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Tromba Rija. Um exemplo na arte de bem servir

Tromba Rija. Um exemplo na arte de bem servir

Joana Marques Alves 23/07/2019 14:43

Era um dos nomes mais sonantes do país, mas acabou por ser associado à decadência com o fecho de três espaços. Os donos garantem que o restaurante está rijo e recomenda-se.

Foram três restaurantes fechados de uma só vez, uma mudança de instalações forçada e uma vida de muito trabalho. Agora, o Tromba Rija, um dos restaurantes mais famosos do país, está a ganhar uma nova vida, mas sempre com base nos valores familiares que sempre o caracterizaram.

Há mais de 60 anos, o Ti António e a Ti Rosária, como eram conhecidos, dedicavam as suas vidas àquilo que era conhecido como a venda da aldeia, um espaço onde tudo podia ser comprado. Esta venda tinha duas partes essenciais: o talho e a taverna, duas partes que viriam a ser essenciais para a criação do restaurante.

As arcas congeladoras eram ainda desconhecidas e a conservação da carne era feita na salgadeira, onde eram colocadas em primeiro lugar as carnes mais nobres do porco: presuntos, carne magra, carne entremeada e toucinhos. Era raro haver espaço para a cabeça do animal e, por isso, era preciso servi-la rapidamente. Por isso, o Ti António pediu à Ti Rosária para preparar uma feijoada com a dita.

O prato era colocado na taverna às quartas-feiras e rapidamente se tornou um fenómeno em Marrazes, Leiria. De tal forma que era comum ouvir a população dizer que ia comer “uma trombada” ou uma “tromba rija” à taverna, fazendo referência ao focinho do porco. Assim nasceu o nome do icónico restaurante.

Quando Elisabete, filha de António e Rosário, casou com Fernando, o casal decidiu passar o restaurante para a geração mais nova. E com mentes novas nascem novas ideias.

“Eu andei por todo o mundo em trabalho e isso influenciou muito o Tromba Rija – de certa forma, reformulei aquilo que era a restauração naquele tempo. Uma das dificuldades que sentia quando andava por fora era encontrar alguém que eu não conhecia e ter dificuldade em comunicar e estabelecer uma conversa. A única coisa que os donos dos espaços faziam era pôr as azeitonas, o queijo e o pão na mesa e chegávamos a estar meia hora ou uma hora à espera da comida, sem haver grande interação. Eu não queria ter um restaurante em Portugal que fosse assim”, conta Fernando Real ao i.

Por isso, em meados dos anos 70, com a ajuda de Elisabete, Fernando criou um novo conceito no restaurante da família da mulher: a comida em bruto. “Colocávamos uma tábua na mesa, com presunto, queijo, enchidos, todos por cortar. De propósito, para as pessoas se movimentarem”, recorda o responsável do restaurante.

Numa segunda fase, quando já não andava tanto por fora, Fernando decidiu voltar a inovar: “Em meados dos anos 80 comecei a receber as pessoas, a conversar com elas e a encaminhá-las para uma espécie de buffet, uma sala com uma mesa repleta de comida onde as pessoas iam comendo e se iam conhecendo. O meu trabalho era dizer-lhes o que havia para comer, elas escolhiam e, quando a comida estivesse pronta, eu encaminhava-as para a mesa. Até aí, iam petiscando e conversando. Isto era algo anormal naquela altura”, recorda.

O ambiente familiar e a comida caseira foram os trunfos de Fernando e Elisabete, que fizeram do Tromba Rija um lugar de paragem obrigatória. Várias figuras do panorama político e artístico paravam no restaurante com regularidade: “Passou por aqui tanta gente conhecida… Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa, figuras de Governos estrangeiros, nomeadamente o alemão. Mário Soares era uma presença assídua: quando andava pelo país passava pela zona, vinha sempre aqui comer a sua morcela e os seus grelos”, recorda Fernando.

Com o sucesso veio também a vontade de expandir. O casal começou a sonhar mais alto e decidiu, no final da década de 90, abrir três novos espaços: um em Lisboa, um no Porto e outro em Viana do Castelo. Os espaços estiveram pouco tempo abertos.

“As coisas não correram muito bem. Este é um restaurante em que as pessoas são quase como a nossa família. Sou filho único, a minha mulher é filha única, criámos quatro crianças mas não temos filhos. Por isso, de certo modo vemos os clientes como uma família, não temos mais ninguém. E, nos outros restaurantes, as pessoas não estavam a ser tratadas assim. A comida não estava a correr bem e o contacto com os clientes também não. Além disso, isto aconteceu na altura em que começou a crise, mais ou menos. Perante estes fatores, decidimos fechar tudo antes que tivéssemos mais problemas”, explicou Fernando ao i.

No ano passado surgiu mais um problema: o edifício em Marrazes precisava de obras profundas. “O edifício era muito antigo e tinha coisas que já não eram deste tempo, do tempo da ASAE [Autoridade de Segurança Alimentar e Económica]. Estávamos a ficar mais velhos e fazer obras no edifício era mais complicado do que se pensava. Além disso, a intervenção iria descaracterizar o espaço, o seu estilo caseiro, que atraía tanta gente”, disse o responsável.

Por isso, o Tromba Rija mudou-se para a Quinta do Fidalgo, na Batalha. “Ao início houve dificuldades, mas já estamos a voltar à normalidade. Há muita gente que não sabe que mudámos para este sítio, mas aos poucos estamos a começar a recuperar a clientela”, disse Fernando, garantindo que o restaurante não perdeu o rasto às suas raízes: comida boa e caseira, hospitalidade acima de tudo e um ambiente familiar.

Agora, os rapazes que Elisabete e Fernando criaram estão a começar a pegar no negócio. O casal já passou os 70 anos e quer arrumar o avental de vez. “Se eles quiserem continuar, há ali pano para mangas para crescer. Era uma pena o restaurante morrer connosco”, diz Fernando. Uma coisa é certa: a boa comida e a arte de bem receber terão de continuar a ser as principais caraterísticas do Tromba Rija.

 

Restaurante Tromba Rija EN1, n.º 59, Quinta do Fidalgo, Batalha

Encerrado aos domingos ao jantar e às segundas-feiras

Telefone: 244 855 072

 

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