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O cérebro online. Da tentação de espreitar o telefone às expetativas irrealistas

O cérebro online. Da tentação de espreitar o telefone às expetativas irrealistas

Dreamstime Marta F. Reis 10/07/2019 21:31

Uma equipa de investigadores australianos publicou na revista World Psychiatry uma revisão de estudos que têm analisado o impacto do mundo virtual no cérebro. Internet afeta autoestima dos jovens, mas pode ajudar a combater o declínio cognitivo na população mais velha. Eis algumas das ideias. 
 

O cérebro adapta-se

A equipa, liderada por Joseph Firth, investigador britânico atualmente na Universidade de Melbourne, na Austrália, começa por explicar que, ainda antes da internet, a investigação já tinha demonstrado que o cérebro é maleável em relação a estímulos e aprendizagens, seja uma segunda língua ou acrobacias. “O uso disseminado da internet introduziu, para muitos, a oportunidade de aprender uma miríade de novas competências e formas de interagir com a sociedade que podem levar a alterações neuronais”. E dá um exemplo: uma investigação publicada em 2015 na revista científica Current Biology concluiu que o uso de ecrãs táteis altera a forma como os estímulos sensoriais das pontas dos dedos são processados no cérebro. 

Há um limite para os amigos de facto nas redes sociais?

Os autores assinalam que vários estudos têm associado a socialização online e offline às mesmas zonas do cérebro, como a amígdala, mas alguns aspetos parecem ativar regiões específicas. Citam um trabalho publicado em 2012 na revista Proceedings of Biological Sciences, que revelou que o número de amigos nas redes sociais online era preditor da densidade de matéria cinzenta em zonas do cérebro implicadas na perceção social. Apesar do potencial para novas ligações, o número médio de amizades genéricas parece manter-se estável em torno das 150 pessoas, com uma estrutura idêntica à do mundo offline, concluem. É conhecido como o número de Dunbar, o limite teórico de relações sociais estáveis. 

Constantemente a espreitar o telefone 


A forma como a internet e as empresas tecnológicas exploram mecanismos de atenção é um dos alertas do artigo. “Os aspetos da internet que não ganham atenção são rapidamente abafados num mar de informações, enquanto aspetos de sucesso de anúncios, artigos ou apps são registados (através de cliques e scrolls) e notados (através de partilhas), e depois disseminados e expandidos”, escrevem os autores, descrevendo novos hábitos, como as “inspeções rápidas e frequentes” aos telefones para receber informações, seja notícias, atualizações nas redes sociais ou contactos. Comportamentos compulsivos que parecem ser o resultado da recompensa imediata que se obtém no acesso a informação, mesmo superficial. 

O mesmo jogo, novas regras: o fracasso à vista

Da mesma forma, a equipa refere que as reações sociais online são idênticas às das interações na “vida real”. Ser rejeitado online ativa a mesma região do cérebro associada à rejeição offline. Embora o “jogo” não pareça ter mudado, há novas regras. “Enquanto, no mundo real, a aceitação ou rejeição são muitas vezes ambíguas e sujeitas a uma interpretação pessoal, as plataformas quantificam diretamente o nosso sucesso social (ou fracasso), fornecendo métricas claras na forma de ‘amigos’, ‘seguidores’ e ‘likes’.” Os estudos sugerem que depender do feedback online para a autoestima pode ter efeitos adversos nos jovens, sobretudo nos que têm um bem-estar emocional menor, e aumentar as perceções de exclusão.

15 minutos de pesquisas chegam para desconcentrar 


A equipa sublinha que além da visão partilhada por professores, que acreditam que o uso de tecnologias está a criar uma geração de jovens que se distrai facilmente, diferentes estudos têm demonstrado que a capacidade de desempenhar várias atividades em simultâneo online não se refletem num melhor desempenho offline, pelo contrário. Já houve estudos a ligar o uso intenso da internet a uma diminuição da matéria cinzenta em regiões do cérebro associadas a manter o foco, descrevem. Uma investigação publicada em 2018 na revista PLOS One concluiu que navegar em ambientes com muitos hiperlinks, por exemplo 15 minutos de compras online, diminuem mais a atenção do que a tradicional leitura de uma revista.

