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Boris Johnson. Perfil do novo primeiro-ministro britânico

Boris Johnson. Perfil do novo primeiro-ministro britânico

AFP João Campos Rodrigues 23/07/2019 12:37

De Eton aos clubes de elite de Oxford, Boris criou uma poderosa rede de contactos que lhe permitiu manter uma carreira de jornalista, por entre citações falsas e ameaças de espancamento. Nem os sucessivos casos extraconjugais ou o seu número desconhecido de filhos o impediram de ser o rosto do Brexit e o candidato favorito a primeiro-ministro britânico.

Há poucas pessoas a quem a expressão ‘nascido em berço d’ouro’ se aplique melhor do que a Alexander Boris de Pfeffel Johnson, um filho da aristocracia britânica que pode traçar a sua linhagem até ao Rei George II. O candidato favorito à liderança dos conservadores – e como tal, a primeiro-ministro do Reino Unido – é uma figura polémica da política britânica, sendo conhecido pelas suas gafes e por escapar a escândalos que teriam derrubado a maioria dos políticos.

Johnson nasceu em Nova Iorque, em junho de 1964, filho do político conservador Stanley Johnson, e parecia destinado para o sucesso à partida. Seguiu o percurso clássico da elite governante britânica, estudando em Eton – o mais prestigiado colégio do país – e seguindo para a universidade de Oxford, tirar Estudos Clássicos. Desde logo estabeleceu uma poderosa rede de contactos, dentro da geração oxfordiana que viria a dominar a política britânica. Entre os seus colegas estavam o atual ministro do Ambiente,  Michael Gove – eliminado a semana passada da corrida à liderança dos conservadores – e o futuro primeiro-ministro David Cameron, com quem rivalizou desde os tempos de faculdade, segundo a sua biógrafa, Sonia Purnell. Cameron era dois anos mais novo que Johnson – uma diferença relevante numa universidade tão hierárquica quanto Oxford – e o ex-mayor de Londres não terá deixado de sentir inveja com a subida do seu rival a primeiro-ministro. Algo que terá sido alheio à subita decisão de Johnson de abandonar a defesa da manutenção do Reino Unido na UE, tornando-se o mais destacado organizador da campanha pelo ‘sim’ no referendo do Brexit, em 2016 – que resultou na demissão de Cameron.

 

Bullingdon club

Apesar da sua rivalidade, os dois pesos pesados dos conservadores partilharam grandes momentos de juventude no famoso Bullingdon Club, uma sociedade dos ricos e poderosos de Oxford. Fundado em 1780 como um clube de caça e de críquete, o clube ganhou fama pelo consumo pesado de álcool e demonstrações ostensivas de riqueza, num estilo apelidado de ‘hooliganismo fino’. Equipados com jaqueta e laço, estes aristocratas tinham rituais de iniciação como queimar notas de 50 libras à frente de mendigos, ou destruir a mobília dos restaurantes onde jantavam – pagando dezenas de milhares de euros pelos estragos e pelo silêncio dos donos. É difícil perceber como é que os 93% de britânicos educados em escolas públicas se conseguem identificar politicamente com filhos do privilégio como Alexander Boris de Pfeffel Johnson.

Outro aspeto que tem sido relembrado é a cultura machista vigente nestes clubes, exclusivos de homens. «As mulheres não são permitidas nos jantares formais, mas nos encontros informais fazíamo-las ficar de gatas como um cavalo e relinchar. Trazíamos as trompas de caça e chicotes», contou ao The Mirror um antigo membro deste clube, que ainda defende: «Sim, elas eram degradadas de algum modo, mas era tudo feito de uma maneira respeitosa». Um relato que traz à memória as várias acusações de sexismo contra Johnson, que na sua despedida como diretor do The Spectator recomendou ao seu sucessor – caso este recebesse exigências da administradora do jornal, Kimberly Quinn – que lhe respondesse com «uma palmada no rabo e a mandasse embora».

 

Citações falsas, racism e ameaças de espancamento

O percurso de Johnson como jornalista não foi mais isento de escândalos do que a passagem por Oxford. O futuro candidato à liderança dos conservadores foi despedido do seu primeiro emprego, como jornalista do The Times, por inventar uma citação do seu padrinho, o historiador Collin Lucas, sobre uma descoberta arqueológica que nunca aconteceu. Nem este pecado mortal do jornalismo abalou a carreira de Johnson, que depois de despedido rapidamente foi contratado pelo seu colega de Oxford, Max Hastings, diretor do The Daily Telegraph. Foi neste jornal que o futuro impulsionador do Brexit se estabeleceu como um dos poucos repórteres eurocéticos em Bruxelas — dando ênfase a diretivas europeias menos populares, como a obrigação dos pescadores utilizarem tocas, ou exagerando a suposta proibição de bananas demasiado curvas pela UE.

