23/1/20
 
 
Vítor Rainho 08/07/2019
Vítor Rainho

vitor.rainho@newsplex.pt

Não deixem que a Baixa seja uma feira de souvenirs

É preciso que pessoas aí vivam para que os turistas ainda encontrem portugueses, sob perigo de correrem atrás do primeiro que encontrem para tirar uma selfie

Sou um daqueles alfacinhas que estão longas temporadas sem ir à Baixa, a dos turistas, das trotinetas, das selfies e dos engarrafamentos. Passo por lá de carro e conheço melhor as Portas de Santo Antão que o Rossio do Nicola, isto para não falar do Chiado, que fica ali ao lado mas parece que está a quilómetros. Neste último fim de semana fui desafiado a ir comer uma sandes de presunto a um espaço espanhol que abriu por aquela zona e fiquei espantado com o número de lojas de souvenirs de coisas portuguesas made in China. Porta a seguir a porta, mais do mesmo.

Nada tenho contra os negócios de pessoas que vêm de outras latitudes, bem pelo contrário, mas deixar que a Baixa se transforme numa imensa feira popular de souvenirs é um pouco demais. Descarateriza a zona e não dá aos turistas uma visão real de Portugal. Estar no Rossio ou nos arredores de outra cidade europeia qualquer é o mesmo, isto no que diz respeito às lojas de recuerdos. É certo que no meio dessas lojas vão surgindo alguns projetos nacionais de qualidade, e os produtos regionais que só se compravam na zona de origem já se podem adquirir na Baixa de Lisboa. Mas subindo um pouco pela Avenida da Liberdade constatamos que os hotéis surgem como cogumelos, o que também não é bom para a cidade. É preciso que pessoas aí vivam para que os turistas ainda encontrem portugueses, sob perigo de correrem atrás do primeiro que encontrem para tirar uma selfie. Passe o exagero, a Baixa de Lisboa está muito melhor do que há 15 anos, mas as lojas históricas deviam ser preservadas, não permitindo a Câmara de Lisboa que nesses espaços possa haver outro tipo de comércio. Recordo-me das retrosarias na Rua da Conceição, das papelarias, das lojas de charutos, de cafés avulso ou de petiscos – a Tendinha ainda resiste mas já não é a mesma coisa, e temos a Beira Gare, que rivaliza com o Trevo pelas melhores bifanas da cidade. Percebo que a vida muda e que os gostos também, mas permitir tantas lojas de souvenirs é um erro crasso.

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