Uma escalada de expetativas irrealistas 

Outro processo comum ao comportamento social no mundo online e offline é a tendência para comparações sociais ascendentes, escrevem os autores. Se pode ser benéfico em condições normais, este processo cognitivo também pode ser sequestrado pelo ambiente fabricado nas redes sociais, que constantemente mostram indivíduos hiperbem-sucedidos, no seu melhor, e usam a manipulação de imagens para aumentar a atratividade. Ao facilitarem a exposição a estas comparações drásticas, produzem-se “expetativas irrealistas”, que podem resultar numa pior autoimagem. Um trabalho associou o aumento de sintomas depressivos e taxas de suicídio entre adolescentes dos EUA ao tempo de ecrã, em particular nas raparigas. 

Uma supermemória: e depois? 

“Pela primeira vez na história, a maioria das pessoas no mundo desenvolvido têm praticamente toda a informação factual na ponta dos dedos”, escrevem os autores. Um dos primeiros estudos a mostrar como o online afeta processos de memorização foi publicado em 2011 na Science. Concluiu que os utilizadores tendem a lembrar-se mais de onde podem aceder aos dados do que da informação em si. “A internet tornou-se a forma primária de memória externa ou transitiva”. Este novo superarmazém pode não se traduzir em mais saber. “Um estudo conclui que indivíduos instruídos a pesquisar online o faziam mais depressa do que os que recorriam a enciclopédias, mas eram menos capazes de invocar a informação de forma precisa”. 

Mais internet, menos inteligência verbal 

Uma das recomendações é que a futura investigação procure distinguir os efeitos da net em diferentes fases da vida. “As distrações digitais da internet e a sua capacidade para sobrecarga cognitiva parecem criar um ambiente não ideal para o refinamento de funções cognitivas superiores em períodos críticos do desenvolvimento cerebral das crianças e adolescentes”, concluem os autores. Citam um estudos que seguiu crianças e jovens entre os cinco e os 18 anos e que associou um uso mais frequente da internet a uma diminuição da inteligência verbal e a diferenças no desenvolvimento de áreas do cérebro associadas ao processamento de linguagem e  atenção mas também a emoções e mecanismos de recompensa. 

E se libertar recursos cognitivos?

Por outro lado, delegar a memória factual na internet poderá trazer benefícios noutras áreas, libertando recursos para capacidades mais ambiciosas, sugerem os autores. “Os investigadores que defendem isto têm sublinhado diferentes campos de atividade transformados pela memória transitiva da internet, como educação, jornalismo e academia. À medida que as tecnologias online continuam a desenvolver-se, é concebível que os benefícios de desempenho da internet possam ser integrados no indivíduo, permitindo novos patamares de funções cognitivas”. Mas há estudos contraditórios: uma investigação concluiu que as pessoas que se saem melhor em testes cognitivos utilizam menos vezes o telemóvel no dia-a-dia. 

Um estímulo para os mais velhos 

Se em relação aos jovens há mais receios, os investigadores acreditam que existem sinais de otimismo em relação à população mais velha. “A internet pode representar uma plataforma acessível para os adultos manterem a função cognitiva. À medida que as tecnologias à base da internet se tornam mais integradas no nosso processo cognitivo diário, os nativos digitais poderão desenvolver novas formas de cognição online, enquanto os adultos mais velhos poderão cada vez mais tirar partido da memória transitiva assente na web e de outros processos emergentes online para preencher (ou até ultrapassar) as capacidades típicas de um cérebro jovem”. Além destes aspetos, sublinham o potencial no combate ao isolamento.

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