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Hungria depara-se com um tesouro maldito

Hungria depara-se com um tesouro maldito

AFP Diogo Vaz Pinto 22/07/2019 14:07

Vasta coleção de moedas raras foi descoberta num antigo gueto judeu do tempo do Holocausto

O tempo das lendas negras e dos tesouros malditos ainda não acabou. Por vezes, os bolsos da História descosem-se e certos vestígios levam a que a imaginação de novo trema diante da verdade. No passado mês de fevereiro, uma mirífica coleção de antigas moedas de ouro, prata e cobre, algumas da era romana, foi descoberta na cave de um velho edifício abrangido pelos guetos judeus da época da ii Guerra Mundial, na Hungria. Ao todo, 2776 moedas, 24 peças de joalharia e outros objetos pessoais foram encontrados dentro de cinco jarros de vidro que estavam enterrados na cave de um edifício na cidade de Keszthely, situada a 190 quilómetros a sul de Bucareste.

Os atuais proprietários da casa estavam a escavar um buraco depois de terem lidado com um problema de inundação e foi então que deram com pedaços de vidro e moedas. Na carta que enviaram ao Museu Balaton, naquela cidade, contam como a seguir desenterraram cinco jarros cuidadosamente selados: “Quando abrimos um deles fomos sacudidos por uma visão estonteante, tal como num conto de fadas: centenas de moedas, um verdadeiro tesouro”. Ao museu entregaram toda a coleção, pedindo anonimato, e, na carta que também integra a exposição, manifestaram ainda a esperança de que os legítimos herdeiros deste tesouro venham a recebê-lo.

Não tendo ainda sido avaliada, Balint Havasi, o diretor do museu onde a coleção permanece em exibição, explicou que abrangendo diversas épocas e continentes, não foi preciso muito para perceber que se tratava de uma espécie de graal da numismática. E, tendo em conta a localização, logo se firmou a suspeita de que o colecionador deveria ser um dos 829 judeus que foram deportados de Keszthely para “o lugar da morte mais atroz do que qualquer outra”: Auschwitz. Antes do Holocausto, a comunidade judaica local representava cerca de 15% da população. De todos os judeus enviados para o campo de extermínio, apenas 64 terão sobrevivido no final da guerra. Hoje, dessa comunidade, restam apenas 12 pessoas.

Este tesouro carrega o peso de uma maldição e a sua descoberta, além de cobrir séculos, lança um grito sobre o imperativo moral de lembrar o terror que se viveu naquele país. Se há grandes lacunas nos livros de história, estima-se que 600 mil judeus húngaros foram mortos no Holocausto, a maioria em Auschwitz. O certo é que boa parte não foram identificados e os restos mortais continuam em parte incerta. Na carta que descreve o achado, quem a escreveu reconhece que a coleção deve ter um valor imenso, mas que, para lá disso, ecoa o destino de toda uma comunidade. Os autores adiantam ainda que era seu desejo que esta fosse mostrada ao público em 2019, de modo a assinalar o 75.o aniversário do Holocausto prestando tributo à memória daqueles que foram deportados em 1944. A 14 de abril desse ano entrava em vigor o decreto que veio permitir o confisco de tudo o que pertencesse aos judeus – imóveis, objetos valiosos, obras de arte, joias e também ações.

Depois de, nas primeiras semanas, a coleção ter sido fonte de um intrigante mistério, László Klinger, um dos responsáveis do museu, explicou ao site welovebalaton.hu que um dos jarros continha as joias de família que tornaram possível a identificação do colecionador que se viu obrigado a enterrar o seu tesouro. Nas peças de ouro havia uma insígnia com o nome Ferenc Pollák, e as iniciais P.F. estavam também no anel brasonado. Cruzando essa informação com os registos de propriedade do edifício até 1944, os investigadores confirmaram a identidade do dono e têm vindo a fazer um levantamento da história por trás de algumas das joias, assim como reconstituindo alguns aspetos memoráveis da vida daquela família que, sabe-se agora, estava ligada ao comércio de vidro e porcelana e à produção de placas de cimento. Assim, à medida que se vão fazendo novas descobertas, a exposição vai refletindo esses aspetos e ganhando profundidade.

Quanto à coleção de moedas, na sua maioria de prata e cobre, o arqueólogo e numismata Ferenc Redo tem estado a catalogá-las. A mais antiga é originária da antiga Macedónia, da época de Alexandre o Grande, e cerca de 40% provêm da Panónia, uma província do Império Romano que cobre boa parte do território ocidental da atual Hungria. Klinger não tem dúvidas de que Ferenc Pollák sabia o que estava a fazer e construiu de forma metódica a sua coleção, não apenas escolhendo moedas raras mas preocupando-se com o seu estado de preservação.

Aparte as moedas da Antiguidade, há ainda uma série delas que datam do séc. xviii e que, por isso, documentam a história europeia. Algumas são do reinado de Luís xvi e do império de Napoleão, outras foram emitidas pelos governantes dos estados alemães que estavam separados até 1867. Há ainda moedas russas, cunhadas pelos czares, e outras das antigas colónias. A moeda mais recente é de 1943. Trata-se, portanto, de uma coleção que, como um búzio, tem gravado nela o rumor dos séculos, mas que vale tanto mais por ter sido interrompida de forma tenebrosa, lembrando-nos que esse sono dos livros de História está cheio de pesadelos.

 

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