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Um teatro que inquieta e nos dá forças contra aquele que nos destrói

Um teatro que inquieta e nos dá forças contra aquele que nos destrói

Diogo Vaz Pinto 04/07/2019 14:06

Na sua 36.ª edição, o mais importante festival de teatro no nosso país deixa transparecer um feroz ecletismo no conjunto das suas propostas, questionando não só “o que há no Mundo”, mas o que é um homem e até que ponto a sua intervenção pode rasgar um caminho através da indiferença.

É preciso ter em atenção o avançado da hora. Achar natural, por isso, que estejam os rapazes tão longe na soltura do sono que mesmo os beliscões apenas lhes perturbam um tanto a barca que sente um pequeno rombo e retoma a sua travessia sonolenta. Aqui, apetece citar um padre mais preclaro que muitos, e personagem de um romance que, por esta hora, já parece que o estamos a ler todos, neste país, nesse fio de baba e sons meio desarticulados que pontuamos entre roncos. Falo de A Noite e o Riso, de Nuno Bragança. E o padre que toma o púlpito de mogno, para falar-nos “numa voz embaladora como um espreguiçar”, diz-nos: “Mansos moços: sei que grande parte de vós está dormindo. Os acordados pensam que me inspiram algum respeito especial. Enganam-se redondamente”... E logo o experto “caçador de almas” dá provas da sua perícia ao guiar por caminhitos de se desencaminhar, e explica que as suas colaboradoras que andam beliscando “aqueles de vós que são espontâneos e descomplexados [e que, por isso, já] ferraram o galho”, o fazem com leveza, não para os acordar, mas apenas inquietar-lhes um tanto o sono. “A naturalidade do seu modo de ser é perturbada por algo que eles não sabem o que é. Amanhã acordarão levemente desajustados. Ao fim de algumas sessões, haverá neles suficiente desequilíbrio para por este entrar aquilo que os que me ouvem já possuem nas entranhas sem lhe saber o nome”.

O leitor só está perplexo diante desta entrada se, atestado de café, mesmo com o tardio da hora em tudo o que respeita à cultura não ferrou já o galho. Pois a tese aqui é simples e é esta: um festival como o que Almada nos serve há 36 anos, mesmo se não recorre a opiáceos do tipo metafísico para atrair as almas, só pode crescer em vigor, no jeito de engatilhar as velhas armas, aprimorá-las para dar mais potência de eco aos seus “tiros reais, carambolas, etcétera”, se já percebeu como tudo hoje segue as regras de uma guerra de atrito. Almada volta a ser um centro que recolhe a saia e se move, busca lógicas de irradiação num tempo em que tudo parece adormecido, mas entregue a um sono inquieto, cheio de sonhos armadilhados, desses que trituram e desgastam.

Esta 36.ª edição tem tudo, tanto para beliscões desses que podem revirar-nos a pele do avesso, como para toques mais suaves, falas embaladoras de quem se espreguiça, e que nem por isso deixarão de guiar com menos proveito os nossos espíritos inquietos. Começa já hoje, e o programa irá espraiar-se até 18 de julho, concentrando em pouco menos de duas semanas um ensaio do mundo, “coberto de pancada e água escura”. Comecemos logo pelo feito que certamente desenha um cume no ano teatral: o desembarque de um dos mais proeminente encenadores contemporâneos, Robert Wilson, que nos traz Mary Said What She Said (Mary disse o que disse), um monólogo de Darryl Pinckney, com música de Ludovico Einaudi, protagonizado por Isabelle Huppert. Depois da estreia da peça no mês passado, em Paris, a atriz concede-nos uma breve visita num momento áureo do seu reinado nos palcos franceses, como atestava o site Art Critique. São duas atuações, nos dias 12 e 13, com Huppert a pisar com o seu pé de vento uma história já muitas vezes contada, no papel de Mary Stuart, rainha da Escócia, e isto numa teia dramatúrgica tecida a partir das cartas que vão mapeando “o seu envolvimento nalguns dos mais afamados enredos do seu tempo”. Huppert/Stuart fala já como atravessada pelo rumor da morte, depois de ser encarcerada, sujeita à farsa de um julgamento que não passou de uma cruel encenação, e, na véspera de subir ao patíbulo, a 8 de fevereiro de 1587, para ser decapitada, ainda o último dos seus amores lhe pesa. Diz-se que tinha mandado bordar no vestido a frase: “No meu fim está o meu começo...”

