17/9/19
 
 
António Cluny 16/07/2019
António Cluny

opiniao@newsplex.pt

O reino da chalaça, ou a menorização do debate público

Hoje é difícil dizer se é o discurso populista que contagia o discurso institucional ou se, pelo contrário, é o discurso institucional que, em muitos casos, espoleta o discurso populista.

Por vezes, é necessário que um assunto, sobre o qual temos algum conhecimento aprofundado, nos toque verdadeiramente para nos apercebermos melhor da falta de qualidade que, a nível político, associativo e mediático, muitas das discussões que atualmente se travam publicamente revelam.

Alguns dos problemas da desafetação dos cidadãos à política e muita da desconfiança que eles vão manifestando nas instituições políticas, judiciais, económicas e mediáticas que dão corpo aos sistemas democráticos têm a ver, precisamente, com a falta de qualidade da discussão dos assuntos que interessam à cidadania.

É, aliás, essa falta de qualidade, protagonizada desde logo pelos intervenientes institucionais – e aqui uso o termo no seu sentido mais amplo –, que facilita depois o aparecimento de discursos e filiações populistas.

Hoje é difícil dizer, com efeito, se é o discurso populista que contagia o discurso institucional ou se, pelo contrário, é o discurso institucional que, em muitos casos, espoleta o discurso populista.

Atualmente, leem-se e ouvem-se os disparates mais rotundos no espaço mediático a propósito de qualquer assunto sério que, verdadeiramente, importaria discutir com rigor e acuidade política.

Pior, a proliferação e empolamento de “achadores” profissionais – “eu acho isto”, “eu acho aquilo” – permite nivelar os ditos mais mal informados às opiniões fundamentadas dos que, por exemplo, na política, na economia, na ciência, no direito e na arte têm conhecimentos firmados, o que afasta quem pode e, por isso, deveria intervir informadamente e com proficiência na discussão pública.

O pior de tudo nem sequer reside, porém, nas chalaças que os achadores profissionais lançam, indistintamente, sem algum grau de responsabilidade cívica e sem temor, a propósito de quase tudo e de quase nada.

O pior está, verdadeiramente, na conivência calada que alguns intervenientes mais responsáveis e preparados toleram quando participam, conjuntamente com os achadores e chalaceiros, em debates e programas que supostamente deveriam despertar o espírito crítico dos cidadãos.

Como quem cala consente, a simples presença de intervenientes mais responsáveis nesses pretensos debates atribui aos achadores um grau de credibilidade que eles não teriam se ali exercitassem os seus dotes desacompanhados.

Note-se, todavia, que não me refiro a programas declaradamente humorísticos, pois muitos deles, dada a inteligência dos intervenientes, conseguem até ser mais sérios e profundos do que outros em que a chalaça empertigada pretende pontuar um pretenso debate sério.

Acresce o facto de, por exemplo, nas televisões, os moderadores, em vez de favorecerem a expressão de discursos informados, apelarem sobretudo às “bocas” mais demagógicas e populistas, salientando-as e fazendo delas, depois, matéria noticiosa verdadeira.

É que, se artigos escritos pelos achadores profissionais são da sua inteira responsabilidade – e, nesse aspeto, nada a fazer –, nas televisões, os moderadores poderiam, se quisessem, ter um papel capaz de fazer elevar, e não de rebaixar, o nível dos debates.

A popularização do discurso institucional e, em consequência, a retração cada vez maior daqueles que realmente sabem sobre um assunto em participar nos debates públicos, longe de contribuírem para uma democratização da discussão política, apenas permitem a apropriação do espaço público pelos populistas e por toda a gama de interesseiros e interessados na desvalorização das instituições republicanas.

Se queremos, de facto, contrariar os fenómenos populistas, deveremos todos fazer um esforço para dar mais credibilidade à discussão pública dos assuntos que interessam à formação de uma cidadania ativa e consciente.

 

Escreve à terça-feira

 

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