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Copa América. Os canarinhos esvoaçaram em redor de um peito enfunado de Peru...

Copa América. Os canarinhos esvoaçaram em redor de um peito enfunado de Peru...

Brasil vs Perú, 1970, no México Afonso de Melo 09/07/2019 21:02

Quartos-de-final do Mundial do México. O Brasil-Peru mais famoso da história do futebol. A imprensa peruana entrou em transe apesar da derrota (2-4). E Pelé, simpático, desfez-se em elogios ao estilo ofensivo do adversário e tratou de nomear Cubillas como o seu sucessor.

Em 2002, em Tóquio, no aeroporto de Narita, enquanto esperávamos pelos aviões que nos devolvessem a casa ao fim de um mês e qualquer coisa de campeonato do Mundo, ouvi da boca de Luís Fernando Veríssimo, o cronista brasileiro, este lamento notável: “O pior de tudo é que, por mais Mundiais que o Brasil ganhe, nunca irá ganhar o de 1950...”

Com o Peru passa-se quase o mesmo.

Como Elis Regina, pode sonhar os sonhos mais lindos e de quimeras mil erguer castelos, mas a verdade é que nunca ganhará ao Brasil o jogo de 1970, talvez o mais importante de sempre da seleção peruana.

Quarenta e quatro anos, assim mesmo, por extenso, se passaram sobre a última final do Peru na Copa América. Domingo repetiu a sensação, perdendo para o Brasil (1-3). A derrota face aos brasileiros estar-lhes-á no sangue, entranhada? Houve uma vitória estranha. E hoje, de Cuzco a Chimbote e a Iquitos, todos recordam o nome de Verónica Salinas, a filha do presidente da federação peruana a quem coube, no torneio de 1975, meter a mão no saquinho das bolas que foi a maneira de se resolver a eliminatória entre brasileiros e peruanos. A menina tirou a bola que dizia Peru e ganhou fama nacional, tal como o Peru ganhou essa Copa América. Foi o mais perto que estiveram de uma vingança sobre a derrota de Guadalajara, México, 1970.

Se um inquérito fosse realizado (e até, se calhar, já foi), não restariam grandes dúvidas a quaisquer de que a seleção peruana que esteve presente no Mundial do México em 1970 foi a melhor do país de todos os tempos. O onze que se apresentou em campo nos quartos-de-final, com uma expetativa transbordante de eliminar o Brasil, era um luxo: Rubiños; Campos, Fernández, Chumpitaz e Fuentes; Challes, Mifflin, Baylon e León; Cubillas e Gallardo. No segundo tempo ainda entraram Reyes e Sotil, que seria o menino-bonito do Barcelona de Rinus Michels, uns anos mais tarde.

É verdade que tinham sofrido uma derrota frente à Alemanha Ocidental, na derradeira jornada do grupo (1-3), mas as duas vitórias iniciais (Bulgária, 3-2, e Marrocos, 3-0) tinham posto os peruanos a recato no apuramento.

Guadalajara Para Waldir Pereira, o Didi da folha seca, era um jogo inolvidável. Treinava o Peru contra a seleção com a qual fora campeão do Mundo em 1958, na Suécia, e em 1962, no Chile. Deixar Sotil no banco e não fazer entrar La Torre para a marcação a Gerson (partira-lhe uma perna num amigável um ano antes) valeu-lhe um chorrilho de críticas que o perseguiram até ao seu abandono do cargo.

Aos 11 minutos, Rivelino fez um golo de três dedos e as coisas pareciam ir de mal a pior quando Pelé e Tostão ensaiaram uma das suas famosas tabelinhas para o avançado do Cruzeiro fazer o 2-0, quatro minutos mais tarde. Gallardo reduziu para 1-2 ao rondar da meia hora e a imprensa peruana encheu o peito de orgulho: “Sin embargo, llegaría la reacción de Perú que comenzó a realizar un mejor juego de toques que la ‘Verdeamarela’ con Teófilo Cubillas a la cabeza, Pedro ‘Perico’ León y Roberto Challe, quienes presionaron muy bien a la defensa rival”.

O Peru melhor do que o Brasil? Os jornalistas peruanos queriam acreditar que sim. Tostão fez 3-1, Sotil voltou a criar indefinição no resultado, Jairzinho acertou o 4-2 final. O Peru estava fora do Mundial, mas saía de peito enfunado. Tão enfunado que uma frase de Pelé fez eco por todo o vale do Urubamba: “Al final del torneo fue Pelé quien elogió el juego del buen equipo peruano y sobre todo a Teófilo Cubillas. ‘No se preocupen, ya tengo sucesor y es Teófilo Cubillas’”.

Não foi, como sabemos. Mas a presença do Peru na fase final do campeonato do Mundo de 1970 ficou como o momento mais entusiasmante do futebol do país dos incas. E o jogo contra o Brasil não se apagará nunca da memória coletiva.

 

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