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11 de junho de 1955. Que a morte não regresse a 200 à hora!

11 de junho de 1955. Que a morte não regresse a 200 à hora!

Afonso de Melo 10/07/2019 21:35

O brutal acidente de Le Mans do dia 11 de junho de 1955, que ceifou mais de 80 vidas, deu lugar a uma discussão acesa sobre as competições de automóveis. Muitos quiseram acabar de vez com esses circos fatais.

Com uma fúria enlouquecida, a senhora macabra erguera a gadanha e entrara devastadoramente em Le Mans. A morte arrastou consigo, à sua passagem, 83 espetadores do Grande Prémio do dia 11 de junho de 1955. Ninguém ousaria sequer explicar tamanha devassa. De onde viera esta sanha arrebatadora de sangue inocente? Dos mais profundos confins da sua infinita maldade?

Um mês passado sobre a tragédia, tudo se punha ainda em causa. Havia quem, tomado pelo desespero e pela dor, exigisse o fim de todas as competições automobilísticas. Definitiva e taxativamente. Um pouco por toda a parte, a discussão reacendia-se como fogos inquietos de verão canicular. Marcel Berger, presidente dos Escritores Desportivos Franceses, usava o seu talento para descrever o que vira, nesse fatídico 11 de junho, desenrolar-se à sua frente: “Eu sei que as condições do Circuito de Le Mans eram impecáveis – uma despesa de mais de 200 milhões de francos – porque as vi antes da prova. Um muro de cerca de um metro e meio encerrava os concorrentes no campo das suas façanhas talvez trágicas. O carro do infeliz Levegh, lançado a mais de 80 metros por segundo, derrapa, perde a direção, é projetado contra o dito muro, mas não o transpõe, apesar do tremendo salto que dá no ar, espetáculo que nos gelou nas tribunas. A sua carcaça, suspensa e devorada pelas chamas, atesta que o obstáculo era suficientemente defensivo”.

Mas as dezenas de mortes não foram evitadas. Eram cada vez mais audíveis as vozes que se erguiam contra as corridas de automóveis. Deixavam a morte andar à solta, movida pela sua infame fome de cadáveres. Era tempo de terminar de uma vez por todas com esse circo de horrores.

 

A polémica Berger avançava com clareza na defesa dos circuitos. “Que se passou, então? É que, como se sabe, o carro explodiu. Foram os seus elementos, transformados em estilhaços de granada, que foram ceifar cabeças e membros da multidão. Infelicidade comparável à do avião inglês que se desintegrou há dois anos por cima do campo de Scarborough e cujas peças vieram, também, provocar uma trintena de mortos entre o público que o aplaudia. Alguém falou em proibir os meetings de aviação? Não, a catástrofe foi levada à conta de fatalidade”.

Dirimiam-se argumentos como floretes de espadachins. Sonoros golpes de um lado e do outro escutavam-se por toda a parte. A gramática era, também ela, uma arma usada com estilo, sem parcimónias e abusando-se dos adjetivos. “Que esses campos de weekend transformados em campos de morte sejam definitivamente extintos! É lamentável que as firmas automobilísticas do mundo inteiro limitem as suas ambições e a sua publicidade à questão dos 1500 à hora. O perigo aumenta a cada esquina da rua”. Eis um ponto contra, bradado aos céus de uma França enlutada.

As imagens do Mercedes-Benz 300 SLR de Pierre Levegh, pseudónimo do francês Pierre Bouillin, e da amálgama de corpos estendidos em redor da pista, correram o mundo ainda mais depressa do que os 200 quilómetros por hora com que o piloto se desfez contra o muro de Le Mans. No momento em que sentiu perder o controlo da sua viatura, levantou a mão, prevenindo Fangio, que o seguia. Salvou-lhe a vida. A senhora da gadanha não é infalível.

 

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