Johnson – considerado o jornalista favorito de Margaret Thatcher depois de esta sair do poder — acabaria por fazer a transição para colunista, com artigos de opinião premiados – por entre acusações de racismo e homofobia. Além da divulgação de uma conversa telefónica, gravada em 1990, entre Johnson e o seu amigo Darius Guppy, que conheceu em Eton, e cujas alegadas atividades criminosas estavam a ser investigadas pelo jornalista Stuart Collier, do News of the World. Gubby pediu a Johnson a morada de casa de Stuart, com o objetivo expresso de espancar o jornalista que o investigava – algo com que o futuro candidato à liderança dos conservadores concordou. O ataque planeado não foi por diante, e após o escândalo Johnson disse que nunca chegou a entregar a informação ao seu amigo, conseguindo nem sequer ser despedido. Até acabariam por lhe oferecer uma coluna de opinião no jornal irmão do The Daily Telegraph, o The Spectator, do qual se viria a tornar diretor – sob a promessa de abandonar as suas aspirações políticas.

Quantos filhos tem Boris?

A continua impunidade de Johnson estendeu-se também à sua vida pessoal – bem representativa da promiscuidade típica da aristocracia britânica. Os dois casamentos do potencial primeiro-ministro britânico acabaram com traições da sua parte, que causaram escândalos badalados na imprensa. Johnson casou com a sua namorada de faculdade, Alegra Mostyn-Owen, em 1987, mas o casamento ruiu em 1993, após ele envolver-se com a advogada Marina Wheeler – com quem casaria 12 dias depois de o seu divórcio ser assinado, quando já estava grávida do conservador. O casal acabaria por ter quatro filhos ao longo do seu casamento, manchado por vários casos extraconjugais de Johnson. O mais polémico foi a relação com Petronella Wyatt, seduzida pelo agora potencial primeiro-ministro, quando este era seu diretor no The Spectator. Para variar, Johnson teve de lidar com as consequências das suas ações, quando o escândalo foi tornado público, em 2004 – o que o levou a ser demitido do seu posto de ministro-sombra das Artes. No entanto, tudo pareceu esquecido com a sua reabilitação política, em 2008, quando foi eleito presidente da câmara de Londres, com 53,2% dos votos.

Entretanto, Petronella revelou ter abortado duas vezes do conservador, e descreveu a visão de Johnson quanto à monogamia como «decididamente oriental». «Acho genuinamente pouco razoável que os homens devam estar confinados a uma mulher», terá dito à jornalista. Uma convicção a que Johnson se mostrou fiel, tendo sido noticiados outros casos seus, com a jornalista Anna Fazackerley e com a consultora de arte Helen Macintyre. O caso com Macintyre terá sido a gota de água para Wheeler, que o pôs fora de casa em 2010, tendo sido provado em tribunal que Johnson terá tido uma filha com Macintyre – e havendo alegações de que seria a segunda criança concebida por Boris, em segredo e fora do matrimónio. Ainda recentemente – durante o escrutínio que vem com a candidatura à liderança dos conservadores – Johnson tem sistematicamente recusado dizer sequer quantos filhos tem. «A vida pessoal de um indivíduo é preocupação dele», respondeu à BBC.

Contudo, a vida pessoal errática do potencial primeiro-ministro britânico teima em voltar à baila, tendo feito manchete uma discussão entre si e a sua atual namorada, Carrie Symonds, uma spin doctor dos conservadores. A altercação levou a que fosse chamada a polícia por vizinhos preocupados, que disseram ao The Guardian que Symonds terá gritado «larga-me» e «sai do meu apartamento», enquanto se ouviam «encontrões e estrondos», bem como o partir de pratos. Apesar de Hunt declarar não querer introduzir o assunto na disputa pela liderança dos conservadores, não deixou de notar à Sky News que «se Boris recusa responder a perguntas nos media, recusa a fazer debates ao vivo, é claro que as pessoas estão a pensar em quem vão ter como primeiro-ministro».

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