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Colapso. Tenham medo

Colapso. Tenham medo

Dreamstime João Oliveira Duarte 23/07/2019 12:45

Recentemente editado pela Letra Livre, o livro do professor espanhol Carlos Taibo traça um cenário negro quanto ao nosso futuro. Partindo de dados conhecidos, as implicações do impacto do homem no ambiente criaram uma nova modalidade de luta de classes a nível global.

A ecologia parece ter vindo para ficar. Não há dia em que não sejamos confrontados com ecos das alterações climáticas – uma espécie que desapareceu, o deserto que avançou, uns hectares de floresta que se eclipsaram, um ou outro fenómeno climatérico extremo –, não há dia em que não haja um estudo que não venha alterar a data em que o planeta vai aquecer demais, não há dia em que não sejamos alertados para as consequências do aquecimento global, não há dia em que não nos venham dizer que já é tarde demais. A este fenómeno noticioso podemos juntar um verdadeiro género literário que tem vindo a aumentar progressivamente. De facto, quem faça a experiência de entrar em certas livrarias percebe que o espaço ocupado por livros que tomam por objeto o ambiente e suas derivações – desde os emigrantes climáticos aos fogos, esse antigo receio que parece estar de volta, passando por todo o género de cenários catastróficos – começa a ser de tal forma grande que ameaça ocupar, em breve, todo o espaço disponível. Como o Hamlet de Paul Valéry, encontramo-nos hoje na varanda de Elsinore a observar milhões de fantasmas – com a diferença de que estes, para nós, são presentes ou futuros.

Com tradução de Pedro Morais, o livro recentemente editado de Carlos Taibo, professor de ciência política na Universidade Autónoma de Madrid – Colapso. Capitalismo terminal, transição ecossocial, ecofascismo, da Letra Livre – insere-se de direito numa já tradicional literatura de tom catastrofista, com a diferença de que, para Taibo, não é apenas o futuro, mas também o nosso presente, que é já uma catástrofe que não apresenta grandes saídas. E basta, de facto, elencar aquilo que todos os dias entra em casa de todas as formas possíveis – prova de que não é assim tão fácil transformar informação em sentido: subida geral dos níveis do mar, degelos dos polos, ataques à biodiversidade, progressiva erosão dos solos, desertificação dos mesmos, aumento das secas e das ondas de calor, extremar das condições climatéricas (os locais secos, cada vez mais secos, os húmidos, cada vez mais húmidos), aumento de fenómenos como tornados e furacões, esgotamento das matérias-primas energéticas (95% do transporte mundial, segundo nos informa, depende do petróleo), problemas demográficos, aumento da fome (“cerca de 900 milhões de seres humanos padecem, entretanto, de problemas de fome crónica”), um fenómeno sem precedentes de imigração, aumento previsível de guerras pelo controlo “das jazidas, e das condutas de transporte, de petróleo e de gás natural” e, para compor um cenário cada vez mais negro, a água.

“Segundo as Nações Unidas, em 2025, nada menos do que 1800 milhões de pessoas viverão em regiões que padecerão de uma absoluta escassez de água, enquanto dois terços da população mundial terão de enfrentar problemas a esse respeito. O que sucede nos Himalaias e nos vales do Jordão e de Fergana ilustra perfeitamente os conflitos que o uso da água pode gerar. As Nações Unidas identificaram nada menos do que 300 lugares em que podem ocorrer conflitos vinculados à água”.

É interessante começar por notar que os antigos 4 elementos – ar, água, terra e fogo – parecem estar de novo na ordem do dia, aparecendo agora com uma dimensão mítica que se jugava ter desaparecido. Porque faltam e são objecto de disputa ou surgem em toda a sua fúria como a água, o ar ou a terra, ou porque retornam segundo modalidades antigas, como o fogo, que durante séculos fez parte do imaginário das cidades (basta lembrar o grande fogo de Chicago de 1871 ou o fogo que durou dias após o terramoto de Lisboa) e surge agora cada vez mais devastador.

É todo um estilo de vida que está em causa Se o tom catastrófico percorre grande parte do livro de Taibo, nisso não se distinguindo de muita da literatura contemporânea que trata do tema, há, no entanto, duas tendências contemporâneas que consegue evitar: uma crescente despolitização e um moralismo que tem assolado grande parte da imagética à volta das alterações climáticas. Porque, como afirma Taibo, este cenário de colapso é o presente de grande parte da população mundial e as repercussões das alterações climáticas não são iguais consoante se esteja em África ou na Europa – e, mesmo dentro da Europa ou dos Estados Unidos, não é igual para todos.

