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Humans Of NOS Alive: porque a música é feita de e para pessoas
Dayna e Patrick

Humans Of NOS Alive: porque a música é feita de e para pessoas

Maria Moreira Rato 13/07/2019 13:32

"Foi tudo apenas um sonho" ou possivelmente não. No segundo dia do NOS Alive, o i esteve à conversa com os festivaleiros para entender se a fantasia pode tornar-se real

Quando o fotógrafo Brandon Stanton criou o conceito ‘Humans Of New York’, em novembro de 2010, através de entrevistas realizadas n’A Grande Maçã, talvez não tenha pensado que a ideia poderia ser adaptada na capital portuguesa. Contudo, milhões de pessoas de variados países, ao redor do globo, já foram retratadas à imagem do trabalho que o norte-americano desenvolve nas redes sociais e também em livro. Desta vez, fomos à descoberta da vertente musical do ser humano num festival que, na noite de sexta-feira, recebeu mais de 50 mil pessoas.

Mas, o que torna o NOS Alive peculiar? Aliás, o que faz dele um dos festivais mais reconhecidos em território nacional? Estas e outras perguntas podem ter mil e uma respostas mas, desde há três anos, o casal Dayna – que diz ter “50 e tal anos” com um sorriso – e Patrick, de 61, da cidade inglesa de Bedford, vêm até ao Passeio Marítimo de Algés “pelo sol, pelos cartazes apelativos” e porque adoram Portugal. Na 13ª edição do antigo Optimus Alive, os ingleses The Cure, Johnny Marr e Idles encheram-lhes as medidas. Vêm sempre juntos mas nem sempre assistem aos mesmos concertos. Até porque, como se pode concluir através do velho ditado, “os opostos atraem-se”, o amor não é feito de concordância total. Ilda e Joshua corroboram uma lei da Física que foi encaixada nas relações interpessoais. Ela, tem 42 anos e é mexicana e ele, com 44, é dos EUA. Vivem em Londres e, pela primeira vez no festival, consideram-no “limpo e organizado” até porque “as pessoas são muito amigáveis e é fácil gostar do ambiente”. E, pelos vistos, também é fácil gostarem um do outro: tal como afirmou Joshua, são amigos coloridos, quase namorados: estão “a chegar lá”.

“It’s Friday I’m In Love” ou, quiçá, possa ser sexta-feira e a amizade e o companheirismo pairem no ar. Sandra, de 39 anos e Maria, de 51, vêm “pelo espírito e pelo espetáculo”. Entre Torres Vedras e Lisboa, descobriram que a jamaicana Grace Jones atuaria no Palco Sagres e essa foi a surpresa da noite. Perdão: o dancehall e urban contemporary da cantora e atriz mas também a “limpeza surpreendente” do recinto. Por outro lado, Marta Fernandes e Tiago Assunção, de 27 anos, reincidentes pelo quinto ano consecutivo nisto de nos sentirmos vivos pela música, acreditam que o “espaço está organizado e maior”. Se pudessem descrever o NOS Alive em poucas palavras, escolheriam “cerveja” e “roqueiro”. E, claro, entre as duas palavras, estariam encaixados os jovens Greta Van Fleet.

É possível haver uma “banda de uma pessoa só”, um one woman show? António Ramalho, de 19 anos e Inês Didelet, de 18, não só acolhem de braços abertos esse parecer como lhe atribuem um nome: o da australiana Tash Sultana. Pela segunda vez no evento onde a frase “foi tudo apenas um sonho” é divulgada constantemente, julgam que a quimera sai demasiado cara: “é festivo, é espetacular, mas o preço não é muito convidativo”. E se as expetativas são positivas relativamente aos artistas presentes, fica o pedido de um “cartaz melhor” para 2020. A eles, juntam-se Catarina, de 30 anos, e Bernardo (nomes fictícios), de 35, para quem as andanças festivaleiras são tudo menos uma novidade mas o “alinhamento fraco” constitui um sinónimo da evolução dos tempos: “é popular e comercial”, dizem eles mas “melhor por ter menos pessoas”.

“We all want a teenage fantasy” e quem subscreve as palavras de Jorja Smith são as irmãs Rafaela, de 16 anos e Nicole, de 14, bem como a amiga Sofia, de 18. Enquanto tiravam selfies, explicaram que costumam marcar presença em variados festivais mas, por vezes, o alinhamento não lhes agrada. Este foi o caso, porém, com “passes de três dias grátis”, brilho a adornar as faces e um entusiasmo contagiante, deixaram-se levar pela alegria geral. Se calhar, não de todos. Vera, de 17 anos e Pedro, de 19, defendem a importância do “convívio e das atividades” mas sentem falta das “tribos” que se criam por outros lugares. Alguém que poderia encher Algés com trap e eletropop? “Post Malone, sem dúvida”.

A fusão de tendências não ocorre somente numa área limitada. Na música, as barreiras desvanecem-se e nasce uma atmosfera propícia à aceitação do desconhecido. Bom, com conta, peso e medida. Pedro, de 37 anos, acompanha quase religiosamente o fenómeno há doze anos e se, por um ponto de vista, “esta é a pior edição”, em alternativa, continua a haver uma grande qualidade: “podemos ver bandas que não se veem noutro sítio” sendo que Margarida e Estefânia, de 30 anos, estão totalmente de acordo com a apologia da diversidade: do ska e do jazz oferecidos pelos Ornatos Violeta até ao indie rock dos Vampire Weekend, as duas amigas estrearam-se no NOS Alive que assumem ser “brutal e urbano”. Inclusive para Vanda e Ana Rosa, de 46 e 14 anos, respetivamente, que costumam partilhar gostos culturais. Mãe e filha conjugam a oportunidade de viver momentos em família com os concertos ainda que "o dinheiro que voa dos bolsos" seja "um defeito" das comemorações portuguesas.

“Ser humano é pertencer à raça humana. Somos todos seres humanos independentemente das nossas diferenças” é possível ler no dicionário online Merriam-Webster. E na segunda noite do festival de verão mais badalado da linha de Cascais, o NOS Alive fez jus a esta designação.

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