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Ai se desse para despir tudo...

Ai se desse para despir tudo...

jornal i 10/07/2019 20:50

Em 1939, os maillots de banho causavam sensação, mas não eram para todas. Viajamos ao verão de há 80 anos a partir de recortes da imprensa. Na revista feminina Eva, um artigo dizia quem podia vestir o quê para se manter a decência e censurava corpos menos esbeltos. Os anúncios tinham em conta os perigos do sol e prometiam milagres antirrugas. N’O Século Ilustrado havia também saudosismo: lembravam-se as desaparecidas praias de Lisboa, quando ir a banhos em Pedrouços era quase como ir a Biarritz.

Baixou o pudor? 

O século ilustrado

“As mulheres despiram-se mais dois centímetros”, declara O Século Ilustrado numa das edições do verão de 1939. “Baixou o pudor feminino? Nada disso. Aumentou o calor. Que significam estes maillots que aqui apresentamos? O êxito da moda, melhor, o êxito das mulheres sobre o estio”. Vai mais longe a redação, num texto que revela mais como os tempos eram outros do que propriamente os figurinos. “Para mais sobressaem nesta dupla página lindos sorrisos e grandes valores plásticos. Por isso, a derrota do verão é um tanto o seu triunfo”, lê-se nestas páginas. “Não há mulher nenhuma, deformada de corpo, que se atreva a apresentar-se em maillot numa praia. Esta sintética toilette é realmente muito cruel para as mulheres que não foram bem dotadas pela natureza... Enfim, as mulheres despiram-se mais, é certo, mas ficaram ainda inteligentemente despidas”. 

DESPIR sim, mas com decência

Eva

 Segundo a revista feminina mais famosa da época, a cinta podia suprimir-se para fazer alpinismo, na praia, no campo, sob os vestidos largos de algodão e, “se é delgada”, sob o short para a bicicleta. “Nada é mais feio do que ver passar uma senhora que, com o movimento, balança as ancas para a direita e para a esquerda. Mesmo o vestido mais elegante perde todo o seu chic”, censurava. O sutiã também só podia ser suprimido por quem tivesse “um peito perfeito” e se não fosse fazer esforços violentos... 

QUEIMAR é diferente de BRONZEAR

Publicidade

Além desta publicidade do Ambre Solaire, havia anúncios ao creme ou óleo Nivea e ao Bronzaline da Nally, a alertar para a importância de proteger a pele das queimaduras do sol e conseguir um bronze saudável. 

MENUS DE VERÃO

Eva

Carneiro frio, sopa de alhos doces, cogumelos com arroz de manteiga e ostras cruas eram algumas das sugestões da Eva para uma semana de regime para o fígado e estômago. Noutra edição deste verão de 1939 dá sugestões para “bolsas modestas”, como arroz feitos dos ossos e restos de carneiro ou pastéis de restos do peixe cozido com molho verde do almoço. Tudo se aproveita.

As festas portuguesas

O século ilustrado

A Romaria de Nossa Senhora d’Agonia, em Viana do Castelo, e o Colete Encarnado, em Vila Franca de Xira, eram algumas das festas do verão português a merecer destaque na imprensa.

A moda da estação

Eva

“Vestido de linho ou flanela amarela, abotoado de cima abaixo, com debruns do mesmo tecido azul-ultramar”, descrevia a Eva. “Fato-macaco com alças e fecho-ecler, feito em linho ou ganga cor de castanha”. A moda é mesmo cíclica.

ANTIRRUGAS milagroso

Publicidade

Ceras para tirar sardas e cremes antienvelhecimento eram um negócio em expansão, com publicidades descaradas. O creme Tokalon, “à venda em todas as perfumarias e boas casas do ramo”, prometia literalmente um milagre. 

Quando Lisboa tinha praias

O século ilustrado

“Agora que Lisboa fica despovoada, aos domingos, para ‘ir para a praia’, e só chama praia à orla fluvial que vai de Algés para cima, vem a pelo lembrar que não há muitos anos se tomavam banhos na Rocha do Conde de Óbitos”, lembra O Século Ilustrado neste verão de 1939. A construção da 24 de Julho acabou com os banhos. “Lembra-te, quando passares no elétrico, que esse chão, por onde corre a linha, já foi praia e que nela, talvez muitas vezes, talvez cada ano, a tua avó, enroupada nas calças de folhos e na bata de castorina azul, avivada de branco, num ‘à maruja’ castíssimo, tivesse banhado, sorrateiramente, a sua beleza tapada”, interpelava as leitoras. “Pedrouços já era uma praia a valer. Já se ia veranear para lá como quem vai para Biarritz ou para o Tréport”. O tempo não para, diziam eles. 

Sumos de fruta de aperitivo

Eva

Eis algumas sugestões para um cocktail quase sem álcool ao estilo de 1939. Já se dizia que o sumo de limão emagrece.

A oitava volta a Portugal

O século ilustrado

Não há verão sem Volta e em 1939 disputava-se a oitava edição da prova. Nestas páginas d’O Século Ilustrado eram publicadas imagens do merecido descanso, com banhos de rio e arranjos de última hora. Ildefonso Rodrigues e Joaquim Fernandes eram os novos ídolos da modalidade. O vencedor foi Joaquim Fernandes.

Mais piscinas

O Século Ilustrado

Cá está um tema que ainda hoje é pertinente: porque não se constroem mais piscinas de campo nos arredores de Lisboa? “Respira-se nestas páginas alegria de viver”, jubilava mais uma vez a inspirada redação d’O Século Ilustrado.

O fumo faz mal aos olhos

Eva

Neste breviário do homem apurado podiam ler-se conselhos da Eva para o público masculino. “Quase todos os homens fumam quando trabalham - especialmente quando trabalham -, o que lhes irrita os olhos. Para o evitar, bastaria fumar com uma boquilha”, recomenda. O primeiro estudo a associar o tabaco ao cancro só seria publicado nos anos 60. A redação considerava ainda “grotescos” os homens que usavam bigode - já nem Charlie Chaplin o usa na sua vida privada, argumentava.

O início da guerra

O século

A 3 de setembro de 1939, França e Reino Unido declararam guerra à Alemanha - o início do conflito que horrorizou a Europa.

Os ares do campo

Eva

O traje típico rural faz a primeira página da Eva, numa referência às férias no campo. Nesta edição, um artigo assinado por Pierre Philipe relata como as férias e as curas de ares se tornaram parte da vida moderna. “Há-as agora por todo o mundo. Entraram nos nossos costumes que, por assim dizer, revolucionaram, com a mais salutar influência sobre a saúde popular. São elas, porventura, que contribuirão, ainda mais que os médicos, para acabar com a terrível tuberculose que dizima as populações das cidades”.

 

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