Um exemplo um pouco ambíguo da despolitização crescente – há um mais evidente: o facto de o tema ter sido capturado por todos os partidos do espectro político português – é um recente cartaz do partido político PAN onde, ao lado do globo terrestre, se lia a frase: “A nossa ideologia é a ecologia”. Quem se pergunte pelo sentido dessa mot d’ordre facilmente percebe que ela permanece irredutivelmente ambígua: tanto pode acolher um programa político consequente com a escolha ideológica como pode significar, seguindo aliás a imagem do globo, que a ecologia não é, de facto, uma ideologia, que diz respeito a todos e a cada um e que aponta para escolhas evidentes, como se fosse uma última chance do universalismo – a escolha do representação do globo, mesmo surgindo nele o continente americano (mas por que não África?), não é a esse nível neutra. É por isto, pelo facto de o caráter global das alterações climáticas e de todos os temas relacionados com ela levarem muita das vezes a uma despolitização, que é preciso realçar o que existe de problemático neste tipo de representação:

“Mas também será bom sublinhar que o conceito de colapso tem uma certa dimensão etnocêntrica. Numa das suas dimensões remete para a condição dos habitantes acomodados de países do Norte, que entendem o que significa porque dão como certo que os seus lugares de residência ainda não foram atingidos pelo colapso. Em contrapartida, como já tinha sugerido, explicar o que significa esta palavra a muitos dos habitantes dos países do Sul é difícil, e isso em virtude do que é em boa medida um paradoxo: esses seres humanos viveram sempre no colapso”.

Da mesma forma que é preciso contrariar uma certa despolitização em que o tema vem caindo – e para isso é preciso realçar que os efeitos do colapso não se fazem sentir da mesma forma, nem com a mesma virulência, em todos os locais, tal como é preciso destacar que há uma verdadeira luta de classes no que diz respeito ao ambiente –, também é preciso combater um moralismo que se vem acentuando. Perante as notícias de que a Europa e os Estados Unidos precisam de não sei quantos planetas para consumir da forma como consomem é preciso perguntar: quem, de facto, é o culpado e o que é que este tipo de estatística, que torna todos em vítimas e culpados ao mesmo tempo, esconde? Uma família que usa um carro a diesel para se movimentar durante um ano polui tanto como quem viaja 2 ou mais vezes de avião por mera recriação – ajudando, ao mesmo tempo, a indústria do turismo, que não está isenta de culpas? Não se aponta, neste tipo de discurso, para uma clara diferença económica, em que o avião – mas não só: é todo um estilo de vida que está em causa – estará, doravante, reservado a um pequeno conjunto de pessoas, fazendo com que a fatura ambiental recaia sobre os outros?

De facto, como mostra Carlos Taibo, é preciso compreender que, por detrás do discurso ecologista se esconde, muitas vezes, uma visão profundamente conservadora e, em muitos casos, perigosa – para além de classista. Traçando a história daquilo a que chama de Ecofascismo, que se mistura muitas vezes com argumentos de ordem malthusiana quanto ao excesso de população (transformando grande parte da população atual excedentária e sem lugar num mundo ecologicamente equilibrado), Taibo aponta para um dado curioso: a vertente ecologista do Partido Nazi, onde “operou um influente grupo de pressão ecologista dedicado a várias tarefas como a adoração da natureza, o renascimento da vida rural ou o vegetarianismo. Essa corrente foi o produto de uma síntese muito particular entre naturalismo e nacionalismo de Estado, concebido sob a influência do irracionalismo anti-iluminista próprio de determinadas manifestações do romantismo alemão”.

Não é difícil perceber, de facto, que uma parte do discurso ecologista contemporâneo entronca nessa deriva conservadora. Com o seu “romantismo agrário”, que apela sempre a uma visão estereotipada do mundo rural e o “contacto com a natureza”, com a mitificação de tudo quanto é natural – onde a natureza é grafada com maiúscula –, com a consequente rejeição de tudo quanto não traga inscrito o selo da natureza (rejeição de todos os químicos, por exemplo) e, acima de tudo, com o seu anti-urbanismo, que é olhado hoje, tal como era há quase 200 anos, como fonte de todos os males, como lugar impuro, sujo, artificial – o judeu, sem pátria, era o habitante por excelência das cidades –, esta deriva do movimento ecologista pode tornar-se tão ou mais perigosa que a luta de classes à escala global que o colapso implica.

 

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