao velório e superou a perda. Sem aquela agonia tão poderosa e bela de Ana C., a poeta mineira parece a caminho de dominar uma pontaria da flecha que se faz flor a meio do voo, , lembrando Eunice de Souza, ou aquela Anna de “Mulheres na pintura holandesa”, a “que escreve poemas/ e espera que os caroços de abacate/ germinem na cozinha”. “A voz dela é farinha de aveia e mel”, acrescenta a poeta indiana. 

É pela sequência, pelo desassombro que estes poemas adquirem uma inusitada veemência, nascendo como composições aparentemente ingénuas, vão-se tornando mais graves, e às tantas, através desses “coágulos de instantes ou flashes de lembranças, registos de gestos e posturas, mínimas sagas ou retratos 3x4 de delírios instantâneos”, impõe-se um desastre feliz, mesmo que triste. Um desastre que, pouco antes de se dar, o vimos cheio de cuidados, preparando tudo como uma viúva que se apaixonasse pela primeira vez. É esse o recurso: “dirigir-se aos poucos, em pequenas doses”, numa detonação produzida no meio-tom.

Veja-se como o poema “O que eu sei” desenha um ponto de ordem bastante deceptivo começando por avisar “Sei poucas coisas sei que ler/ é uma coreografia/ que concentrar-se é distrair-se (…) sei que esquecer é musical (…) sei que as forças do convívio sobrevivem no tempo/ apagando-se porém/ sei que a desistência resiste/ que esperar é violento/ sei que a intimidade é o nome que se dá/ a uma infinita distância/ sei poucas coisas”.

Há aqui um génio discreto e que fica contente por pôr de novo a mesa, “preparar o chá para os fantasmas”, um génio que lhe vem de pôr o detalhe na mesa de operações, abri-lo, apalpar-lhe os órgãos, saber das suas funções vitais. Daí nasce uma especialização nessas importâncias mudas, nas atitudes de um heroísmo discreto que nos livros de História são registadas numa linha só, mas que ecoam profundamente. Daí o desdobramento da espera, daí que AMM contraponha à aventurosa épica uma “odisseia da espera”. E para mostrá-lo, do ciclo “Penélope”, que traça ressonâncias antigas num tão frugal encadeamento, citemos o quinto poema: “A viagem pela espera/ é sem retorno./ Quantas vezes a noite teceu/ a mortalha do dia,/ quantas vezes o dia/ desteceu sua mortalha? Quantas vezes ensaiei o retorno -/ o rito dos risos,/ espelho tenro, cabeços trançados, casa salgada, coração veloz?/ A espera é a flor que eu consigo./ Água do mar, vinho tinto - o mesmo copo.”

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