O programa, tão vasto quanto ambicioso, não deixa que dele aqui se trace mais que a sombra de um organismo que se propõe confrontar “temas candentes dos nossos dias: a desestruturação social, a desigualdade, a emigração, o exílio, as questões de género, a indiferença, o medo, a ascensão dos regimes políticos autoritários”... No texto de apresentação do festival, o seu diretor artístico, Rodrigo Francisco, arranca com uma tão impetuosa quanto desafiante resposta à questão: “O que há no Mundo?” Citando Shakespeare, repete a pergunta do Poeta ao Pintor, na peça Timão de Atenas, a que este responde: “O Mundo degrada-se, à medida que cresce”. Francisco vinca que se a programação acompanha as preocupações dos artistas que a integram, “essa circunstância por si só não chegará para avaliar 'o que há no Mundo', nem eu creio que o teatro tenha de correr atrás da urgência mundana para constituir-se como 'atual'”. Feita esta advertência, o responsável pelo festival ao invés de alinhar pela força do que nos estupidifica pelo susto, pretende antes colaborar para que os beliscões surtam algum efeito menos passageiro. “Se nalgum dos dias (ou semanas, ou meses) seguintes à sua apresentação eles [este conjunto de espetáculos tão diferentes entre si] persistirem dentro de vós, com as suas perguntas e inquietações, então já não será coisa pouca”, sublinha Francisco.

Destacando como, a partir do final dos anos 90, este festival se tornou pioneiro ao trazer ao nosso país peças de criadores de primeiro plano como Peter Brook, Giorgio Strehler, Peter Zadek, Benno Besson, Peter Stein, Claude Régy, Patrice Chéreau, entre muitos outros, Rodrigo Francisco não deixa de destacar a homenagem a Carlos Avilez, encenador, ator e fundador do histórico Teatro Experimental de Cascais, lembrando como, numa carreira que desde logo impressiona pela longevidade, toma peso não apenas a coerência mas a sua dimensão pedagógica.

Entre os 38 espetáculos acolhidos nesta edição do mais importante festival de teatro no nosso país, além do regresso aos palcos de Maria Medeiros, ao lado de Bulle Ogier (actriz francesa que protagonizou L’Amour Fou, de Jacques Rivette), nos dias 7 e 8, merece também destaque a produção "Se isto é um homem", da Companhia de Teatro de Almada, que integra um ciclo de comemorações do centenário do nascimento de Primo Levi, levando ao palco do Teatro Municipal Joaquim Benite, numa encenação de Rogério de Carvalho, a primeira adaptação portuguesa desta obra capital para se ter uma ideia do que foi o Holocausto na perspectiva das suas vítimas. Levi costumava afirmar que, pior do que o sentimento de culpa por ter sobrevivido ao inferno – acreditando que só os piores dos que entraram em Auschwitz conseguiram resistir a um teatro devastador montado com o singular propósito de destruir o espírito humano –, sentia uma culpa ainda maior por pertencer à raça que criou aquele espetáculo da invenção do Mal. E hoje, quando cada um escava em sua volta um buraco de indiferença e distância em relação ao outro, torna-se ainda mais relevante a obra de um autor que, como assinalou James Wood, em cada frase que escrevia punha a ênfase na resistência moral, a ponto de se poder dizer que “a sua prosa é uma forma de ter as botas sempre impecáveis, a postura erguida e orgulhosa”, para que cada segundo de vida seja uma forma de afirmação. “Este negócio de nos agarrarmos à vida é a melhor defesa que temos contra a morte”, disse certa vez, acrescentando que isso continuava a valer mesmo para quem sobrevive apenas aos desafios mais banais.

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