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Mário Cordeiro. “As praias que me acompanharam”

Mário Cordeiro. “As praias que me acompanharam”

jornal i 12/07/2019 22:44

O périplo de Mário Cordeiro por aquelas a que chama “suas” praias no país começou em menino, em Carcavelos, e termina na Areia Branca, a que volta durante o ano inteiro.

É difícil dizer qual a melhor praia de Portugal, assim como a melhor cidade, o melhor hotel ou o lugar mais recôndito e belo. É por isso que não alinho muito nos top-ten que surgem nas revistas, todos os anos, por esta altura.

Todavia, como o desafio é “a minha praia”, vamos a ele.

Há várias praias que me marcaram em Portugal (estou já a pôr de lado as de outros países, algumas de uma beleza incontornável, como as das ilhas gregas) e, dado que não sou pessoa de estar esticado ao sol horas e horas, a praia, para mim, tem de incluir uma aldeia, esplanadas, pequenos restaurantes, alguma animação (que não um enxame de turistas, sejam eles civilizados ou grunhos) e beleza natural.

Acho que é isso que procuro numa praia: sossego, contemplação do mar (viciante, devo dizer), curiosidade de observar os movimentos das pessoas (sempre uma fonte de inspiração) e poder saborear um copo ao fim da tarde, enquanto o sol se debruça sobre o horizonte, numa espécie de ritual erótico com o mar. “O que resta na areia, quando o sol adormece no mar” foi o título de uma exposição de fotografia e poesia que fiz, há uns anos, e que expressa bem o que sinto em relação à praia.

Comecei as minhas “lides” balneares na praia de Carcavelos, onde ia com os meus pais e os meus irmãos, no início da década de 60, todos amontoados num Opel Kapitan… não havia regras de transporte nessa altura. A recordação que tenho é de brincadeiras na areia com os vizinhos das barracas, bolas-de-berlim e gelados, e, ao contrário dos meus amigos, não ter de “fazer a digestão”, porque o meu pai sabia que não era necessário estar ali a secar ao sol à espera das malfadadas três ou quatro horas da praxe.

Quando tinha dez anos, começámos a ir para a praia da Luz, perto de Lagos. Aí passei décadas da minha vida, até aos 52 anos. A casa ficava mesmo sobre o mar, e as recordações que tenho é de pesca submarina, esqui, barcos a remos, dias de sueste com ondas enormes (que desafiávamos, num misto de inconsciência e ousadia), idas à discoteca, churrascadas, passeios (ir ver o pôr-do-sol a Castelejo era uma tradição) e aproveitar a beleza de Lagos. Foram anos, sobretudo os primeiros, de enorme cumplicidade com os vizinhos, e formávamos grupos de diversas gerações, mas sempre com um espírito muito grande de unidade e amizade, o que se foi perdendo desde que os nossos pais foram desaparecendo e as famílias se multiplicaram em “doses” bastante avantajadas, sendo o tempo de férias mais repartido pelas diversas proles. Já nessa altura, a praia da Luz era fonte de inspiração para a fotografia e para a poesia. Ler no jardim, a entreolhar o mar e ver as “enviadas” passar para a faina, ao lado do meu pai, era um momento que não esquecerei. Depois, passei eu a pai e entretinha-me a mostrar o mesmo aos meus filhos.

Entretanto, em simultâneo, comecei a passar o mês de setembro na Lourinhã, temperando as idas à praia da Areia Branca com a quietude bela e nostálgica do campo: voltar da praia e ir colher amoras ou, de manhã cedo, apanhar figos moscatel ainda orvalhados, e passear nas fazendas (tirando as insuportáveis moscas) era uma mistura contemplativa, serena e alegre, com doses industriais de leitura. Foi na praia da Areia Branca que escrevi o meu primeiro romance (Jogos de Verão), ao observar as pessoas à beira-mar.

Depois de um interregno breve no Baleal, praia lindíssima (mesmo que Raul Brandão tenha eventualmente exagerado um pouco ao descrevê-la), exceto no mês de agosto, em que a densidade de pessoas e carros, barulho e confusão ultrapassa “o que a lei permite”, voltei a frequentar a Areia Branca, agora durante todo o ano. É fantástica a transformação (para melhor) que a praia sofreu, com esplanadas diversas (a minha preferida é o 100 Pratus), passeios arranjados e passadiços, areia sem gente, mar eventualmente frio (nem sempre) mas no qual nos banhamos com gosto, e grande oferta de programas culturais, musicais e animação. Para quem queira experimentar alternativas há “n” praias perto, algumas inexploradas, com a presença constante do mar. O mar, o mar. E o clima, tão próprio… denegrido por quem não vem para cá, declarado excelente para quem frequenta o Oeste… digamos que o nevoeiro gosta de acordar tarde, e a nortada de chegar cedo, mas há dias fabulosos e a água não é tão fria como as más línguas apregoam. Finalmente, para quem gosta de comer bem, há as semanas do polvo, dos mariscos, do peixe, de tudo e mais alguma coisa, com doses enormes e preços reduzidos. A Lourinhã, essa, sofreu uma “revolução” e tem tudo aquilo de que se necessita.

Enfim, como veem, ao falar de praia, falei porventura de tudo menos de praia no sentido estrito. Debrucei-me, afinal, sobre o que mais me atrai: a beleza, a contemplação, o bem-estar, o descanso, sempre temperado com um livro e os sons da natureza. Outros terão outras recordações e outros desígnios, mas… feliz de quem nasceu e vive num país chamado Portugal. PS: Advogo a permissão de os cães irem à praia, com as devidas cautelas e cuidados, quer para o animal, quer para os outros. Mas a proibição pura e simples parece-me asneira.

 

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