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CAN. Afinal, o alvo do tiro de Mahrez era a Frente Nacional

CAN. Afinal, o alvo do tiro de Mahrez era a Frente Nacional

Twitter Bruno Venâncio 15/07/2019 20:29

O atacante do Manchester City colocou a Argélia na final do maior torneio africano de seleções, mas o livre direto perfeito serviu também como resposta política. O problema é que os seus compatriotas acabaram por dar razão à extrema-direita francesa...

A FIFA proíbe terminantemente manifestações políticas nas provas por si organizadas. Gestos, palavras ou ações que possam sequer ser conotadas com uma posição política são escrutinadas ao mais ínfimo pormenor pelo organismo que rege o futebol mundial - bem mais do que, por exemplo, manifestações de racismo ou de violência, que infelizmente continuam a proliferar por esses campos fora, seja na África, na América, na Ásia ou na Europa.

Neste caso, tudo aconteceu entre a África e a Europa. Mais propriamente, entre o Egito e a França, apesar de em confronto estarem a Argélia e a Nigéria, com um lugar na final do CAN em disputa. Num jogo muito emotivo - como têm sido, de resto, a maioria deles nesta fase a eliminar do maior torneio continental de seleções africano -, o 1-1 no marcador arrastava-se até aos instantes finais, quando uma falta à entrada da área nigeriana encheu de esperança os corações argelinos. Riyad Mahrez, a grande figura da seleção do Magrebe, não enjeitou a responsabilidade: pegou na bola, tirou as medidas à baliza à guarda de Akpeyi e desferiu um remate perfeito.

A Argélia estava na final, onde irá defrontar o Senegal (bateu a Tunísia por 1-0, mercê de um auto-golo no prolongamento), e a festa de Mahrez seguiu do relvado para as redes sociais. Através da sua conta no Twitter, o craque do Manchester City atirou-se a Julien Odoul, dirigente da Frente Nacional, partido da extrema-direita francesa liderado por Marine Le Pen, que havia manifestado publicamente o apoio... à Nigéria. “Para evitar mais violência e saques nas nossas ruas, para evitar a maré de bandeiras argelinas, para preservar o nosso feriado nacional, força jogadores nigerianos!” escreveu Odoul antes do início da partida. “O pontapé livre foi para si. Estamos juntos”, retorquiu o atacante após o apito final, colorindo a publicação com as bandeiras de França e da Argélia.

 

 

“Italianos ou portugueses não se portam assim” A posição de Odoul em relação à Argélia prendia-se com a onda de violência gerada nas ruas de várias cidades francesas após os sucessivos triunfos do conjunto do Norte de África ao longo da prova. Nos festejos da passagem às meias-finais, por exemplo, registaram-se uma morte e dois feridos graves (entre os quais um bebé) na sequência da perda de controlo do veículo de um adepto argelino de 21 anos em Montpellier, além de outras 74 detenções. Tornaram-se virais nas redes sociais imagens de atos de violência e vandalismo em Paris, com vários grupos a saquear estabelecimentos comerciais e a partir montras nas avenidas centrais da capital francesa, além de atacar as forças de segurança.

Desta feita, o cenário acabou por ser ainda mais caótico: ao todo, registaram-se 282 detenções em França após o apuramento argelino para a final do CAN - só em Paris foram 249, de acordo com o Ministério do Interior. Os incidentes na capital tiveram lugar sobretudo nos Campos Elísios, onde os festejos dos argelinos se misturaram com as celebrações da festa nacional - o 14 de julho, feriado alusivo à Revolução Francesa e Tomada da Bastilha de 1789.

Automóveis, paragens de autocarro e caixotes do lixo foram queimados e vandalizados em Paris, Lyon e Marselha. “Foi o 14 de julho da vergonha. As vitórias da Argélia são o nosso pesadelo. De cada vez que há um jogo deles há problemas, e já desde há alguns anos - Manuel Valls [ex-primeiro-ministro] já o havia condenado”, disparou Sébastien Chenu, porta-voz da Frente Nacional. “Noto que não há problemas quando os nossos compatriotas descendentes de italianos ou portugueses festejam as vitórias de equipas que têm no coração. Neste caso, mais do que um sentimento de patriotismo argelino, a sensação que fica é a de uma rejeição do que é a França: sentem-se mais argelinos que franceses. Na Argélia não há registo de distúrbios quando a seleção vence - e ainda bem, porque me parece que o poder argelino não o iria tolerar muito bem”, acrescentou o deputado nacionalista.

 

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