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23 de julho de 1954. O irritado capitão perdido no seu labirinto de sinaleiros e de claxons

23 de julho de 1954. O irritado capitão perdido no seu labirinto de sinaleiros e de claxons

Afonso de Melo 23/07/2019 18:53

Instalado na Praça da Batalha, metido no meio de uma terrível chinfrineira, Salgueiro Rego aproveitou para, de caneta em riste, desancar no trânsito do Porto e na forma como se transformara numa completa desorganização.

O homem tinha chegado ao Porto há três dias e já andava com a cabeça em água. O homem, vamos lá a ver... Um tudo-nada mais de respeito, se fazem o favor. Capitão. Sr. capitão Salgueiro Rego que, ainda por cima, já tinha ocupado o melindroso cargo de comandante da polícia de São Tomé e Príncipe. Ou seja, sabia do que falava. E falava do quê, concretamente? – pergunta o estimado e paciente leitor, também já à beirinha de perder a dita cuja, consciência, claro está, que a sua estima é imperdível. Pois, do trânsito, meu caro. Do trânsito. Do famoso trânsito da Invicta Cidade. Deixemos falar o capitão, perdido no seu labirinto, como o general do García Márquez: “Nunca vi uma desorganização tão bem desorganizada, nesse meio social, demonstrada em maior ou menor contacto que tenhamos com a polícia – principalmente os sinaleiros –, não se vendo os agentes daquela corporação ensinar e corrigir, na rua e em lugares públicos, defeitos e desmandos da parte de um povo que não nasce educado e ensinado e que vão dando péssimas impressões àqueles que nos visitam, não conseguindo sossegar os nervos com o barulho, transitar com relativa segurança e serem acolhidos com as mais elementares atenções e que no estrangeiro observei, não ainda há um ano, percorrendo de automóvel a Espanha, a França e a Itália!”

Não restam dúvidas que, ao publicar num diário nacional uma crítica deste teor e desta violência, o capitão Rego estava num daqueles estados de nervos de quem andava à beira de gritar, pelas ruas portuenses, com as mãos em redor do toutiço: “Não posso mais! Tirem-me daqui!”

É verdade que o Porto, naquele seu ar grave e sério, dum rosto de cantaria, que nos oculta o mistério dessa luz bela e sombria, como canta o meu querido amigo Rui Veloso, também sempre ocultou o mistério de um tráfego meio enlouquecido que nos fazia espantar, quando crianças, com a facilidade com que a malta largava as viaturas no meio das avenidas, criando lugares muito inventivos de estacionamento.

Por seu lado, o capitão moía um sentimento, e esse sentimento era de revolta. Linha a linha, descascava na polícia municipal com o à-vontadinha com que daria uma rabecada a um maçarico mal enjorcado a fazer figura triste na parada: “Se a polícia não tem uma adequada educação cívica e não tem uma suficiente preparação profissional de forma a estar cônscia do que anda a fazer publicamente, como há de ela educar e amparar o povo que, hoje, mais do que nunca, tem de dirigir e orientar?”

A pergunta pode vir a fazer algum sentido se nos debruçarmos bem sobre o seu conteúdo, mas revela que o capitão tinha muito pouca consideração pela civilidade do povo português e não se lhe ofereciam dúvidas de que era preciso pô-lo na linha. E, logo a seguir, tendo insistido na necessidade de a força policial conduzir devidamente o rebanho dos transeuntes, virava a sua atenção para os ases do volante: “O sinaleiro, postado na sua peanha, assiste impassível a um constante barulho, a um buzinar infernal à sua volta para chamar a sua atenção e dizer-lhe, naquele tom imperativo e mais ou menos estridente – aqui vou eu, deixa-me lá passar que tenho pressa! Para quê buzinar, se o sinaleiro não está a dormir!? Porque é que o volante se impõe a toda a circulação ali submetida ao critério do sinaleiro que não reprime aquela impertinência e, às vezes, ainda recebe, até, um cumprimento ou um sorriso amável!? E, como o peão não tem buzina, espera, espera, e se o sinaleiro não lhe dá passagem, rara não é a vez que tem de andar mais depressa – mesmo que não possa –, parar, recuar, afastar-se da sua faixa de terreno, que lhe é destinada, para dar passagem a um volante apressado, de buzina estridente, que quer passar primeiro e conta com a impunidade perante a impassível autoridade que nada viu”.

Chinfrineira! Confesso que o libelo acusatório do capitão Salgueiro Rego me fascinou. Ei-lo, de punho em riste, desancando a corporação e rasgando fardas com a ponta da caneta. Ainda por cima do alto de uma autoridade incontestável que ele próprio não deixava de invocar, para que não houvesse algum espertalhão com vontade de lhe puxar a perna: “Lutei desde a primeira hora para que esta Situação Política se fizesse; e, nos Comandos da Polícia, sempre desejoso de ver prestigiada a Corporação Policial que servi durante anos e publicando os meus trabalhos em jornais e revistas da especialidade”.

O capitão escrevia, portanto. Amiúde. Com uma agressividade militar que não escapava a ninguém. De repente, num parágrafo meio solto, insurgia-se com a festa do Natal do Sinaleiro. “Natal do Sinaleiro!? Não o mereceria também, talvez com mais forte razão, o ignorado guarda policial que, de noite, nos bairros escusos das cidades onde habitam os que fazem temer pelas suas ações perversas toda a população e que, durante as horas dedicadas ao sossego e ao repouso, esse homem, essa autoridade policial, afrontando todos os perigos, guarda a casa do cidadão pacífico que dorme tranquilo, confiando nele?”

Nunca tinha pensado nisso e chego quase a comover-me com o argumento. Não é que tenha nada de pessoal contra sinaleiros, sobretudo agora, que já desapareceram das paisagens citadinas, e até apreciava sobremaneira aquelas casquetes brancas de capacete com toque colonialista. Mas recordar-me de um guarda ao frio, em pleno inverno siberiano, velando pela segurança dos nossos sonhos profundos, por mais abjetos que sejam, é uma imagem pungente que tão cedo não se me apagará da memória.

O capitão Salgueiro Rego não passou, no Porto, dias fáceis, como se prova pelas afirmações supra. Instalado na messe dos oficiais na Praça da Batalha, a preço módico e com todas as atenções para com a família militar, avistava desgostoso a chinfrineira tremenda da Rua de Santa Catarina, filosofando sobre a utilidade do claxon e de como deveria servir apenas para casos esporádicos e concretos, sob regulamentação bem específica. “Havendo debaixo destas janelas da messe uma bombas de gasolina, para que é que o volante se põe ali a tocar para chamar o empregado que irá fornecer-lhe o combustível?” Não sei, de facto, responder à pergunta do capitão. Mas, solidário com ele, entendo que devia ser irritante, sobretudo à hora da sesta.

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