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“Há ouro suficiente no oceano para dar 8 kg a cada habitante”

“Há ouro suficiente no oceano para dar 8 kg a cada habitante”

Marta F. Reis 06/07/2019 12:02

Na conferência Global Exploration Summit (GLEx), Fabien Cousteau lembrou o avô: “Alguém que vive uma vida extraordinária não tem o direito de guardá-la para si”.

A exploração não acabou 

O oceano é um sítio a que posso chamar casa, é o sítio onde cresci. Se pensam que a exploração acabou, estão completamente errados. Dos 3,4 mil milhões de quilómetros cúbicos de volume do oceano, explorámos menos de 5% até à data. Tudo o que veem no Discovery Channel, na National Geographic, no YouTube, é apenas uma fração do que ainda temos por descobrir. Por exemplo, sabiam que há ouro suficiente a flutuar nos nossos oceanos para dar a cada habitante do planeta oito quilos? Mas, por favor, não vão a correr. Os oceanos são uma montra incrível de vida, casa de 70% da biodiversidade do planeta.

Jacques Yves-Cousteau 

Falou para milhões de pessoas ao longo de 50 anos. Para nós, os netos, era alguém de quem ouvíamos histórias de grandes aventuras num tempo em que não havia telemóveis. Não podiam simplesmente ligar para casa se acontecesse alguma coisa numa expedição. Eles partiam por três, seis meses. Tivemos o enorme privilégio de ir com eles nas expedições, eram as nossas salas de aula. Foi a maior dádiva que podíamos ter, enquanto gerações vindouras, para perceber como os oceanos eram suporte de vida do planeta. Se pensam que foi uma vida privilegiada... a nossa família achava que todos devíamos começar do zero. A minha avó era filha e neta de almirantes, garantia que cada membro da tripulação fazia parte da família. Nas férias, eu, por exemplo, tinha de esfregar o barco, todo o verão. Mas isto ajudou-nos a perceber como funciona uma comunidade, como nos podemos ajudar para completar uma missão.

O aquanauta na TV

O Mundo Submarino de Jacques Cousteau (BBC) foi uma manifestação dos desafios mais profundos que eles enfrentaram. Aquela hora de programa que se via ao sábado à noite era o resultado de meses e meses de trabalho. O meu avô costumava dizer que quando alguém tem a oportunidade de viver uma vida extraordinária, não tem o direito de a guardar só para a si. É a essência de contar histórias.

Um momento espiritual

Poder fazer mergulho livre com alguns dos animais mais majestáticos do planeta. Nesta imagem estou num santuário de vida marinha no Havai. Esta baleia estava 20 metros abaixo de mim, eu estava a ficar sem ar. É uma fêmea e estava a descansar. Ver a escala e sentirmo-nos parte da cadeia da vida, em que todos dependemos uns dos outros, e poder partilhar o espaço em paz é uma experiência incrível que nos mostra porque é que precisamos de preservar este ecossistema.

Nadar com tubarões 

Alguns dos meus projetos foram declarados impossíveis. Todos os exploradores nesta sala fizeram algo impossível. A palavra devia ser tirada do dicionário, é uma desculpa para não se tentar ir além do conhecido. Há alguns anos pude liderar uma expedição que me permitiu viver uma das minhas fantasias de criança, não tanto inspirado pelo meu avô mas por um livro do Tintim, Tintim e o Tesouro de Rackham, o Terrível. Na capa havia um submarino em forma de tubarão. Pensei: “Que ótima ideia, porque não ter um submarino para nadar no meio dos tubarões-brancos e ver o que eles fazem quando não estamos por perto?” Fizemos um submarino de teste e, no final, conseguimos obter imensos dados e perceber que não são as máquinas de matar, como tantas vezes são retratados, sobretudo entre maio e setembro no hemisfério norte. Abatemos mais de cem milhões de tubarões todos os anos. Há menos de cem encontros negativos entre tubarões e seres humanos todos os anos, infelizmente, alguns fatais. Quem devia ter medo de quem? Precisamos de viver uma relação simbiótica com o ambiente para construir um futuro viável. (…) O que estamos a fazer aos oceanos, estamos a fazer nós próprios. 

31 dias debaixo de água

Há uns anos tive oportunidade de participar na “Missão 31”. O meu avô teve de construir muitas das ferramentas que permitiram as primeiras explorações submarinas e entre elas estiveram os primeiros habitats subaquáticos, Conshelf 1, 2 e 3. Em 1964 viveu no Conshelf 2 30 dias com a sua equipa, no fundo do mar, numa experiência para ver se os seres humanos conseguiam passar períodos longos debaixo de água. Conseguiram recolher dados não só sobre a fisiologia e psicologia humana, mas também sobre a flora e fauna em torno daquele habitat. Uma das maiores frustrações dos mergulhadores é o tempo limitado que têm, pela questão da descompressão e do gás que levam. Sempre que começamos a ficar confortáveis, é hora de voltar. Então, há uns anos, tive a oportunidade de levar outros cinco malucos para vivermos no fundo do mar, num pequeno habitat pressurizado com 56 metros quadrados, durante 31 dias, para fazer investigação e transmissões sobre a importância da vida submarina. Foi como estar na Atlântida. Pudemos sair para a coluna de água por períodos infinitos - a única limitação era termos fome, estarmos cansados ou termos de ir à casa de banho. Fazíamos dez a 12 horas cada um, o que permitiu recolher dados equivalentes a três anos de mergulhos em 31 dias. 

Uma estação espacial no fundo do mar 

Há imenso potencial na exploração espacial e adorava um dia explorar os oceanos da lua Europa (uma das luas de Júpiter), mas até lá chegarmos há muito para descobrir no fundo do mar. Quão fantástico seria construir a próxima estação espacial debaixo de água para podermos ter não seis pessoas, mas 12 pessoas por períodos muito maiores que 31 dias a fazer experiências e a recolher informação? A poderem acionar robôs, submarinos, explorar ambientes extremos, pôr a tecnologia de hoje ao serviço da exploração oceânica... Esperem até ao próximo outono, pode haver um anúncio. 

Um planeta 

O meu avô costumava dizer: “As pessoas protegem o que amam”. Mas como podem proteger o que não compreendem? A maioria de nós não tem a possibilidade de explorar o oceano. É um sistema de suporte de vida e estamos a tratá-lo como recurso infindável e caixote do lixo. Mais de 60% dos stocks de peixe desapareceram. Trezentos milhões de toneladas de plástico são largados no oceano todos os anos. As alterações climáticas são devastadoras para os corais e outros habitats. E tudo isto nos afeta. Temos de olhar para a natureza para encontrar lições básicas de sustentabilidade. Sem um oceano saudável, não há futuro.

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