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Ruby. O luto de ter de deixar ir

Ruby. O luto de ter de deixar ir

Cláudia Sobral 15/07/2019 22:22

Ao som do “punk contra o xisto”, entre as paisagens de Góis, Mariana Gaivão foi tecendo Ruby. O coming of age que no Curtas Vila do Conde lhe deu o prémio de Melhor Realização. 

Os graves fazem tremer as paredes da sala. De repente, é como se toda esta audiência sentada estivesse na cave de um clube, em Berlim, em Londres, mas não. É mesmo em Góis isto, e não é uma sala num clube, é uma gruta. É uma das cenas que marcam Ruby, o filme que Mariana Gaivão levou ao 27.º Curtas Vila do Conde. É a festa de despedida de Millie, a melhor amiga de Ruby que, chegada ao fim do 9.º ano, regressará ao Reino Unido para continuar a estudar. 

“Essa festa foi mesmo uma festa”, produzida para este filme. “Um dos primeiros ecos do que o filme ia ser teve a ver com saber há anos que havia festas ali. Vieram-me imediatamente estas imagens à cabeça, estava sempre a pensar nisso: a festa na caverna, um retorno literal à caverna. Rupestre, ancestral, xamanico.” 

Mas nem de início a paisagem do interior sobre a qual se constrói Ruby engana. É olhar para ela, ao som daquele punk das Clementine, e olhar para ela: Ruby. “A ideia era filmar algum vestígio da ruralidade mas nunca com aquela coisa da aldeia velha, nada disso. É o casaco de ganga contra o xisto. Os punks na aldeia, que têm o Instagram no telemóvel.”

Àquela festa de despedida de Millie, na caverna, literalmente, já quase no final do filme, conduzirá toda a linha narrativa de Ruby, que acorda ao lado da irmã sem saber o que é feito do seu cão, Frankie, e parte à sua procura, com o que já sabia que seria o seu dia a  atravessar-se nessa busca. 

Mais ou menos o modo de Mariana Gaivão ir construindo este seu filme. “O Ruby vem já desta certeza que tenho de que um filme tem de existir como um corpo mas sem destruir o que está a filmar.” Não sendo Ruby um documentário, Mariana Gaivão explica melhor esta forma que foi encontrando de levar à realidade (ou de trazer a realidade para) os seus projetos de ficção: “Tem a ver com poder existir no mundo sem ter que o reencenar por completo - ou, reencenando, que tenha uma estrutura que se possa adaptar ao que estou a descobrir.”

Quando, em Vila do Conde, se sentou à conversa com o i sobre esta sua terceira curta que, apesar de curta, foi construindo ao longo de três anos, Mariana Gaivão não sabia ainda que a Lisboa regressaria com o prémio de melhor realizadora da Competição Nacional. Ela que, paralelamente à realização veio construindo carreira no cinema como montadora (por exemplo, ao lado de Marco Martins em São Jorge). Nessa conversa, explicou como foi construindo o filme numa “rede de atração entre o que desejava encontrar, entre o que aparecia e entre o que surgia entre esses dois movimentos”. 

E é verdade que Ruby e Millie são amigas chamada vida real, para lá da vida ficcionada que existia antes e que continuará a existir depois destes 26 minutos de filme que Mariana Gaivão quis que resultassem como um parêntesis do que o antecede e precede. Quando se sentou para escrever Ruby, que tinha ainda outro título, porque só mais tarde conheceria Ruby Taylor, a adolescente que o protagoniza, a história era a de “uma miúda que queria sair dali”. De Góis, no interior, lugar que Mariana Gaivão conhece desde sempre, das férias passadas numa casa de família. 

Uma miúda que terá criado a partir da imagem que a acompanha desde criança dos miúdos que observava do outro lado do rio. “Uma espécie de rio intransponível, duas margens que não se tocam. Desde pequenina que vejo as famílias que iam para lá, com os putos que eram de certa forma mais livres do que eu.”

Eram as famílias dos imigrantes - ingleses, alemães, holandeses - que ao longo das décadas de 1980 e 90 se foram instalando pelo interior de Portugal à procura de uma liberdade à procura de uma liberdade que sentiam que nos seus países de origem não existia. “Quando escrevi, a Ruby era uma miúda que tinha crescido ali e que achava que estava na altura de sair, mas a amiga não queria ir com ela. Era isto que imaginava. Mas quando chego lá e conheço a Ruby, ela diz-me: ‘Não, eu quero conhecer o mundo, quero viajar, mas esta é a minha casa. Adoro estar aqui. O meu luto são as pessoas que vão saindo’. E isto, que era exatamente o contrário do que eu estava à espera, fazia muito mais sentido. Era um luto contrário, um luto de ter que deixar as coisas ir. O filme é só isso.”

Uma sucessão de “movimentos de libertação e de perda”. Da infância, do cão, da melhor amiga. “E isto não é uma metáfora, é literalmente o que ela está a viver naquele momento, que elevámos no filme a um dramatismo mais conciso, para uma curta-metragem, mas sempre com a ambição de que aquilo esteja quase para lá das margens da curta” Ela, na sua vida em Góis, onde não existe ensino secundário, onde a necessidade de uma decisão como a que enfrenta a sua amiga, prestes a mudar-se para o Reino Unido para continuar a estudar, é real. 

Como é real o processo que atravessa, Ruby ao longo de um dia, até ao desenlace final. Aquele momento em que, de manhã, depois da rave na gruta, encontra finalmente Frankie, do outro lado do rio, e na verdade só o procurava para chegar àquele momento em que o olha, como olhou Millie na festa, e é capaz de lhe dizer: “Vai.

 

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