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Taça de África. Da manha das raposas à sede furiosa dos leões

Taça de África. Da manha das raposas à sede furiosa dos leões

AFP Afonso de Melo 19/07/2019 20:35

Argélia e Senegal repetem hoje no Cairo, na final da competição, o jogo da fase de grupos que os argelinos venceram por 1-0

No dia 13 de fevereiro de 2002, eu estava em Bamako, no Mali, no Estádio 26 de Março. Para os malianos, esse é o Dia dos Mártires. O dia em que o ditador Moussa Traoré, no ano de 1991, ordenou que os militares esmagassem à força de balas e coronhadas uma ameaça de revolta que tomara conta das ruas da capital.

No dia 31 de maio de 2002, eu estava em Seul, na Coreia do Sul, no World Cup Stadium, que foi esse o nome que deram a todos os estádios de todas as cidades sul-coreanas nesse campeonato do Mundo dividido com o Japão. Entre fevereiro e maio, da Taça de África para o Mundial, uma equipa em comum: o Senegal.

Há quem diga que essa foi a melhor seleção da história de todo o futebol senegalês, uma das melhores de sempre do continente africano. Treinador jovem, que sofrera as agruras das divisões secundárias francesas, Bruno Metsu – que a morte resolveu levar cedo, em 2013, com 59 anos –, jogadores como o estrambótico guarda-redes Tony Silva ou alguns outros habituados ao grande futebol: Ferdinand Coly, Papa Bouba Diop, Khalilou Fadiga, Henri Camara, El-Hadji Diouf.

No Estádio 26 de Março, frente aos Camarões, vi-os chorar depois da derrota na final por conta das grandes penalidades que desataram o teimoso zero a zero de 120 minutos. Se não eram os favoritos, havia em seu redor uma enorme expetativa. Até porque uns meses antes se tinham apurado pela primeira vez para a fase final de um campeonato do Mundo. Os Leões do Teranga não tardariam a voltar aos escaparates.

Teranga Em wolof, a língua mais falada naquela região da África ocidental, teranga significa um sentimento. Um sentimento de bem receber, de amizade inicial, de respeito por quem chega.

Em Seul fazia um calor de ananases quando se procedeu à abertura da 17.a edição do campeonato do Mundo, o primeiro disputado no continente asiático. Como era hábito, o campeão do mundo em título entrava em campo para a estreia. E a França de Zidane (que não jogou por lesão), Thierry Henry, Marcel Desailly, David Trezeguet e Lilian Thuran viu-se batida por um golo de Papa Bouba Diop ao rolar da meia hora. Foi o dia mais feliz do futebol do Senegal? Acredito que sim. Até porque, mesmo com três meses de distância, é sempre mais fácil recordar uma vitória do que uma derrota. Daí para cá, os senegaleses limitaram-se a surgir uma vez nas meias-finais da Taça de África, em 2006, também no Egito, como agora, sendo afastados pela equipa da casa, e estiveram no Mundial da Rússia, no ano passado, não saindo da fase de grupos. Pode dizer-se que é uma seleção de gerações. À de Diouf e Diop sucede agora a de Sadio Mané (Liverpool), Keita Baldé (Inter de Milão), Sanif Salé (Shalke 04) e Alfred N’Diaye (Málaga). Até onde irá a sua sede furiosa de vitória, sede essa que só os fez perder um jogo e sofrer um golo, precisamente ainda no grupo C, e imaginem contra quem?, exatamente, acertaram em cheio!, contra a Argélia, por 0-1.

As Raposas do Deserto, como se intitulam manhosamente os argelinos, já têm uma Taça de África na coleção, ganha em casa, no ano de 1990, ainda no tempo de Rabat Madjer, Djamel Menad, Moussa Saib e Abderrahamane, a famosa seleção que vergou a Alemanha no Mundial de Espanha em 1982 e se viu eliminada da fase seguinte por causa de uma abjeta moscambilha levada a cabo entre alemães e austríacos que podia muito bem ter sucedido no abominável tempo do Anchluss.

Hoje à noite se saberá se os argelinos entram em campo com a vantagem psicológica dessa vitória na jornada de abertura, com um golo de Youcef Belaili aos 49 minutos. Já não há mais a magia de Madjer, que parecia tirar das botas desejos como se saíssem do fundo de um turbante ou de um fez, mas há Brahimi, também ele com alma portista, Slimani (Leicester), Mahrez (Manchester City) e Feghouli (Galatasaray) – com uma linha para nos recordarmos de Halliche, do Moreirense.

No Estádio Nacional, no bairro de Nasr, na imensidão inquieta e ininterrupta do Cairo, o futebol da África branca e da África negra voltarão a medir forças. O Egito falhou a sua final, talvez haja menos do que as 75 mil pessoas que se esperavam. Mas não faltará de forma alguma essa alegria inexprimível que só a Taça de África consegue transmitir-nos. Acreditem no que vos digo: é uma competição fascinante.

 

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